ELES estão na Praça da Sé em São Paulo, mergulhando nas fontes da Glória no Rio de Janeiro. Em todos os lugares eles estão, como se fossem onipresentes, a estampar seu uniforme: roupas encardidas, literalmente descamisados, brincando em volta de uma árvore, adormecidos em um banco de praça. Este é o retrato de um Brasil que luta para chegar ao primeiro mundo.

Com a crescente preocupação dos organismos internacionais, o Brasil viu-se na liderança dos países com a mais cruel estatística, aquela que aponta para o imenso número de menores exterminados, os meninos de rua que, sem cerimônia, nos oferecem a verdadeira realidade brasileira: miséria e fome, ante-sala nacional da delinqüência.

O drama dos menores abandonados é, muito provavelmente, a ponta do iceberg social. São cerca de 4.000 meninos de ruas, assassinados por ano no Brasil. São, então, 4.000 motivos anuais para reflexão tanto de nossas classes dominantes quanto da sociedade brasileira em geral. É de todo lastimável que a questão do Menor seja ainda tratada como uma questão de polícia, e não na esfera do bem-estar social.

A angústia de nossos “meninos do Brasil” foi bem sintetizada nesses versos de Ângela Diniz Dumont Teixeira:

Sou cidadão de que país?

Sou herói de qual história?

Que bandidos terão roubado meu direito de viver minha vida de menino?

Quantas vezes tenho me deparado com este quadro surrealista, no qual crianças são chamadas à vida ainda com seus 8, 9, 10 anos de idade. Estão desabrigadas, à mercê de uma sociedade cada vez mais materialista e insensível ao drama que extrapola as fronteiras do Eu. Para este contingente de crianças do Brasil, muito pouco se tem feito. Eles perderam seus pais e ganharam um país onde passear sua penúria, a terrível penúria da condição subhumana a que são sujeitos. Este tema sempre me absorveu e comoveu.

Quando estive em Délhi, na Índia em 1988, este quadro havia me chocado brutalmente. Lá, como é do conhecimento geral, o ato de esmolar constitui uma contravenção penal, a imensa massa de miseráveis nasce, vive e morre nas ruas. Agora, da Índia de 1988 para o Brasil dos anos 90, encontro já muitas (e assustadoras) semelhanças. É a semelhança do sofrimento abatendo primeiro os mais fracos, aqueles que não têm forças para sobreviver: a vida adulta soterrando a infância.

Quando olho meus filhos bem agasalhados, uniformizados para a escola, sendo chamados à mesa para as refeições ou, quando sou chamado a aplaudir seus desenhos de árvores e sóis infindáveis, ou de uma casa com uma porta e uma janela dou-me conta que sou um privilegiado!

Compreendo, então, que o que de melhor podemos ofere-cer às nossas crianças é nada mais, nada menos, que um lar tranquilo, sereno, em paz. Nada como os limites aconche-gantes de um lar. Mas e toda esta multidão de menores adormecidos nas ruas do país? Dormem eles com sua dor, qual mutilados de uma guerra silenciosa que ceifa as vidas de novas gerações a cada dia, e dorme nossa nação, insensível a esta geração que se perde na luta por alimentos, abrigos, escolas.

Gilberto Dimenstein ficou impressionado quando uma garota de rua havia perguntado a Paula Simas, de sua equipe: — Tia, será que não dá prá mim nascer de novo? Este é o ponto. Os meninos e as meninas de rua gostariam de “nascer de novo”. Anseiam por ter uma nova chance na vida, quem sabe nascer em algum lar, não ter que se preocupar com comida e com cama para dormir. Mas, lamentavelmente, no dia-a-dia, eles vão compreendendo que não existe uma maneira de “nascer de novo”. Na verdade, eles morrem de novo a cada dia, pois a realidade sufoca a esperança. Sufoca mas não mata. Uma breve reflexão do problema nos faz chegar a alguns questionamentos essenciais:

  1. Os menores abandonados, são abandonados por quem?
  2. Viver nas ruas foi opção dessas crianças?
  3. Por que olhamos estas crianças com o estigma de delinquentes mirins e de futuros trombadinhas?
  4. Por que nos justificamos em não ajudá-los, cultivando o sentimento ingênuo de que eles são instru-mentos de pais profissionais na arte de mendigar?

É preciso dar um basta nisso tudo e reescrever nossa história com as tintas claras da solidariedade, desfazer este verniz sujo da omissão, começar a extirpar esta imensa cicatriz que marca a alma brasileira. ‘Abdu’l-Bahá, o renomado sábio persa, nos ensinou que “o homem está no grau mais elevado da materialidade e no princípio da espiritualidade: ou seja, ele é o fim da imperfeição e o princípio da perfeição. Tem um lado animal, assim como um lado angélico e o objetivo do educar é o de treinar as almas humanas para que o seu lado angélico possa sobrepujar o seu lado animal.” É chegada a hora de termos Movimento de Meninos de Rua em todas as capitais do Brasil. A situação dos menores abandonados no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife é rapidamente vivenciada por todo o País. Ao vermos aquelas crianças vivendo ao relento, bem poderíamos imaginar a voz de suas consciências a tomar de empréstimo as palavras da poetisa Ângela Teixeira: Engatinho na esquina do mundo. Do outro lado, a rua. Não sei por onde me levam meus passos. Para onde? Finalmente, estou cada vez mais convencido, que para reverter esta dolorosa realidade nacional a educação é o primeiro front a ser atacado. Só que neste front o Brasil também não figura em um bom lugar nas estatísticas. Nossos professores recebem salários aviltantes. São também abandonados por um sistema impiedoso, onde, na prática, a educação é relegada a um décimo plano na ordem das prioridades governamentais. Aos educadores compete a tarefa de passar a limpo o rascunho onde se escreve BRASIL.

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