Estamos em meio ao primeiro ícone comportamental do século XXI: a geração Harry Potter. Com edições que alcançam os milhões de livros editados em quase uma centena de países e organizados em quatro sequências de aventuras, a saga do pré-jovem Harry Potter vem encantando adolescentes e jovens, adultos e idosos, que interagem com a história e seus personagens através dos livros e do filme e mais uma infinidade de produtos que acompanham a agressiva campanha de marketing, indo de camisetas a jogos eletrônicos, de bichinhos de pelúcia a itens do material escolar. Antes que nos vejamos totalmente seduzidos pelas forças da magia e… do grande capital, convém fazermos uma breve pausa para refletir sobre o que já é considerado o primeiro fenômero cultural de massa deste primeiro século do terceiro milênio.

O poder da emoção – Um misto de medo de forças sobrenaturais e de virtudes aparentemente colocadas em segundo plano como amizade e coragem vêm à tona quando o assunto é Harry Potter. Tanto o livro quanto o filme se torna um passatempo absorvente por despertar tanto no leitor quanto no expectador a curiosidade para saber como irá terminar a aventura. E assim nos deixamos levar por um recém-nascido trazido por uma motocicleta envenenada do céu e que aterrissa em uma pacata rua onde um gato que logo irá se metamorfosear em circunspecta senhora idosa e mais um bruxo à moda antiga que deixará na soleira de uma porta aparentemente comum uma carta bem sobrescritada informando que o bebê é Harry Potter e que naquela casa residem seus últimos parentes consanguíneos. É assim, nesse mundo mágico, que Harry passa a existir. O resto da história irá ter elementos próprios dos contos de fadas e dos contos de magos, gnomos e bruxos, unicórnios e centauros, poções e feitiços.
Aqui cabe um primeira pergunta: Qual o preço a pagar pela atenção do adolescente que tem o livro nas mãos? Porque a leitura se torna fascinante quando reúne elementos mágicos, oníricos, muitas vezes arquetípicos?

A vida como ela é – Atrevo-me a tatear respostas. No consumismo pós-moderno em que estamos envolvidos até o pescoço nada que seja real parece causar qualquer sobressalto, qualquer curiosidade. Esta é a vida possível e que aparece em nossa sala de visita e em nosso quarto através do programas de televisão que continuam a nos despertar para o puro voyeurismo, o desejo imediato de saber o que se passa entre quatro paredes, sejam estas do quarto, da sala ou do banheiro. Os limites físicos e morais que um ou outro consegue (ou não) superar também nos chega pela TV nossa de cada dia. O termômetro a atestar a febre alta que enferma o corpo da sociedade parece se chamar Ibope, este instrumento que mede o tamanho de audiência. E quanto maior a febre maior o número de curiosos para saber do que o ser humano é capaz se este estiver isolado em uma casa tendo que conviver com pessoas que nunca antes lhes foram apresentadas. Ou então, saber como as pessoas realmente são quando têm que conviver em grupo em condições ditas adversas e que terminam oferecendo a milhões de telespectadores cenas explícitas de racismo e comportamentos de um egoísmo crônico.
Saindo da frente da telinha da televisão, vamos encontrar a violência no trânsito, as muitas crianças que dificilmente conhecerão Harry Potter, expondo seu sofrimento e dor nos muitos cruzamentos de sinais e nos estacionamentos improvisados por todo o perimetro urbano. Os jornais continuarão a chamar nossa atenção com manchetes impressar em letras tamanho 18 ou 26 para a guerra no Afeganistão, para a epidemia na África, para a CPI do momento investigando corrupção no judiciário ou na Confederação Brasileira de Futebol. E mais as greves na saúde e nas universidades. E também o novo avião que despencou sobre a cidade. É o mundo do imprevisivel este em que vivemos: tragédias podem ocorrer a cada segundo e virão sempre de onde menos estamos esperando. No mundo de Harry tudo é previsível, a começar pelo conhecido enredo que tem como premissa básica a idéia de que o Bem sempre há de vencer. Os poderes dos calouros de Hogwart irão superar qualquer maldade de velhos ranzinzas a cuja menção um frio parece irromper na espinha ou na boca do estômago.

