(* os textos em negrito são trechos da carta de Clarice Lispector)

“Berna, 2 de janeiro de 1947”

Em 2003 o diretor Sönke Wortmann lançou seu filme de Das Wunder von Bern ( O milagre de Berna). O roteiro abordava os dois eventos que marcaram a história da Alemanha no pós-2ª Guerra Mundial: a queda do Muro de Berlim e a histórica vitória da Seleção da Alemanha na Copa do Mundo de 1954, que ficou conhecido como o milagre de Berna, numa referência à cidade suíça onde ocorreu o jogo. As lembranças do jogo, que deu à Alemanha seu 1º título mundial, são mostradas através da família Lubenski, que vive na pequena cidade de Essen-Katernberg. Mas, entre 1945 e 1954, não teria acontecido um outro milagre? E, de longe, será que não eclipsaria os dois milagres anteriores? Refiro-me à carta que a escritora Clarice Lispector escreveu em 2 de janeiro de 1947.
Deve-se ter em mente que a II Guerra Mundial terminou em 7 de maio de 1945 quando a Alemanha se rendia incondicionalmente em Reims e deixando um saldo de 50 milhões de mortos, custando nada menos que cerca de US$ 1,5 trilhão.
Sobre o muro de Berlim, aquela estranha cicatriz plantada na alma da humanidade, somente seria destruído em 9 de novembro de 1989. Foi naquele dia que as autoridades comunistas da Alemanha Oriental informaram aos moradores que o acesso ao outro lado da cidade estava liberado. Por volta das 22h, uma multidão pacífica marchou em direção as passagens do muro de Berlim querendo ir para o outro lado. Os guardas da fronteira, sem saber o que fazer, levantaram as cancelas e deixaram o povo passar. Foi o começo do fim do Muro de Berlim, fato que representou dois importantes marcos: a reunificação alemã e o fim da guerra fria.
Pois bem, na desolada cidade suiça a escritora Clarice Lispector escreveria sua carta a uma amiga que chama apenas que “Querida”. A carta cruzou oceanos e deixou atrás de si um vigoroso libelo sobre a condição humana, encantando tantos quantos a leram. Foi um milagre no sentido de sua autora – já consagrada na literatura brasileira – ter conseguido o feito de trazer à superfície do ser os velhos questionamentos existencialistas. Densa de humanidade e vestindo as palavras com as mais dolorosas que desafiam a condição humana desde o início da noite do tempo, Clarice avançou em território virgem: o pensar e pensar sobre a felicidade humana possível. E as marca que deixou no papel continuam tão vivas como se tivessem sido escritas há poucos minutos atrás. Procurando mergulhar no coração da missiva aventurei-me 58 anos depois a refletir sobre seu conteúdo. É o que segue.

“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma”

Sim. Somos o que pensamos. Pensamos da vida e da morte. Dos sonhos e da realidade com que tecemos a colcha de nossa existência. Já afirmava Shopenhauer que destino é caráter. E o que é o caráter senão esse desejo intenso de tocar asas de borboleta sem machucar? O caráter de uma pessoa transcende o jogo de valores morais. O caráter se manifesta como raios de um sol meridiano nas coisas grandes e também nas pequenas. Por gostar de ler Clarice, por sentir que ela conseguia encontrar a palavra certa na hora certa e por saber que essas palavras me transmitem uma serenidade que não vem deste mundo, sei que as conseqüências já começam a bater à porta. Meus filhos sabem que encontro repouso no texto de Clarice e respeitam Clarice por esse poder terapêutico de me dizer coisas indizíveis. Sim, há um silêncio pontuando as sílabas que formam as palavras escolhidas por Clarice. Essas sílabas respiram em mim. Batem lá fundo em minh´alma. Uma frase aqui e outra mais ali e eis, tenho a moldura de meu sentimento à flor da pele, algo tão palpável quanto o teclado que sente o calor de meus dedos a ordenar as letras que logo serão palavras luminosas. Olho uma criança de seus seis ou sete ano e bem poderia pensar sobre o que futuro lhe reserva. Mas não, olho essa criança já pensando sobre o que o seu passado lhe reserva. Somos um pouco da soma dos dias vividos que irão se projetar para além, transbordando nos dias do porvir. Ninguém continua a ser o mesmo quando foi tocado pela palavra curadora, quando se deixou bafejar pelos sentimentos aprisionados no coração das palavras. E a vida jamais continuará a ser a mesma. Houve, então, um valor agregado. O da poesia em estado de vida, pulsante, latejante.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”

Passamos muito tempo tentando fazer o impossível: cortar a nossa sombra, deixar aparente apenas a nossa luz. É a velha luta que separa o que somos do que gostaríamos de ser. E ninguém quer ver seu lado menos nobre, sua natureza mais humana, assim escancarada, ao escrutínio de nossos contemporâneos. E muitas vezes, somos o pequeno Davi lutando contra o temível e poderoso Golias, como relatado na milenar fábula judaica. Desde a mais tenra infância somos induzidos a realçar apenas os aspectos mais belos e altruísticos de nossa existência. Esquecemos que quanto maior a luz que passamos através de nossos pensamentos, palavras e gestos, maior ainda será a sombra que se projeta, logo ali na esquina da alma. Somos um só. Um equilíbrio saudável entre luz e sombra, entre o Yin e o Yang, o positivo e o negativo. E manter esse equilíbrio custá-nos muita energia emocional, psíquica. Ferreira Gullar afirmou em seu poema Traduzir-se: “Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.” E assim é. Voltamos ao marco inicial da existência humana: Somos todos um. Como disse o sábio persa ´Abdu´l-Bahá: os poetas e os profetas vêem com a luz de Deus, restá-nos fazer as pazes, selar um acordo solene: eu sou eu e minhas circunstâncias (Ortega Y Gasset) e eu sou eu e minha sombra, meu lado menos nobre mas nem por isso menos humano.

“Nem sei como lhe explicar minha alma”

Essa é a Clarice. Ela que parece ter se vestido de mistério, usando roxo cor-de-alma para tentar explicar uma alma que desde há milênios habita paragens etéreas, de puro sentimento-cor-de-vida.São aquelas coisas que desafiam os mortais de todas as eras: como explicar o que não se explica logo de entrada? E não se explica logo na saída? E que entra pela porta dos fundos da existência? Nem a mente lapidada de Einstein ousou responder a questões como esta. E quando lhe inquiriram a responder se poderia provar a existência de Deus. A resposta foi simples como simples são as questões que nos desafiam ao longo da vida: “Para provar a existência de Deus, basta que olhemos atentamente uma flor.” E deu a conversa por encerrada. Ficamos encerrados no mistério da alma que não ousa se explicar. Mas hoje minha alma amanheceu como pão dormido. Dura como pão dormido. Mas com fome de beleza. Se você me pedisse para lhe explicar minha alma, apenas pensaria que ela se encontrava naquele amanhecer se saciando por tanta beleza. Mas os amigos nos fazem abrir as portas da alma, de par em par, como portais para o que é novo e é cativante. Se eu encontrasse hoje, às 14 horas e 19 minutos com Clarice, saberia que sua alma não comportaria explicação alguma. Pois, ela é o que é. E o que é sempre conseguirá escapar do emaranhado das palavras, do labirinto das definições.

“Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa”

E põe preciosidade nisso. Estou convencido que nem um vaso da dinastia Ming (1368 a 1644) poderia ser mais precioso que a gente. E nem todos os belos girassóis de Van Gogh, pintado antes ou depois de decepar a própria orelha seria mais precioso que a gente. Há um mistério rondando este texto. Um mistério que embora silente faz mais estardalhaço que os caras-pintadas em 1992 exigindo a deposição do presidente alagoano. É esse mistério que quer encontrar um espaço para entrar neste texto. O precioso nos atrai. Como a mariposa é atraída pela chama da tênue luz que emana da vela. O precioso nos conduz a caminhos nunca dantes palmilhados e nos faz dar umas braçadas no mar da vida, qual Camões tentando salvar os Lusíadas em mar revolto. Com água tocando as bordas do exemplar, do texto fundador da língua portuguesa, consigo entender o precioso que é ser e se sentir humano. Somos preciosos, preciosos demais. Agora sinto-me invadido por suas últimas palavras antes de embarcar na missão final e fatal: “Se voltar, o que será preciso dizer aos homens?” Ele não voltou mas deixou um rastro luminoso, do mais puro ouro, abastecendo reflexões mundo afora. Um rastro que lembra o deserto da solidão humana que se encanta com um príncipe muito pequeno, cabelos cor-de-ouro, balançando ao vento e falando de verbos igualmente preciosos como, por exemplo, o cativar.

“…e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias”

E eu que já pensei uma e mil vezes em desistir de tudo. Mas, você, Clarice, o que me diria quando, numa tarde de sol escaldante, protegido apenas pelo parapeito de um edifício desses pequenos de tão somente seis andares, pensei seriamente em deixar a vida me levar? Existiria um atalho entre o desistir e o continuar sendo o que se é? Muitas vezes sou o próprio remador das galés no tempo do Império Romano: há que se continuar remando e agüentando as chicotadas para não se perder o ritmo dos demais remadores. E isso custa uma energia e um esforço descomunal. Meus colegas de remo bem o sabem disso. E o sabem com muita dor nas costas e no espírito. Mas, então, paro e olho as circunstâncias. Elas me abafam, sufocam até não mais poder. É que estamos sempre às voltas com o que somos e o que pretendemos ser. O que nos leva ao nosso melhor eu e aquilo que nos conduz ao eu que queremos esquecer. Mas a salvação possível está em não ceder, em não trapacear o jogo da vida, em não escamotear a verdade maior, essa verdade que se mistura atabalhoadamente nas veias e que termina conduzindo o sangue vital ao coração. Como diria o poeta: meu coração de tanto bater, acabou parando. Posso desistir de ser um pensador afável, acomodado em meu cantinho do livre-pensar, falante quando o desejo seria o de parar de falar, e também de continuar andando quando tudo me diz que devo acionar o freio de mão e tudo. Mas, uma coisa é certa: a maior traição seria desistir de ser este que luta até às últimas forças para continuar sendo eu mesmo. Sem tergiversar. Sem compactuar com o velho perigo que ronda o universo de Clarice, aquele da comodidade da alma.

“Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo”

Respeito. Respeito! Respeito? Existirá algo mais necessário que o respeito nos dias atravessados que vivemos? Encontramos movimentos de cidadania que tratam do respeito ao meio-ambiente, que defendem o respeito à camada de ozônio, que postulam os direitos das espécies em risco de extinção. Muitos daqueles dotados de “boa vontade” para com o planeta estão na luta pela preservação da tartaruga marinha e da ararinha azul e do mico-leão dourado. Mas, quem respeita o ser que habita em nós? Em que lugar se alojou a ararinha azul nas planícies impregnadas de bons sentimentos? Um dia, caminhando pelo plano piloto de Brasília, comecei a entender que somos aquilo que pensamos, se realmente pensamos com justiça. E fiquei espantado com a solidão que permeava os que, muito próximos de mim, também caminhavam. E o respeito tem a ver com o cuidado que devemos ter, primeiro, com nós mesmos, depois com toda a espécie a que pertencemos e depois a tudo que fica alojado abaixo do sol de Brasília. E vi um menino de rua, na flor de seus doze (ou seriam treze?) anos. Ele logo me chamou de tio e criamos de imediato um parentesco cósmico: era um sobrinho pedindo uns trocados para um picolé acessível na banca de jornais da 202 Sul. Olhei-o nos olhos e nossa solidão encontrou um ponto de união, mesmo que fosse apenas por um breve instante. Era uma sensação de presença. A presença respeitosa pela humanidade que ele carregava – e que parecia, de longe – muito mais extensa daquela que eu carregava. Coloquei a mão no bolso e lhe entreguei algumas moedas. Ele sorriu e nossa humanidade se completou. Havia respeito no ar. Respeito nos corações. Éramos trapos há poucos instantes que logo se transformaram em roupas de domingo.

“Eu queria tanto, tanto estar junto de você”

Aconteceu quando passava pela velha Déli, no planeta chamado Índia. O ano: 1987. Um mar de braços e pernas e túnicas brancas, marrom-claros e cinzas se avolumavam em minha direção. Se nunca fui tão só, solitário e humilde. Fui ali, naquele dia indiano quando o sol teimava em se por. A pior solidão é a que sentimos quando estamos imersos na multidão sem cabeça e somos apenas um rosto a mais rasgando a paisagem urbana. E foi isso o que senti. E queria tanto, tanto, encontrar rostos amados, queridos, curtidos pelas tardes quentes do verão carioca ou bafejados pela brisa que sopra na eterna praia de Ponta Negra, no litoral natalense! Mas não, todos os rostos eram signos e símbolos de uma equação matemática complexa, dessa que lutamos por entender poucas horas antes da prova fatal e que é ministrada por um professor sisudo, confiante de que ensinou – e bem – aquela tal de “bi quadrática de segundo grau”. Retornei ao Hyatt Regency Hotel, encravado no coração da nova Déli. E chorei porque a condição humana nos prega essas peças. Estava só no meio da multidão e não havia nenhuma “pedra no meio do caminho” como diria o poeta itabirano. Estar junto de quem amamos é como fincar no Himalaia a bandeira de nossa pátria interior. E, então, não importa o frio da solidão e o terreno íngreme no qual nossa alma insiste em ascender.

