A poesia tem uma estada permanente em Cuba. Havana, por exemplo é bem celebrada pelos poetas. Garcia Lorca foi um dos que escreveram que “se me perco, me procurem em Granada ou em Cuba”. Outro poeta disse que “Havana é para mim, mais que uma cidade, é uma pessoa” enquanto outro afirmou que “Havana é uma morena preciosa que mora no mar… é a pérola do Caribe que o amor tornou livre…” Outros intelectuais cubanos sempre recordam a importância cultural da Província de Matanzas e a referem como a “Atenas de Cuba”. Matanzas, como vim a saber na Praia de Varadeiro, é o nome dado a um grande massacre de índios feito pelos espanhóis quando chegaram aportaram na Ilha. Um país servido pela cultura de um Alejo Carpentier, pela poesia de um Martí e de Nicollás Guillén, pelas composições de Sílvio Rodriguez ou de um Pablo Milanês, e também pela dança de uma certa Alícia Alonso, está sempre muito bem servido. A propósito, durante a VII Feira Internacional do Livro de Cuba, fui apresentado ao grande artista e compositor cubano, Sílvio Rodriguez. Ele, afável e simples, carrega alguns livros embaixo do braço e falamos um pouco sobre a emergência de uma Nova Ordem Mundial, sobre o fraternidade dos povos da Terra e lembro de sua canção Playa Giron, onde ele se pergunta: Companheiros de História Tomando em conta o implacável Que deve ser a verdade Queria perguntar – me urge tanto – Que deveria dizer, que fronteiras respeitar Se alguém rouba comida e depois dá a própria vida Que fazer? Até onde devemos praticar as verdades? Até onde sabemos? Que escrevam, pois, a história, sua história, Os homens da Praia Girón. A música cubana, a salsa, embora um tanto exótica ou folclórica no Brasil, é de um ritmo contagiante e certamente, ainda extremamente bapreciado pelos caribenhos. Os artistas cubanos tem o direito de lançar um disco a cada ano. Tudo pago pelo Governo. Issac Delgado é um famoso cantor de salsa e que se apresenta diariamento no Palácio da Salsa. Seu sucesso atual (?) é uma salsa que diz “O que dicen los caracoles…”. Faz sucesso há 5 anos. Tem também o Conjunto Van Van (diz-se Bam Bam) reinando há muitas décadas com seus metais e suas maracas. Manolín, o Médico da Salsa, também é um dos grandes sucessos entre a juventude cubana. Descobri com uma graduada funcionária do Instituto Cubano do Livro que a melodia da música que conhecemos pelo refrão “Guatanamera, Guajira, Guatanamera” é dos anos 40, quando havia em Cuba um programa radiofônico muito popular que apresentava os crimes ocorridos na cidade em forma de toada e sempre tinha esse refrão. Lembrei imediatamente que esse programa deveria ser a versão radiofônica do nosso conhecido telejornal “Aqui e Agora”. Um dia, um empresário americano financiou a gravação dessa melodia colocando como letra os versos de Marti. A canção logo ganhou mundo na voz de um famoso cantor cubano e hoje é quase um hino cubano e certamente a canção cubana mais conhecida no exterior. Essa funcionária também me disse que desde 1959 não é divulgado pela imprensa os crimes, as tais “páginas rojas de los periódicos” porque “não precisamos ser agredidos com a violência nossa de cada dia”. No 8 de fevereiro fomos convidados para uma reunião com o Ministro da Cultura, companheiro Armando Hart, na sede do Ministério da Cultura. Um senhor de 76 anos, simpático nos recebeu em uma sala cheia de editores e intelectuais. Demonstrou genuina satisfação por termos vindo a Cuba para a VII Feira Internacional do Livro e, sentado, nos dirigiu essas palavras: “A queda do Muro de Berlim nos deixou pendurados em uma parede, com o pincel na mão… e sem escadas. Quando ocorreu esse desastre do socialismo real o papel da cultura foi superdimensionado.” Nesse momento chegaram mais umas 10 pessoas na sala e ele sorridente, interrompe a conversa, para declarar brincalhão: “Como vocês vêem a cultura em Cuba é tão grande que não cabe nesta sala!” E continuou dizendo: “A pergunta que nos faziam era se a cultura conseguiriu produzir valores econômicos. A música, a dança e as artes plásticas conseguiram se autofinanciar mas o mais importante de todos os bens culturais, o livro não podia. Porque o livro é caro e então tivemos que criar o Fundo de Desenvolvimento da Cultura. Em Cuba qualquer projeto cultural que não seja autofinanciado é decidido por um conjunto de entidades e mais a União dos Escritores Cubanos. Aqui não é o Ministro da Cultura que decide. A verdade é que antes o Estado protetor pagava os eventos promovidos pela cultura, dava subsídios. Agora a realidade é outra e isso não podemos mais fazer. O dinheiro pago pelos turistas que visitam nossos museus são depositados em uma conta especial para o Patrimônio Cultural de Cuba.” Enquanto o Ministro está entusiasmado falando uma secretaria lhe entrega um bilhete. Ele lê em voz alta: “O café está servido na sala ao lado, nas mesinhas.” Todos se descontraem e o Ministro retoma seu discurso: “Precisamos fazer parcerias com Insituições Culturais que sejam sérias. A Cultura não se administra, se promove. Temos que notar que a economia cubana está saindo do fundo do poço gradativamente, com muitas dificuldades. A necessidade de uma cultura universal é inevitável e isso poderá ser conseguido através das relações internacionais. Nesse sentido estamos felizes com o fato de a Unesco realizar em Havana, até o final de 1996, uma Conferência para a Cultura, o Turismo e o Caribe.” “A modernidade começou no Caribe, nessas ilhas chamadas por José Marti de ‘Ilhas Dolorosas’. Certa vez um ministro argentino me disse: ‘Vocês são uns naufragos” e eu respondi: ‘Sim, somos naufragos, mas somos sobreviventes e temos o que contar, porque conhecemos o naufrágio por dentro.” “Hoje, chegou-se à conclusão que não se pode construir um mundo melhor com mortes. Não se pode construir um mundo melhorsem ética. Não se pode, também, construir um mundo melhor sem democracia.” “Certa vez, ainda no governo Carter, realizamos em Cuba um concerto de musica reunindo músicos americanos e cubanos. Carter me disse que estava admirado que podiamos fazer um concerto com os americanos e eu lhe respondi: ‘Se vocês`nos mandam bombas, nós lhes devolve-mos bombas mas se nos mandam música, recebem música como resposta.” “Uma cultura universal é inevitável. Queremos conhecer o pensamento do mundo atual. O mundo necessita de um novo pensamento, um pensamento muito além de toda ideologia. ” “Em uma reunião internacional, o Rei do Lesotho fez esse comentário: Na Europa se diz “Penso, logo existo”, na África dizemos “Sinto, logo existo”. Ao que o presidente do Uruguai agregou: “Tenho vontade, logo existo”. Mas eu gostei mesmo foi da conclusão de Federico La Mayor, o Presidente da Unesco, que disse: “Participo, logo existo.” “Martí disse que todo homem tem uma fera dentro de sí e que ele só consegue a excelência quando rende esta fera.” Nesse momento o Ministro disse que estava à disposição dos presentes para responder quaisquer perguntas. Disse que não nos preocupássemos em ser polidos e que poderíamos pergun-tar qualquer coisa, com total franqueza. Ante o silêncio imediato, fiz-lhe a seguinte pergunta: “Senhor Ministro, com a falência das ideologias que sucumbiram junto com o Muro de Berlim, com a falta de capacidade de qualquer sistema ideológico ou econômico de resolver os angustiantes problemas que o mundo atualmente enfrenta. Com a crescente interdependência entre os povos e nações do mundo e que sinalizam para um contexto mais amplo de unidade da humanidade, para a formação de uma consciência de cidadania mundial, como o senhor vê o papel de Cuba na formação desse novo contexto internacional?” A sua resposta foi longa, mas muito pertinente, como era de se esperar pela formação humanística do Ministro Hart. Ele disse: “A crise política no mundo é muito extensa, mas ao mesmo tempo estamos vendo a formação de uma nova consciência. Defender as instituições culturais, internacionais até que o mundo encontre soluções pela via política é a necessidade mais urgente. Assim, a questão passa a ser: Como salvamos o sistema cultural, que inclui a educação, a cultura e a ciência, para que possa ser reinserido nos processos de desenvolvimento econômico e social. Fidel já dizia durante a ECO 92, realizada no Rio de Janeiro que existe apenas uma espécie em grave perigo de estinção no planeta, o homem. Na verdade estamos vivendo uma época de desenvolvimento cientifico descontrolado. O desenvolvimento material está também fora de qualquer controle. Seria falta de ética renunciar ao princípio de que todos devem ter assegurado o direito de lutar pela justiça. Se não podemos lutar pela melhoria da qualidade de vida dos povos que sofrem, ao menos devemos sentir a dor dos que sofrem. A justiça tem seus fundamentos no mundo moral. O mundo se globaliza, é verdade. Mas também se regionaliza. Eu acredito em um universalismo que respeita as identidades, porque creio que a universalidade não é a soma de homens, mas sim a soma de identidades. Direitos humanos, os famosos direitos humanos, não apenas aqueles que dizem respeito ao direito individual, mas antes aos direitos da família, da comunidade, da sociedade.” Encontro nessas palavras do ministro Hart uma conexão com os melhores sentimentos desses tempos em que vivemos. A preocupação com a unidade dos povos parece muito emergente nesse pensamento. A oportuna menção a que as identidades étnicas e culturais dos povos devam ser preservadas me remete faz constatar que caminhamos de uma forma ou de outra para um mundo que começa a reconhecer sua unidade essencial, e que unidade na diversidade é o seu verdadeiro lema. As palavras de Hart bem poderiam ser subscritas por pensadores e filósofos, estadistas e pessoas bem intencionadas que em tantas regiões do planeta compartilham essa experiência de que a planetização da humanidade é inevitável.”

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