O mundo dos trouxas – Este é o mundo que o universo de Harry Potter chama de o “mundo dos trouxas”. E é nisso que ele acerta em cheio: sabe nos definir à queima roupa com uma expressão que não pega pesado e que no entanto nos faz vestir a carapuça.
Somos trouxas porque não conseguimos criar um mundo real mais belo e atraente que o mundo de Hogwarts, a imponente escola de bruxos para onde Harry e outros ícones adolescentes irão se graduar.
Somos trouxas porque não conseguimos demonstrar o poder das ações puras em nossos relacionamentos familiares e sociais e no caso de Potter, ele consegue de forma misteriosa se ver livre de sua família de trouxas marcada pela injustiça, pela indiferença, pelo favoritismo, pela ganância, pela falta de solidariedade.
Somos trouxas porque estamos preferindo anestesiar nossos filhos com histórias e personagens que talvez devessem ficar circunscritos no sagrado território da infância sem nunca ter que avançar pelos anos da adolescência e da juventude.
Somos trouxas porque parecemos incapazes de inventar uma nova história para nós e para nossos filhos. Uma história que tenha elementos reais de coragem, determinação, imaginação, bondade, companheirismo, amizade, honestidade, discernimento e pureza. E não serão estes elementos que nos seduzem em Harry Potter e a Pedra Filosofal ?
Somos trouxas porque deixamos de lado aqueles bons momentos que poderíamos dedicar a nossos filhos, mantendo uma conversa agradável, bem-humorada como a boa porta aberta ao diálogo entre os que se amam, entre as gerações que ao se encontrar poderão também se desencontrar para sempre.
Somos trouxas porque descobrimos tardiamente que há duas décadas foi necessário a vinda de um Extraterrestre para que voltássemos a reencontrar o caminho da emoção e agora, nossos filhos e netos irão encontrar pelo mesmo caminho segurando na mão de Harry. Existe um parentesco entre o E.T., de Steven Spielberg em 1982 e Harry Potter de Chris Columbus em 2001 é o mesmo: quando a realidade pesa demais há que se libertar em nossa imaginação o super-herói, aquele que irá nos apresentar as velhas verdades com a roupagem futurista dos sonhos e da magia.
Somos trouxas também porque parecemos incapazes de transmitir a nossos filhos os valores que sabemos ser indispensáveis para criar uma nova sociedade, como a rejeição aos preconceitos e as discriminações raciais, religiosas, sociais, o respeito aos direitos da mulher, a busca constante da verdade esteja onde estiver.
O mundo mágico de Harry Potter parece então ser uma opção válida quando o mundo dos trouxas não tem atrativos mais sedutores que um passeio consumista pelo shopping da cidade.
Os Personagens – O velho maniqueísmo pega carona com Harry Potter, chegando com toda força. Ao lado dos bons o time começa com o personagem-título Harry, seguido pelo reitor de Hogwarts Alvo Dumbledore, a Professora Minerva, Hagrid, Hermione, Levine, Roney e até o dúbio Professor Snape. Do lado mau a equipe é comandada por Voldemort, o titubeante Professor Quirrel, Draco Valmoy e mais uma dupla de gêmeos. Entre eles, vivendo no mesmo edifício ou no extenso quintal-floresta estão os já mencionados unicórnios, centauros, dragões, cachorro de três cabeças em um mundo onde as escadas mudam de direção, no qual os fotografados estão sempre em movimento e o espelho reflete mais que nossa imagem, concede aparência a nossos desejos mais secretos. Estes personagens irão então, aos poucos, se aparentar com a Cinderela, a Bruxa da Branca de Neve, a Bela Adormecida nas mentes e memórias de milhões de crianças.
Tenho quatro filhos, sendo que três viram comigo Harry Potter. Thomas com 15 anos e duas garotas, Jordana com 13 e Anísa com 12. As meninas leram o livro tanto em português quanto em inglês. Lara, de 3 ½ anos, ainda não está pronta para Harry Potter. Espero saber aproveitar o gancho que o filme oferece para tratar de toda esta pauta aqui rascunhada. É tempo de acreditar em um mundo onde a felicidade pode ser real, pode ser possível e onde todos podem ser vistos com seus altos e baixos, sem que isso anule por completo a condição humana. Uma condição muito sofrida e muito solitária.

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