“e conversar e contar experiências minhas e dos outros”

Breves minutos de prosa, de palavras soltas ao vento, de frases carregadas de emoção, de se sentir partícipe no imaginário do interlocutor e poder trocar experiências – minhas e suas – … existirá lugar melhor para repousar as retinas cansadas e ver o que tem dentro do mistério chamado Vida? Corremos contra o tempo. Afobados, buscamos a melhor vaga para estacionar o carro. Apressados, comemos cru o pão da vida que é colocado diário no banquete nosso do dia a dia, o banquete dos famintos de presença humana. Acelerados, esquecemos de estender as mãos aos que, às margens do rio da vida, nos suplicam um pouco, um milionésimo do nosso tempo. São as primeiras impressões que ficam quando conhecemos alguém. E como conhecemos alguém? Certamente que não apenas pelo cartão de visitas que se nos estendem. Nem pelo rosto indecifrável que nos observa, olho no olho, face a face. Conhecemos alguém pela maneira como esse alguém fala de si, descreve a arquitetura, muitas vezes impalpável, dos seus melhores sonhos. Quando alguém nos apresenta um coração alado, leve como pluma de bem-te-vi, sensível como a última gota de orvalho que logo irá secar ante os primeiros raios do sol de um amanhecer. O que você me diz de você tem o peso de um outdoor de shopping center anunciando um novo modelo de telefone celular. Me diz bem pouco, creia-me. O que vai me falar de você é exatamente o quanto de humanidade que você carrega, de forma impune, pelas estradas da vida. E são em nossas conversas que o humano em mim entende o humano em você. Uma conversa que sempre abarca um mundo novo de símbolos, sons, signos e pedaços de sonhos, estilhaços de utopias há muito detonadas. Com esses resquícios de seu eu, me enriqueço. Compreendo então a frase que brotou do coração de Clarice: “viver ultrapassa toda forma de entendimento.”

“Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo”

Cuidamos de muitas coisas ao mesmo tempo. Mas nem sempre cuidamos de nós mesmos. Não me refiro a cuidar apenas de uma boa alimentação, de acompanhar a quantas anda nosso coração sempre pressentindo uma elevação dos níveis do colesterol. Nem estou tratando aqui das obrigações que sobrecarregam nossa roda viva contemporânea: trabalho, faculdade, laços familiares. Estou buscando ver quanto tempo dedico aos meus sentimentos. O que venho fazendo com os meus dias que sucedem, ainda bem!, de forma indefinida e tão segura quanto o avançar dos ponteiros do relógio. Tenho deveres com o governo distrital e por isso tenho que pagar as várias taxas. Deveres com o governo federal, sempre tentado escapar de uma maior mordida do leão do imposto de renda. Deveres com a família, com o bem-estar da esposa e dos filhos. Deveres com o trabalho, aquelas tarefas intermináveis que me fazem sentir estar, constantemente, enxugando gelo. Mas, e os deveres comigo? A minha relação com Deus, tantas vezes esgarçada, maltrapilha? E os deveres com meus amigos, envolvidos eles também no caos nosso de cada dia? Hoje quero realizar os deveres comigo, como nunca antes os realizei. Quero pintar sonhos usando a paleta de cores da mais pura emoção. E compor uma sinfonia que me conecte de vez com o Sagrado que em algum momento foi soprado em mim e do qual não tenho encontrado sinais nos últimos tempos. Quem sabe, devo começar pelo começo da existência: onde está a pureza original com que dei meus primeiros e trôpegos passos no duro chão de terra? Quero compor um painel ou um vitral que tenha todas as cores humanas. As cores do desespero, mais sombrias, e as cores da esperança, mas verdejantes, de um verde que Renoir, mesmo com sua genialidade conseguiu pintar. E o amarelo solene do trigo exposto ao sol do meio-dia. Hoje, o primeiro dever será comigo. E o primeiro dever me diz que devo manter um coração puro, bondoso e radiante.

“Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil”

Como em um baile de máscaras em um salão de bailes veneziano procuro intensamente encontrar alguém para contar que estou mais vivo que nunca, que encontrei uma razão utilíssima para viver. Pensei nas palavras agrupadas de forma cartesiana, lógicas, racionais qual definições de palavras há muito dicionarizadas. A orquestra continua tocando e o baile parece uma ferveção de cores e sons. E, por um átimo de segundo, minha alma enlaçou meu espírito e saiu a dançar em passos largos e longínquos. De repente me vi rodopiando pelas paisagens da infância, ouvi sons de trens correndo trilhos afora e encontrei rostos amados de quem esteve na hora em que disse minhas primeiras e desconexas palavras. Outra música irrompe no salão e eis-me ali, embalado por água em profusão, me afogando na piscina de minha casa na infância paranaense. Estou agora passando em revista os sentimentos mais puros e mais belos. Esperança! Presente. Amor! Aqui. Ternura! Sim. Qual pedra da Roseta, busco alguém no salão para uma nova dança. Alguém que me decifre enquanto é tempo. E há toda essa inutilidade pairando no ar. Todos esses sentimentos querendo ser sentidos. Mas o que eu queria te contar trava a batalha “do conto ou não conto”, do “sinto ou não sinto”. Cansei de sentir quando não encontrei correspondência de sentimento. É como se o velho e bom Beethoven após compor a Nona Sinfonia, um amanuense lhe dissesse: “Mestre, o que irás compor agora?” Imagino que a resposta de Beethoven seria algo como…um par de olhos marejados. A grande inutilidade que se semeia na vida é a constatação de que não seremos lembrados pelos que não degustaram todo o mel que nossa existência trazia em forma de botão e de broto.

“Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida”

No início era o verbo. Não, no início era a espírito. E o espírito se locomovia através do verbo. E o verbo era a roupagem que adornava minha existência. Acontece que meu caráter é muito criativo e evita toda forma de convencionalismo, de frases feitas, de jargões jornalísticos. Meu espírito é muito chegado a um pôr-do-sol que teima por findar. E é atraído por tudo que recenda a humano. Meu espírito é nômade e meu pensamento tem idéia fixa por lugares estáveis e sólidos. Quando meu espírito se produz para viajar, meu pensamento se encarapita logo em Havana ou em Barcelona ou no Posto 6 de Copacabana. Somos dois viajantes eternamente traçando e retraçando roteiros de viagens. Viagens infinitas, onde um quer me levar à Grande Muralha da China e outro aos Patamares dos Santuários em Haifa, Israel. Nunca chegam a um acordo. E por isso sou assim uma espécie de tribunal de pequenas causas, sempre dando ganho de causa a um a e outro. Preciso prevenir os desavisados que nem sempre faço a viagem dos meus sonhos pelo diletantismo estrondoso que me leva a carregar malas e malas onde o passaporte seria nada mais que um sorriso no canto da boca. Mas vá entender pensamento e sentimento. Estão sempre me pregando peças. E os scripts nem sempre são da lavra de uma Clarice ou de um Brecht. Às vezes sigo mesmo pelo roteiro de um Foucault ou de um Habermas ensandecido. Preciso prevenir um e outro. Senão a vida fica de todo inadministrável.

“Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar”

A velocidade de cruzeiro me faz bem. O céu de brigadeiro me convida a novos e instigantes vôos. Entre um e outro há o medo de não conseguir conservar, como azeitonas em vidro hermeticamente fechado, esse benfazejo caráter que se apossou de mim e me fez dar um cavalo-de-pau na modorrenta vidinha que luto por levar. Um dia uma pessoa me escreveu dizendo que estava prestes a cometer suicídio mas que abriu uma página de O despertar dos anjos e isso lhe fez mudar de idéia. Foi esse meu melhor eu que deve ter escrito aquela página salvadora. E é esse melhor eu que tento restaurar dentro de mim como tentamos tantas vezes restaurar aquele texto escrito com dor que o computador, por um estado de humor doentio, insistiu em apagar de sua calejada memória. Mas, agora, como que fazendo um back-up, preciso contar para mim como era aquele meu melhor eu. Provavelmente ao escrever aquela página especial um sopro de vida me tocou o coração e fez libertar um espírito novo sobre o papel. Teria sido aquele espírito que no início dos tempos pairava sobre as águas antes mesmo que a luz tivesse sido criada? Não sei, mas precisava te contar isso antes que, como Clarice, eu me transformasse no Tom antigo, insistente, sempre se recusando a ser o meu eu idealizado. A luta para se alcançar o melhor eu é árdua, penosa e lenta. Tão lenta quando o cor-de-rosa para chegar a ser vermelho carmesim. Já a luta para ser o “eu da rotina” é instantânea, rápida, imediata. Não exige esforço nenhum. Simplesmente chega e se apossa das nossas melhores e mais acalentadas aspirações. Triste, muito triste, a condição humana.

“Querida, quase quatro anos me transformaram muito”

E foi assim que o que antes era algodão em flor veio a se transformar em terno de linho. A borboleta borboleteia pelo jardim, incólume, imersa em sua missão de ser borboleta, totalmente esquecida que um dia foi larva, semente semi-líquida de borboleta. Assim também sou eu e uma meia dúzia de bilhões de seres humanos: sempre em processo de transformação, sempre em forma de edifício inacabado. Os últimos quatro minutos me mudaram muito. Encontrei um baú sem alças, posto diante de mim e cheio de recordações que achava estarem há muito perdidas. A única coisa que não muda, que não se transforma, é a mudança. Trago comigo várias pessoas que um dia se apossaram de mim, agiram como se eu fosse, declararam guerras e assinaram tratados de paz em meu nome. Esses diversos eus fizeram o que tinham que fazer e viveram, no dizer de Clarice, o que tinha que ser vivido. Como Piaf em tempos pós-modernos, continuo achando que não me arrependo apenas das coisas que não fiz. Mas há esse tratamento carinhos pelos que nos são queridos e preciosos. E sei que no que me transformo quem me ouve, me vê e me lê, também se transforma. Meteoros vagando por galáxias também sofrem transformações. Alguns até sonham em novos big-bangs. Outros, nem tanto, se contentam com a existência mineral tão apropriada aos meteoros. Mas existem meteoros que, vez por outra, estacionam em mim e parecem me dizer, de forma desaforada: “Humano é o que você é!”.

“Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas”

Estava no Louvre. Em maio de 1983 a capital francesa continuava em festa. Entre milhares de objetos de valor, objetos que cavaram sólidos espaços na memória coletiva da raça disputavam minha atenção. Vi a Vênus de Milo maneta. Observei negro granítico do código de Hamurabi. Passeei por entre quadros de Rafael e de Boticceli. Me espantei ante um sarcófago egípcio. Mas foi o sorriso da Monalisa que me deixou intrigado. Era uma espécie de meio-sorriso, algo assim à meia-boca. Tampouco fiquei pensando sobre o porquê do sorriso da Monalisa. Deveria estar rindo de mim e de você, leitor, ao estancar os olhos nessas alinhavadas do coração em momento de dilatada poesia. A verdade é que me resignei ante o mistério dessa musa de Leonardo. O que teria feito ele – o Da Vinci – para extrair daquele rosto tão tragicômico sorriso? Seria o esgar de ter ficado muito tempo imóvel, pacientemente esperando seu criador dotar-lhe de feições que iriam transcender os séculos à frente? Perdi o interesse pelas coisas quando notei que ela abriu um pouco mais o sorriso como a me saudar pelos pensamentos inoportunos que estava tendo. Ali não estava mais um diletante apreciador de arte e uma pintura enigmática. Estava um aprendiz de Leonardo tentou apreender o momento em que foi dada a última pincelada. Um aprendiz que pareceu flagra uma só palavra: “Feito!” É quando me veio a idéia de resignação. Aquela Monalisa rechonchuda, cabelos de azeviche, roupas hoje um tanto antiquadas, para existir, foi necessário que o pintor se resignasse de que aquela era a Gioconda escolhida. Nenhuma outra. Tão somente aquela.

“Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura comparação”

A primeira imagem de um corpo sem vida que vi foi o de um cavalo branco e empoeirado estendido desajeitadamente sobre o chão do Paraná. Tinha apenas seis anos de idade e aquilo me marcou tanto que ainda hoje quando penso em um ser inanimado me vem à mente a imagem do cavalo empoeirado, inerte. Quando sinto ter algo a escrever e não o faço, tenho a forte e pesada sensação de ser um outro, qualquer um outro, que não eu. Peço a Deus em minha conversas diárias com Ele que me deixe produzir os frutos que Ele destinou que eu produzisse. E suplico: “Deus meu, não me peça morangos se sabes que posso apenas produzir pêssegos… não me onere a alma mais do que eu posso suportar.” Às vezes sinto que Ele me escuta. Outras vezes não. Ele faz o que Lhe apraz. Nessas ocasiões, que graças a Ele não são muitas, resta-me apenas abaixar a cabeça em submissão e deixar as coisas acontecer como têm que acontecer. Existirá dor pior que a de se transformar em algo que não desejamos nem queremos e que nem de longe almejamos? Mas a vida é sempre no imperativo. Faz e desfaz, sem desânimo e sem qualquer espécie de culpa. E o cavalo estendido imóvel no chão batido? Quem teria lhe galopado? Porque relvas tinindo de verdade teria ele trotado? Não sei, mas um boi é um pouco desse cavalo inerte e o touro… ah, o touro, era o que galopava célere pelos campos do Senhor.

“Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim”

Missão Impossível 9. Adaptar-se ao que é inadaptável é como pedir ao azul marinho que, ao menos por um instante, seja verde. Não um verde musgo, mas sim, um verde esperança. É como a música do Chico: “na bagunça do meu coração meu sangue errou de veia e se perdeu.” Chega um momento em que não sabemos distinguir o que é bom e o que é ruim dentro da gente. Um complementa o outro e nos traz dilemas terríveis a dilacerar nossos bons sentimentos. Quem já esteve em época de corte de cana em canavial pernambucano deve saber que cortamos tudo de uma só tacada. Aí é que mora o perigo. Em meio à cana seca e imprestável se corta também a dulcíssima cana, verde de tanto esplendor. Mas há que se ter coragem de entrar no canavial da vida. Muitas vezes são justamente as canas secas e sem vida que deitaram raízes mais firmes em nosso existir. Afinal, que garapa é essa que não se consegue extrair da cana seca? Há muitos anos acompanhei um seriado na televisão chamado O homem do fundo do mar. O tal do fundo do mar se adaptava – e muito bem! – tanto na terra quanto nas profundezas do mar. Foi para mim o maior exemplo de adaptação. Mas tem mais uma coisa. Um dia, e lembro disso com um sorriso maroto, um amigo me encontrou em Teresina e foi logo dizendo, assim muito sem cerimônia: “Washington, você parece muito com Patrick Duffy!” Exatamente o ator que dá vida ao humano anfíbio da série. Descartada a semelhança, bem que ele conseguiu se adaptar ao inadaptável descrito vivamente nesse desabafo tão clariceano quanto só ela poderia ser. Seria insincero de minha parte deixar de mencionar a lição de David Hume: “A arte é capaz de fazer um vestuário completo, mas só a natureza é capaz de produzir um homem.”

“E com isso cortei também minha força”

Uma amizade daquelas antigas transmite uma força, uma energia que perpassa nossa compreensão. As amizades antigas trazem consigo uma corrente elétrica que liga uma emoção a outra, uma lembrança a outra. Quem não lembra da força que unia Franz Kafka ao pai? Não foi ele que disse, coração na mão, olhos cheios de angústia e talento à flor da pele em uma carta dirigida a seu pai: “Meus escritos tratavam de ti; neles lamentava o que não podia lamentar sobre teu peito”? Foi por imaginar que o laço havia sido rompido que Kafka soluçava em longas noites insones. Mas foi essa dor que produziu uma das obras mais importantes jamais produzidas por um ser humano.E quanto aos amores antigos? Eles estão sempre vivos porque fazem parte de nossa história. Não são como móveis antigos que podem ser substituídos quando mudamos de endereço. Com isso, mudamos e até pensamos em cortar a própria força. Vã imaginação. Ledo engano. Não se corta o fio umbilical que nos liga ao coração pulsante do mundo. Mas se perde muita energia criativa quando já não pulsa mais a força criativa. Clarice devia possuir uma hidrelétrica pessoal, blindada contra os dissabores humanos. A energia de sua densa obra continua iluminando milhares de consciências, saciando milhares de corações e confortando outras milhares de mentes. O que ela cortou nela criou ramificações profundas, qual emaranhado de linhas de força, entre nós, seus embasbacados leitores.

“Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante”

Acordei querendo olhar o mundo da forma como o mundo me vê. Tarefinha difícil essa. Consegui apenas me ver como acho que sou. E o resultado da visão não foi dos melhores. Temos uma preocupação descomunal com o pensamento dos outros acerca da gente. Queremos, como diria um amigo, ficar bem na foto. No entanto, quando olhamos uma pessoa bem podemos dizer que ela está bem se a pele está bronzeada, os cabelos cuidados, o rosto corado, os olhos brilhantes. Mas, se nos fosse possível olhar dentro de uma pessoa, certamente que outra seria a percepção. Algo com a visão de sangue escorrendo, jorrando, órgãos bem pouco poéticos como pulmões e rins e por aí vai. Por dentro, temos algo parecido com a idéia de caos: tudo desordenado, sem uma arquitetura interior – seria esta a expressão? Mas, é muito bom olhar para si e ver que não estamos com essa bola toda. Que temos um longo caminho a percorrer. Caminhos de sonhos a realizar e de sonhos a serem esquecidos porque não eram e nunca foram sonhos… reais. Os personagens de Clarice se alternam entre resignação e repugnância para personagens solares e lunares que trazem à superfície o que de melhor possuem: o senso de humanidade perceptível, quase palpável. Mas há um quase em tudo. E neste caso, o que é quase repugnante não chega a ser repugnante de todo. Por isso ela se definia assim: “Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo”. A história que se conta é a de que quem conviveu com a escritora afirmava ser ela uma mulher alegre, que vivia fazendo caretas e imitando pessoas. De uma beleza singular, seu poder de sedução era imenso: conseguia, sem esforço aparente, seduzir os homens ao seu redor. Qualquer coisa, Clarice. Menos resignada e repugnante. Ao contrário. Lutadora e sedutora que sabia esgrimir intuições e palavras.

“Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida – que não era maravilhosa mas era uma vida – eu me transforme inteiramente”

A vida de Clarice Lispector foi de fio a pavio um eterno redescobrir de dilemas humanos e condições de alma. Teve a coragem de nadar contra a corrente que leva os acomodados a serem guiados. Preferiu guiar a si mesma. De certa forma ela colocou diante de seus admiradores a impressão de que ela era a fiel Penélope esperando o marido Ulysses. E sabia vigiar a vida que passava por ela. Como no caso do seu famoso conto chamado “Uma esperança”: “Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.” O encontro em Clarice tem sempre um efeito terapêutico. Isso porque ela concedia carta de alforria aos nossos instintos humanos mais básicos. E se nutria dessa intuição com cara de realismo metafísico. Se procurava uma palavra, tinha que ser a palavra salvadora. Se recriminava seu ser, apascentava os demais. Se era capaz de protagonizar milagres, também estendia esse dom às pessoas por quem nutria afeição e amor. Mas nem sempre recebeu tanto quanto deu.

“Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: “Você era muito diferente, não era?”

Convoco Fernando Pessoa para testemunhar em minha defesa. Ele que criou os mais famosos heterônimos da língua portuguesa: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Mas estes são apenas os mais difundidos. No total, os estudiosos de Pessoa contam cerca de dezesseis heterônimos, cada qual com uma trajetória bastante definida e, obviamente, pelos poemas e estilos diferenciados. Os heterônimos de Pessoa têm data de nascimento, biografia, especificidades físicas e trajetórias literárias. Eles se correspondem entre si e alguns são até parentes. Como então ficar surpreso que estamos diferentes? Já paramos para pensar que muitos de nós vivem e convivem conosco ao longo de nossa trajetória de vida? Mas para se notar a diferença há que se conhecer. Para saber que um poema é do Caeiro e não do Ricardo Reis há que se conhecer a obra. Felizes os que podem nos dizer que estamos hoje diferentes de ontem. De duas uma, ou o observador nos conhece profundamente ou fazemos uma diferença na vida da pessoa ao ponto de esta notar a mais leve mudança. Tenho costume de ler certas crônicas de Clarice diversas vezes. A cada leitura sinto estar percebendo um enfoque novo, uma palavra com determinado ângulo de inclinação. O texto de Clarice, como a vida que dela se conta, tem essa coisa da multiplicidade de percepções. A surpresa está em alternar um estado de consciência para outro, de pegar uma palavra pela mão e outra pelo coração, de se saber seco no meio do mais denso dilúvio. Quer tanto pode ser de palavras quanto de emoção.

“Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível”

Toda atitude nasce primeiro no pensamento. E o pensar é um ato, por definição, solitário. Já a ardência e o vigor são exteriorizadas pelos gestos. No caso de Clarice ia mais além e transbordava pela obra afora. Se demonstrava uma calma excessiva era porque os vulcões interiores estavam prestes a entrar em erupção. E havia sinceridade em si. Uma sinceridade cortante e tão em falta nos dias que correm. Da menina de Felicidade clandestina para a Macabéa de A Hora da Estrela duas Clarices se entrelaçavam e formavam um todo unido e indivisível, assim como os contratos do direito civil. Quem nunca amou ninguém não está apto a reconhecer o mais fino mistério que enreda os que amam. Gosto de pensar em uma Clarice calma, excessivamente calma. Mas não consigo porque ela me leva pela mão ao ambiente aconchegante, ao pé do fogão, onde faísca a chama criativa. E me ponho a pensar em como seria o mundo se todos conhecessem seu pensamento, seus personagens, suas tiradas poéticas e seu jeito muito peculiar que encarar a vida. Mesmo retendo na memória sua única entrevista a uma emissora de televisão no Rio de Janeiro, onde uma escritora traindo amargura no semblante continuava inteira a espalhar espanto ante o tênue fio da vida que a sustinha, ainda assim poderia lhe reconhecer pelos traços firmes de quem já conseguia dominar a escrita com que o mundo se expressava. E isso nos mínimos detalhes. Sem enfeites. De corpo inteiro e alma espalhada qual frondoso ramo de mangueira centenária a conceder sombra a desavisados passantes.

“Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus”

O peso da alma tem o peso do som e da luz. Ela sabia disso e se movia à vontade pelos estilos não-estilos que tanto tentaram lhe imputar. Os estilos não a aprisionavam como ela mesma chegou a afirmar. E seu corpo parecia vergar ante presumidos e equivocados cinqüenta anos, sua claridade se elevava ante a mais leve lufada de ar. Porque a obra de Clarice foi como um jorro de ar puro em um ambiente literário há muito fechado. E limpava olhos e mãos, corações e mentes, destinos e visões de mundo. Era um mundo mágico de uma menina que viera ao Brasil ainda no ventre da mãe após longa e penosa travessia oceânica. Crescera aqui como cresce a hera no Fórum Romano e em volta do gigante Colosseo. Havia esse gosto de eternidade na voz de Clarice, puxada por erres que não desmentiam seu DNA russo. Mas o coração pulsava ao som de brasileirinho tal a idealização que hoje faço dela. E Deus quis que a sentíssemos assim, em sua plena fase criativa, descerrando lugares, afugentando touros e cavalos bravios em uma existência nada mais que humana. Essa humanidade de Clarice foi o grande testemunho de que tudo é possível se, corroborando as palavras de Pessoa, “a alma não é pequena”.

“Não haveria necessidade de lhe dizer, então”

Qual a necessidade de se falar do frescor da chuva de verão quando a ela estamos expostos? Clarice suplicava que não deixássemos que as palavras esmagassem as entrelinhas. E muita coisa ficaria para sempre no campo do indizível. Nem todas as palavras capturam o que pretensamente desejam expor. O seu texto bem podia ser lido pelo muito que não era dito e pelo excesso do que almejava dizer. Seria esta uma pista para se responder à pergunta que vem desafiando nossa literatura: que mistérios tem Clarice? O olhar de um velho negro africano dizia mais ao neto de tenra infância que os tratados dando conta da filosofia de Rousseau ou mesmo de Sócrates. E quem pode afirmar que a brisa que sopra em uma estepe russa bem pode trazer o mesmo alívio de uma brisa que sopra na cidade de Berna. Mas há sempre a necessidade de se expor. Mas, mesmo isto, só até um certo momento. Depois disso há que se contentar com a não necessidade de se expressar por palavras. Como em Macondo, a célebre cidade imaginada por Garcia Márquez, onde o personagem central por não saber os nomes das coisas, mencionava-as ante a elevação do dedo indicador, o mesmo acontece com estados da alma relatados por Clarice: somente indicando com o coração inclinado se poderá apreender algo além das palavras.

“Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado”

E o nó vital exige foco, paciência e determinação. Foco para entender que a vida que se leva é a única que pode exigir nossa atenção concentrada. Paciência nos dias de neblina causados pela melancolia intermitente que vez por outra nos assaltam os dias. Determinação para evitar que a vida escorra por entre os dedos e… sem sobreaviso ver que o nó vital se foi enevoada pelos fins contingentes que a vida vai recriando ao longo do tempo. O retrato da artista o torna irreconhecível mesmo para os mais íntimos. Porque o pacto interior, aquele que pacifica as forças poderosas da mente não pode se dissociar da imensa carga de emoções que tão somente o coração pode represar. Se, como afirmam os cientistas, usamos apenas 10% de nossa mente, quanto por cento temos usado do coração? Menos que 10%, é a resposta plausível. O esquecimento estará sempre cheio de memória enquanto perdurar os demais pactos interiores. Estes insistirão em dizer presente à vida, que no dizer de Clarice, pode até “não ser maravilhosa” mas ainda assim “é uma vida”. A feroz batalha que travamos no lado esquerdo peito exige respeito e cuidado. Nunca cuidar do que é foi mais vital do que hoje, quando esta manhã se abre ante mim e me ofusca a visão que tenho da vida. Quando penso no nó vital compreendo a estranha rede de relacionamentos que nele se envolvem. O nó vital é aquele que me individualiza e me torna único. Fugir dele é restaurar moinhos de vento que se multiplicam à velocidade da luz. A luz que habita o sagrado e, qual vela trêmula, insiste em iluminar recantos sombrios da natureza humana. A consciência brilha tão intensamente quanto o nó vital se encontre diretamente exposto à sua área de abrangência.

“Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você”

O aviso está na sublime canção de Krishna: é o Arjuna que luta por extirpar o mal, direcionando sua flecha para o eu inferior que não é outro que aquilo que achamos ser o nosso “ruim”. Se não fosse o frio da dor, assevera o Supremo Educador, como se sentiria o calor da Presença do Amado? Se somos um todo único, o todo abarca o que é bom e o que é igualmente ruim. Faces de uma mesma realidade, um não é dotado da completude se esta se torna excludente. Se tudo que desejamos ser tem as digitais do que é digno, elevado, sublime, superior, como entender então a sagrada ira da indignação contra o que responde pelo humano que há em cada um de nós? Se não houvesse o desespero humano como se haveria de escrever as canções desesperadas, prenhes de amor incontido? Se todas as cidades fossem refúgio ideal o que seriam das cidades imaginárias de Calvino? É porque há um algo que se recusa a ser abraçado no íntimo da consciência humana. Mas, o abraço completo não consegue distinguir o que é chama e luz do que é gravetos enfeixados para produzir tal efeito ante a chispa que o inflama. A Dulcinéa idealizada pelo cavaleiro da triste figura é mais presente que a dura realidade que o assalta e o faz assomar qual titã a sonhar os tais sonhos impossíveis. Somos o que imaginamos. Vivemos o que sonhamos. Sonhamos o que imaginamos: e não há juízo de valor a distinguir o que é bom ou mau. Tudo é grande e ilimitado quando nos mantemos coesos o tempo todo. Para essa coesão o respeito é o próprio ar que se respira. Sem o qual, não há salvação possível.

“pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver”

Aos dez anos e tudo isso que dez anos representam na vida de uma pessoa, julguei ser possível emular a argúcia de Einstein, a estética desvairada de Dalí, o lampejo emocional de Kafka, os lamentos de Dante, o veio poético de Pessoa e a ternura encabulada de Clarice. Julguei poder copiar em minhas muitas vidas interiores o néctar de cada existência que aprendi a admirar e amar. E esqueci que era jovem demais para saber amar. Debrucei-me então, com as mãos firmemente postas no parapeito do coração, abri as janelas da almas e contemplei o mundo de possibilidades que se abriam ante meus olhos estupefatos. De todos poderia ser um pouco. Mas de todos poderia ser um pouco desde que não renunciasse a ser eu mesmo. Encarei o desafio com um nó seco na garganta. Vi que poderia facilmente ser enredado por outros sonhos, sem mesmo tê-los sonhado, mas que estes seriam sempre um simulacro triste e vazio de uma vida que não vingou. Compreendi que a pessoa ideal que desejava copiar estava, trêmula de frio, em um lugar abafado de minha mente, como se fosse aquele décimo segundo filho de uma extensa prole. Suspirei em vão, e supliquei com todo o meu ser pelo direito de ser eu mesmo. Não aquele amontoado de coisas e suposições que planejamos para nossa vida nos velhos embates da adolescência, mas antes com a convicção de que o jogo da minha vida somente seria jogado se deixasse de lado a extensa luminosidade que outras vidas lançavam sobre mim e buscasse ver os limites de minha própria sombra. Ò sombra adorada! Que sou eu senão a fonte que me edifica, pedra por pedra, construindo um nicho onde o Sagrado pulsa e vive?!

“Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer”

Longe estou de atos heróicos. A minha covardia diz mais de meu heroísmo que a mais bela frase que minha vida até hoje cunhou. Como El Cid, entendo que o que concede um sentido à vida concede, igualmente e com ainda maior esplendor, um sentido à minha morte. Das minhas muitas mortes a que se apresenta como mais dolorosa é aquela que me mostra a tibieza de meu espírito a buscar outras paragens quando tudo me direciona ao calor da luta, ao fulgor da batalha interior. Uma batalha que quanto mais negligenciada retorna uma e mil vezes, mais firme e ainda mais vigorosa. Existirá um destino a que não podemos escapar? É a pergunta que, insistente, não parece silenciar. E como anseio pelo céu de plenitude! E como acaricio o desejo intenso da Comunhão! O inferno, que no dizer de Sartre, são os outros, eis que em mim manifesta-se por seu contrário: sou eu mesmo. Anseio, então, pelo silêncio das línguas cansadas e pela mente ávida por satisfação. Que o meu sacrifício seja tanto pelas chuvas intermitentes de março quanto pelas manhãs de setembro. Como não recordar de Hendel após ter composto o Messias? Poderíamos imaginar o compositor tomado pela serenidade dos que captaram o doce mistério da vida. Mas não, ele foi encontrado soluçando em alto e bom som, caído ante a relva dos que viram que uma porta apenas se abrira ante seu gênio criador. E sempre que escuto o côro do Messias, sinto-o inundando minha vida de acordes que não eram deste mundo, vindos de um céu qualquer.

“Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão”

E a punição vem a galope. Uma punição de quem deixou o banquete celestial pela metade, antes que os violinos tivessem soado os últimos acordes. Não há nada mais triste e terrível que a alma inquieta, eternamente inquieta, efervescendo horas e dias pela metade. Clama-se com todas as forças pelo Todo. É a punição de ter o poema pela metade quando o amor ainda está presente. E também a punição que sobrevêm quando a viagem é interrompida sem aviso prévio. Qual girassol ante o sol das nove horas da manhã luto por evitar a mornidão que virá em seguida. Porque há um momento em que tateamos os finos fios da existência buscando o seu início como quem busca o acorde mais perfeito em meio à euforia do momento criador. A vida, além de ser bela, – bela! – é também o palco em que adentramos com pés trôpegos sabendo de antemão que não haverá ensaio, tudo é ao vivo e tudo está valendo. Se a fala não acontece no momento em que deveria, se a iluminação não incide no exato momento em que a palavra salvadora será enunciada, ainda assim, tudo o está valendo no palco da vida. E aquela flor que, segundo Tagore, soluçava ao céu de amanhecer por ter perdido sua última gota de orvalho, totalmente indiferente ao mesmo céu de amanhecer que acabara de perder todas as suas estrelas? Há que se pensar na última gota de orvalho e há que se pensar na dor de quem acaba de perder todas as estrelas guias da vida. No meio tempo, pune-se por excesso de zelo e por falta de cuidado pois é todo o ser que se recusa à mornidão existencial.

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige”

E o que me pertence? Nada mais que um coração batendo, um par de olhos insones, uma mente triturando pensamentos imperfeitos, uma memória carregada de infinitos momentos alternando aspirações nobre e não tão nobres assim. Mas é o que a vida pode contar para se realizar e disto ela não pode abrir mão. Como não se pode abrir mão dessa lufada de ar inocente que me toca o rosto quando escuto ao longe os lamentos sinceros de quem, pela primeira vez, pisa na terra dos que amam. Um amigo certa vez me disse que “é preciso governar os jardins, fazer bandeiras de rosas, abrir as memórias e descobrir a paixão pelos outros”. Há a vida que vivemos e há aquela que vivemos nos outros. Os encadeamentos estão aí, tão palpáveis quanto esta dor que assoma meu peito sempre que reflito sobre a condição humana. E a paixão por mim – e pelos outros – me leva a resgatar as exigências que minha vida apresenta. Mas o que me pertence mesmo e ninguém por extirpar de minha natureza é esse vasto sentimento de pertencer à espécie humana. Um sentimento que não comporta tradições. A biodiversidade lateja dentro de mim como o sangue corre por minhas veias. Porque o humano me atrai qual ímã para a minha espécie. Vivo nos sonhos de minha espécie e acordo sempre que estes não são recordados. Mesmo assim, sei que não pego da vida tudo o que me pertence. Clarice teria conseguido isso? Vi suas pinturas e as cores de sua perplexidade e também o seu espanto onipresente. Não sei não. A vida parece ter lhe exigido algo que somente se exige de quem é exímio esgrimista na lide da vida. Mas, em suas tentativas ela abriu clareiras em meu ser: tudo deve ser exigido, sem meias medidas.

“Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma”

Uma folha em branco retratando o vazio é mais moral ou é amoral? O que se coloca nessa folha vazia é o que vem de dentro ou o que está do lado de fora? A individualidade chega a doer e a pesar. O que pesa mais: uma tonelada de pluma ou uma tonelada de dor? Depende do método da pesagem. Mas uma coisa é certa: o peso da desistência de si mesmo é muito superior. Um peso que se tem que carregar mundos afora. Um peso sufocante que determina cada pensamento e cada gesto. É imoral e amoral viver a vida que se sabe não ser sua. Pois corre-se o risco de não viver, antes, de fazer de conta que se vive. E há um custo nessa decisão que mesmo uma vida inteira é insuficiente para saldá-la. A dívida é imensa porque é inversamente proporcional ao desperdício de emoções, sonhos e visões que vez por outra estamos a fazer pouco caso. Se nasci para contar nuvens no céu como me contentar, me satisfazer, em contar estrelas em pleno dia? Mas me consola saber que no infinito as paralelas de nossas vidas irão se encontrar. E me consola saber que um pensamento maior de amor é capaz de desfazer o turbilhão gerado pelo seu contrário, a ausência do amor. Subir à montanha e esquecer de respirar por não saber como respirar em altitudes elevadas é ter desistido de si mesmo. O ímpeto com que se sobe a montanha é que nos dota de pulmões plenos para aspirar novos ares. E a moral está em respirar o que tem que ser respirado.

“Espero em Deus que você acredite em mim”

Espero em Deus sempre ter o lenitivo da crença. Daquela fé que removeu montanhas ontem e poderá remover montanhas hoje. Espero em Deus que Ele ao me ver, tão só e desprovido de todas a vaidades que se acumulam à soleira de minha existência, esboce um sorriso pleno de satisfação. Espero em Deus que antes de tudo, eu acredite em mim. Para que você, leitor, possa acreditar em mim. Espero em Deus que o balanço de minha vida seja positivo como é positivo a certeza de que o sol continuará nascendo e se pondo. Espero em Deus que a fé esteja sempre onde sempre esteve, aconchegada como meu maior ativo na vida. E espero em Deus que entre um dia e uma noite eu me recobre completamente viva de forma intensa os segundos e minutos que me são concedidos, muitas vezes, impunemente. Espero, como espero!, que possa ser chamado de homem, com a mesma voz com que um dia minha mãe me chamou pelo meu nome. Mas espero, impacientemente espero, que o laço que a Ele me une se fortaleça cada vez mais e me dê a segurança dos forte de espírito, daqueles que não titubeiam ante as imprevistas calamidades que meu atos provocam. Ah, como espero em Deus que você acredite em mim como se acredita em uma criança em tenra idade a responder que o solvente universal para as dores da alma é o sempre ansiado amor que temos pela vida. Mas, convenhamos, como acreditar que o homem que pisa o solo lunar não consegue pisar no solo puro de seu próprio coração? Continuo, meu Deus, acreditando em Você e em mim. E no meio de nossa relação, desejo acreditar que Ele estará sempre conosco. Amparando minhas muitas quedas e me alçando a novos a ainda mais maravilhosos vôos para o alto de Sua vontade soberana.

“Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber”

De alguma janela do céu, pressinto que Ele me observa. E sabe que temo a Ele. Temo perder o Seu amor por mim. E temo não cumprir com suas expectativas para minha vida. Consola-me saber que Ele está atento a tudo e a todos e que não se comporta como um estagiário desavisado fazendo gato e sapato de mim. O bom é que Ele me observa sem que eu saiba, me assiste como a um seriado empolgante, cheio de reviravoltas, prendendo a atenção divina e me deixando fluir como água de córrego, lisa, límpida, constante. Mas sabê-lo me observando me faz sentir um calafrio na espinha dorsal da memória. E a responsabilidade – que não é fiscal – me pesa como o globo nos ombros do pobre Atlas mitológico. A minha vida me faz responsável mais pelo bem que deixo de fazer do que pelo mal que causo. E existe sempre esta imensa distância entre intenção e gesto, entre palavra e ação. Mas sei que Ele continua me observando. Mas como é reconfortante saber que um Deus que é todo amor e que está sempre muito ocupado nos observa sem nos darmos conta da observação milionésimo de segundo a milionésimo de segundo. E não posso deixar de ser otimista, de ter esse entusiasmo dentro de mim – e é a Ele que chamo de entusiasmo como os antigos pensavam – pois o contrário seria deixar de remar em meio à tempestade porque os outros deixaram de remar. Sei que posso até não mudar o mundo, mas gostaria que meus quatro filhos, quando morrer, colocassem na lápide do meu túmulo: “Ele tentou.” E só. Nenhuma outra citação bonita, poética ou religiosa. “Ele tentou” e ponto final.

“Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma”

Afinal ser cômodo é mais fácil, mais clean, mais aprazível. Ninguém se mete com você e seus sonhos ficam de fora, como meros expectadores da vida que poderia ter sido e que não foi. Recebemos lições o dia todo. Umas nos falam do império do espírito e outras do império dos sentidos. