Diante do velho tronco de carvalho, no pátio externo da Casa das Juntas, nem sentia o tempo passar. O tronco de carvalho tinha 600 anos e aquela edificaçäo era o Parlamento Basco atravessando o tempo.

Estava em Guernica, há poucos quilômetros de Bilbao, a capital basca e sentia a tristeza pelo futuro que lhe havia sido arrancado naquele fatídico 26 de abril de 1937. Entardecia, às 16:40 hs., pouco antes da audição radiofônica do Angelus, Hitler iniciaria suas experiências buscando aferir o poderio bélico alemão, e sem hesitação despejaria bombas de 500 kg e mais de 3.000 projéteis incendiários de alumínio sobre a população civil de Guernica. Foi o primeiro bombardeio totalitário da história, contando com a aprovação do Generalíssimo Franco, e bem poderia ser o prenúncio dos horrores que eclodiriam meses depois com a Grande Guerra. Em chamas, Guernika era uma visão do inferno, segundo Hitler e não Dante.

A população civil indefesa não encontrava refúgio pois a calamidade vinha do céu, a bordo dos modernos bombardeios e caças, Henkers e Junkers. A marca da brutalidade chocou e continua chocando o mundo: até onde pode ir a estupidez humana, de matar a sangue frio pessoas indefesas, gente como a gente? Esta brutalidade poderia ser comparada a cena de um pugilista como Mike Tyson que, para alardear seu preparo físico, resolvesse de uma hora para outra surrar um idoso ou uma criança de tenra idade. Assim aconteceu com Guernika. E o Mike Tyson não era um, era mais que três mil e a criança não era uma, era toda uma população: crianças, jovens, adultos, idosos, incluindo mulheres gestantes. Tal cena mexeria com nossos sentimentos mais entranhados, estes sentimentos a que chamamos de consternação, indignação.

Foi por esta indignação que havia decidido ir a Guernika naquele novembro de 1993. Acompanhado por meu bom amigo basco, Carlos Allustray, um professor universitário reidente em Getxo, caminhei, sem pressa, pelas ruas de Guernika. Paz, muita paz, era o sentimento predominante naquela bonita cidade e um visitante menos avisado iria comparar o clima bucólico de Guernika com a de qualquer outra pequena cidade do planeta. Próximo, as crianças de uma escola pública brincavam, corriam e falavam em basco, fazendo o Carlos me confidenciar que “a prova de que um idioma está vivo é ver crianças se comunicando nele.” Tinha razão. A história basca é marcada pela preservação de sua identidade cultural, linguística em contraponto com movimentos nacionalis-tas, como o que irrompeu em 1936 levando a Espanha à guerra civil que, afinal de contas, nada mais é que uma forma de suicídio nacional.

Uma guerra civil, seja a da Espanha da primeira metade do século ou esta que continua a derramar sangue na Europa de Sarajevo, é por demais brutal, já que pessoas que falam a mesma língua, compartilham um mesmo passado comum, louvam as mesmas tradições, se engalfinham como que dominados por um frenesi de auto-destruição, esquecidos de que tudo poderia ser diferente, se eles apenas o quisessem. Uma humanidade que carrega uma Guernika na memória coletiva da espécie é digna de nossa compaixão mais profunda. A verdade é que uma guerra é um assassinato cruel que se comete por motivos os mais implausíveis como nacionalidade, língua, território, honra. Este último “motivo” soa patético, pois que nação se sentiria menos envergonhada pela multiplicidade de crimes cometidos contra outros seres humanos, ao longo da História? Onde falhamos que não conseguimos fazer uma espécie de seguro contra futuros genocídios? Se fomos tão engenhosos em detonar toda uma cidade, poderíamos ter sido mais engenhosos ainda para abortar tais planos ainda no nascedouro. Mas não. De Guernika a Hiroshima e Nagasaki, não se passou uma década. Alí, naquele pátio, pisando em folhas amarelas, secas e ouvindo pássaros cantar, fiz uma oração pela unidade do gênero humano e pensei na verdade que estas palavras de ‘Abdu’l-Bahá encerram: “…a luz da unidade é tão poderosa que pode iluminar a Terra inteira…”

Mas volto a Guernika em pensamento. Estou diante desse “iceberg visual” chamado Gernika, ocupando uma ampla sala nobre do Museu Nacional Rainha Sofia, com suas colossais dimensões de 3,5m por 7,8m. Pablo Ruiz Picasso, o genial pintor malaguenho, com cinquenta e seis anos, deve ter sentido o golpe do boxeador profissional a que me referí no início deste texto, e indefeso, respondeu com tintas e pincéis, temperados pela intensidade da paixão, criando este manifesto poderoso dos que, também indefesos, tombaram em Guernika.

A primeira pincelada do mural foi dada em 1o. de maio de 1937, quatro dias depois do massacre civil e Juan Miró, outro gênio da pintura universal, que após visitá-lo diria: “lembro também os dias em que visitava Pablo no seu ateliê e da paixão que ele, homem, punha ao pintá-lo.”

É inegável que Picasso estava tomado de indignação com o holocausto basco e exercia o ato de pintar como forma de protestar contra a opressão, o totalitarismo e futilidade de todo e qualquer meio de destruição humana. Não sem razão certa vez aconselhara alguns pintores dizendo que eles “deveriam ter os olhos arrancados, como se faz aos pintassilgos, para que cantem melhor.” Penso que ao trazer Guernika ao campo visual, Picasso revelava seu melhor Eu, se colocando ao lado dos oprimidos e infelizes da terra e em uma forma de “arte engajada” denunciando o mais perverso dos crimes: o crime contra a humanidade. Nesta visão podemos ver Guernika como um bem acabado modelo de indignação e de denúncia. Certa vez o filósofo francês Roger Garaudy definiu o grito da mulher de Guernika, cujos olhos se transformam em lágrimas como sendo “o emblema universal do sentimento humano.” Do ponto de vista da arte, o mural Guernika sempre será recordado como representante de uma linguagem pictórica inovadora e seus múltiplos símbolos apontarão para uma densidade simbólica realmente única.

E este simbolismo é devastador: são seres que explodem, se contorcem, gritam, como uma mulher que grita com as mãos erguidas e dos caídos braços e pernas saem, como que projetados para o exterior à tela. Curiosamente o quadro fora encomendado pelo Governo da República Espanhola para representar o país na Exposição Internacional que se realizaria no período de 25 de maio a lo. de novembro de 1937. E iniciando uma tradição cigana que tornaria este mural o “quadro mais viajado da história da arte universal”, Picasso o envia em 1938 para Paris. O objetivo não era outro que angariar fundos para os exilados espanhóis naquele país. Como um digno representante da liberdade, Guernika é muito mais que cenas de horror, perplexidade e caos de uma cidade assassinada, é um grito em defesa do homem, de sua dignidade e de sua liberdade. Milhões de pessoas terão as mais variadas reações diante do quadro gigantesco: em princípios de maio de 1939, chega a New York, indo em1953, para o Brasil, sendo exposto na Bienal Internacional da Arte, em São Paulo, no biênio 1955/56 Guernika faz uma tournée por diversos museus da Europa. A viagem continua e os projéteis flamejantes violentando o entardecer de Guernika continuam chocando os frequentadores de museus. No período 1957/1981 é visto no Museu de Arte Moderna de New York até que, em 9 de setembro de 1981, é entregue oficialmente ao seu legítimo dono e destinatário: o povo espanhol, cumprindo assim o desejo expresso de Picasso de que Guernika somente deveria retornar à Espanha quando as liberdades democráticas tiverem sido restabelecidas no país.

Mesmo em solo espanhol, o mural continua a viajar. Em 25 de outubro de 1981, é transferido para o Museu do Prazo (Madrid) e mudando pouco tempo depois e permanecendo até o momento, para o Museu Nacional Rainha Sofia, também na capital espanhola.

Comparo a trajetória de Guernika com estes excertos da constituição da UNESCO: “Como as guerras começam na mente dos homens, também é na mente dos homens que devem ser construídas as defesas da paz.” E para o completo entendimento da verdade que estas pala-vras libertam, Guernika traz a explosão visual de que não podemos ficar omissos e passivos sempre que alguém no mundo seja diminuído em sua maior dimensão, a dimensão humana. Se nada fizermos enquanto podemos, um dia nossos descendentes terão outras Guernikas e outros Picassos a nos relembrar partes de nossa história comum. Passados quase sessenta anos, a cidade e o mural, se imantam e nos trazem a perspectiva de algo novo. Esse algo novo pode ser “uma paisagem e uma mensagem que floresce no coração de todos os que acreditam no valor do espírito”, para usar as refletidas palavras do escritor Saturnino P. Ramón.

Como pensar é só pensar, acredito que as defesas da paz, citadas pela UNESCO, podem ser construídas tendo como projeto o mural de Picasso, esse mestre que se levantou contra a violência humana e que certa vez afirmou que “eu não digo tudo, mas pinto tudo”. Desta vez vez, disse mais do que pintou.

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