Por um Quociente de Humanidade, o QH

Quando pensávamos que os testes de inteligência, tão comuns nos anos 60, estavam em completo desuso, por sua inutilidade prática, vemos ressurgir nos Estados Unidos evidências de que ainda existem pessoas capazes de levá-los a sério. Refiro-me aos autores do The Bell Curve (A Curva do Sino ou A Curva Normal), editado pela Free Press Publishers, uma divisão da conhecida Simon & Schuster, o psicólogo Charles Murray e o sociólogo Richard Herrnstein. Sem apresentar nada de novo no front cien-tífico, o livro teve um grande mérito: trazer à tona o debate sobre a convivência das raças e demonstrar a futilidade da pesquisa científica que busque comprovar a superioridade racial através do cruzamento de estatísticas geradas por testes de inteligência. E aqui encontramos a falácia levantada pelo dueto Herrnstein e Murray de que os brancos são superiores aos negros, em um mundo francamente direcionado para o resgate dos direitos humanos e da unidade racial dentro de um contexto amplo enunciado em meados do século passado: a Unidade do Gênero Humano.

EM BUSCA DAS RAÇAS

Antes de tudo devemos ter em consideração que a ciência tem buscado exaustivamente definir as raças que compõem nossa espécie. Após reconhecer que medir o diâmetro de crâneos, braços, pés constituía uma trabalho muito complicado para a definição de uma raça, com o progresso da genética os antropólogos observaram que através de algumas gotas de sangue era possível referenciar as coleções de genes, mas chegaram à conclusão que existem quatro grupos sanguíneos e esses quatro gurpos se encontram em todo e qualquer grupo racial. Posteriormente foram definidos outros sistemas: Rhesus, MNSs, Duffy, Diego, GM e ainda o HL-A. Utilizando todos esses sistemas, os cientistas chegaram à conclusão que devido a multiplicidade de informações recolhidas a classificação em grupos homogêneos tornava-se extremamente difícil. A opção então recai para o método estatístico, segundo os genes que são específicos de cada grupo. Chegamos ao ponto: Sendo a cor negra característica da raça negra, buscou-se então os genes “marcadores” responsáveis pela cor da pele. Os resultados foram também decepcionantes: os genes não são específicos a uma ou duas raças e as conclusões apontaram para o fato de que todas as populações têm mais ou menos os mesmos genes.

DISTÂNCIA GENÉTICA

Chegam então os biólogos e imaginam uma medida chamada “distância genética”. Esta distância é tanto maior quanto maior for a diferença entre os patrimônios genéticos de duas ou mais populações comparadas. A conclusão é clara: a humanidade não pode ser classificada erm raças pela simples comparação dos patrimônios genéticos, chegando François Jacob, prêmio Nobel de Biologia a afirmar categóricamente: “O conceito de raça é, para nossa espécie, não operacional.” Jacob não fica solitário nessa declaração. O duplamente premiado com o Nobel de Medicina e de Psicologia, Jean Dausset declara que “a idéia de “raça pura” é um contra-senso biológico.” Se considerarmos a afirmação de muitos expoentes da ciência, de que não existem raças, no entanto, temos que conviver com este pernicioso defeito de nossa civilização: o racismo existe! É patético então encontrar alguém racista, se não existem meios científicos que elabore a distinção de raças? O geneticista e escrtor francês, Albert Jacquard afirma que “na verdade, temos medo do desconhecido, de encontrar alguém que não seja nosso semelhante, este medo, por sua vez, transforma-se em agressividade e ódio e assim nasce o racismo.” Fruto do medo e do ódio aos que achamos ser nossos “dessemelhantes”. E a cada vitória do medo e do ódio corresponde uma derrota para a Humanidade como um todo.

É notório o reconhecimento de que as questões dos testes de Q.I. supervalorizam o conhecimento científico, prático, objetivo, bem ao gosto do atual estágio da nossa civilização ocidental, o que nos remete ao questionamento de como seriam os resultados desses testes quando aplicados a culturas guiadas por padrões espirituais, místicos, esotéricos, tais como a cultura oriental ou islâmica? E depois, seria uma justificável e mesmo razoável considerar superior uma raça unicamente pelos números obtidos por alguns de seus membros em um Teste de Inteligência? Nesse caso, seria bom para a raça humana – a única raça realmente existente – que alguém se sinta superior a outro ser humano graças aos números que mensurem sua inteligência? O que pode levar alguém a ser superior, parece-me razoável, seria a capacidade desse alguém de praticar o bem, levar avante o progresso da civilização e possuir uma conduta digna e louvável, capaz de não apenas tolerar mas antes saber apreciar a imensa diversidade humana e não se sentir superior devido à cor da pele ou aos contornos do mapa de sua engenharia genética.

CIDADANIA MUNDIAL

A polêmica levantada pela “Curva do Sino” cresceu em força e amplitude devido ao cabo de força estendido entre militantes racistas, francamente em baixa nestes anos finais do milênio e essa crescente legião de pessoas de boa vontade que concebem a visão de um mundo unido, onde cada cidadão possa exercitar o novo paradígma da cidadania mundial. O contraste entre essas duas forças é que a humanidade foi violentada por muito longo tempo por aceitar ou se omitir ante aqueles que pregavam os falaciosos dogmas de uma pretensa pureza racial. Os gritos e gemidos, os ossos alquebrados de seis milhões de judeus, há pouco mais de quatro décadas, os massacres na Namíbia, Sudão ou Soweto, não terão sido suficientes para comprovar a estupidez e a falácia de se imaginar uma raça superior? Teriam sido os carrascos nazistas mais inteligentes e poderiam ser considerados membros de uma raça superior por colocarem em marcha a solução final, massacrando milhões de seres inocentes, cuja única culpa era não pertencer ao mesmo credo e ter a mesma cor da pele?

Ainda podemos ouvir os sons dos passos apressados de milhares de negros nas ruas de Memphis e de San Francisco, participando de manifestações públicas convocadas pelo líder negro Martin Luther King na busca dos direitos civis negados aos negros nos Estados Unidos. Mais extremado, temos a figura de Malcolm X em busca da dignidade humana: “Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos. Lutamos por… direitos humanos.” E podemos visualizar as ruas de Johannesburgo e de Soweto em festa com a realização das primeiras eleições majoritárias em clima de unidade racial, consagrando Nélson Mandela para a presidência da África do Sul.

Uma luta tenaz e constante contra a discriminação e o preconceito racial e que já recebeu forte impulso internacional com a premiação de três líderes negros com o Prêmio Nobel da Paz: Albert Luthulli (1960), Martin Luther King (1964) e Desmond Tutu (1984), evidenciando que o racismo não é uma luta apenas das vítimas, mas antes, de todos os cidadãos de boa vontade, não importando a cor da pele ou sua ascendência étnica.

OPTANDO PELO QH

Além desses heróis da unidade racial, um tributo especial deve ser dado ao líder indiano, Mahatma Gandhi, que encontrou uma Índia incendiada por conflitos étni-cos, subjugada enquanto colônia inglêsa e através de ação sistemática e não violenta unificou o país, caindo vítima do fanatismo e da intolerância entre hindus e muçulmanos. Se submetidos a testes de inteligência, poderíamos considerar Luther King, Gandhi, Mandella, Steve Biko como seres inferiores? O bispo anglicano Desmond Tutu certa vez observou, com muita propriedade que “de um modo geral os brancos acham que somos humanos, mas não tão humanos quanto eles.” A História nos leva a concordar com Protágoras, o sábio do século IV a.C., que afirmava ser o “homem a medida de todas as coisas.” Fico imaginando quando seria inventado um Teste de Humanidade, substituindo o QI (Quociente de Inteligência) pelo QH (Quociente de Humanidade), pois é necessário que vez por outra procuremos saber como esta’o nosso nível de humanidade, estamos mais ou menos humanos que da última vez? E penso em como seria interessante vermos tais estatísticas: seriam tão alarmantes quanto as “curvas do sino” de Murray e Herrnstein? E busco na literatura sagrada alguma explicação que possa justificar a superioridade alguma raça em detrimento de outra: se o Criador deu ao homem o rosto voltado para o Alto, iria Ele distinguir a cor do rosto que busca Sua contemplação? E encontro no velho Talmude, transbordando sua milenar sabedoria que o homem não deve se sentir enaltecido ou orgulhoso sobre as demais coisas, pois se ele foi criado no sexto dia, o mosquito foi criado antes dele.

FOGOS DA INTOLERÂNCIA

.Guardamos ainda na memória da pele os celulóides com as experiências dantescas conduzidas pelo Dr. Joseph Mengelle em busca da pureza racial e que destinadas ao fracasso tivera que recorrer ao extermínio físico sumário. Temos ainda na memória as cruzes incendiadas do Mississipi, ateadas pelo fogo racista da Ku Klux Klan, essa organização criada em 1866 e cujos objetivos podem ser discernidos nestas palavras de seu chefe supremo, Robert Shelton: “Nada faremos contra os negros desde que eles permaneçam em seus lugares, engraxando nossos sapatos e limpando nossas privadas.” Nossa memória sentimental nos leva aos Navios Negreiros de Castro Alves a amaldiçoar “esses borrões nos mares”. E lembramos da comoção do seriado RAÍZES, retratando 300 anos de opressão e violência contra a família negra de Alex Halley.

O preconceito racial é algo que merece uma ampla reflexão sobre suas origens mais remotas, sempre adquirida ao longo do tempo pelo sistema de valores reinantes em cada época. Vejamos a história do Brasil: índios e negros são escravizados para produzir riquezas para o dominador, não por acaso, branco. Tanto negros quanto índios eram considerados inferiores, como seres dotados de baixo nível de inteligência, e isso concedia aos seus “senhores” uma motivação moral para mantê-los no regime escravista. Como Sartre bem definiu “o racismo é um estado de espírito patológico, uma forma de irracionalidade, um tipo de epidemia.” Nesse caso, já que concordamos com a idéia de ser o racismo similar a uma doença epidêmica, é razoável se acreditar em um estado de saúde alcançável em um mundo direcionado para uma crescente interdependência entre as Nações.

A ERA DOS DIREITOS

Através da popularização de que “a cor do demônio é negra”, passando pela falácia supostamente religiosa de que os negros seriam “espíritos sem luz” e estão pagando por crimes cometidos em outras vidas (karmas). Nos aforismos e ditos populares, encontramos a utilização de posturas incitadoras do menosprezo às pessoas de cor como é o caso da expressão “é um negro de alma branca”, inspirados nos versos de Blake em “minha mãe deu-me a luz no ermo do Sul/E eu sou preto, mas oh!, minha alma é branca…” e do seu oposto “é um branco de alma negra”, passando ainda pelas modinhas populares, como a de Lamartine Babo que tinha como refrão estes versos: “Como a cor não pega mulata/Eu quero é teu amor.”

Nos pampas gaúchos os maltratos a uma criança negra a tornam milagreira na imaginação popular e assim nasce a lenda do Negrinho do Pastoreio. Ao cotejarmos a literatura brasileira, encontraremos uma infinidade de amores voluptuosos entre homens brancos e mulheres negras e sem que esses amores multirraciais produzam filhos. E, no Brasil urbano, que avança para o terceiro milênio, ainda podemos encontrar, em alguns cadernos de classificados dos grandes jornais, anúncios do tipo: “moça branca oferece serviços como auxiliar de escritório” ou encontramos nas telenovelas brasileiras negros em papéis secundários ou em situações de inferioridade social.

O contraponto a qualquer esforço para supressão de direitos é o simples fato de que vivemos em uma era que pode muito bem ser referendada como a Era dos Direitos. Foi esta Era que viu nascer as Constituições Democráticas, as Decla-rações de Direitos: do Homem, da Criança, da Terra e uma multiplicidade de instituições civis dedicadas à proteção das minorias e em defesa desses e de outros direitos fundamentais.

O pensamento de James Baldwin é muito oportuno na esteira da polêmica do “A Curva do Sino”. Ele dizia que quando os brancos aprendessem a se respeitar e a amarem-se uns aos outros, então não haveria mais nenhum problema em seu relacionamento com os negros e este pensamento encontrou simetria nas palavras de Richard Wright, o escritor negro que dizia que nos Estados Unidos “não existe um problema negro, mas sim em problema branco.”

SEM PRETEXTO

Em 1986, em importante documento da Casa Universal de Justiça, ficou afirmado que “o racismo, um dos males mais funestos e mais persistentes, constitui obstáculo importante no caminho da paz” e que sua prática “perpreta uma violação dema-siado ultrajante da dignidade do ser humano para poder ser tolerada sob qualquer pretexto.” O senso de justiça de tão veemente declaração invalida por completo uma superioridade racial branca respaldada por testes de inteligência que por mais que venham a ser corrigidos de sua tendenciosidade, ainda assim não têm força para impedir a tendenciosidade dos cientistas que os interpretam.

Não obstante detectar a deturpação de determinados métodos estatísticos, principalmente quando os resultados almejados buscam diminuir os direitos à condição humana de outros seres humanos, ressalto duas questões de uma pesquisa realizada pela antropóloga Lilia Schwarcz, autora de “O Espetáculo das Raças”: (1) Você é preconceituoso? 99% responderam “não” e (2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% res-ponderam “sim”. Cansado de números, me comovo com os versos de Telles Junior: “Meu peito é matriz onde canta Zumbi Sem toque de sinos, com imagens de Vida!”

Em quantos peitos ouviremos a canção de Zumbi dos Palmares, aquele herói enlouquecido de esperança e mentor de uma nação praticante da unidade racial? Como Richard Herrnstein faleceu recentemente, espero que Charles Murray possa apreciar esta canção.

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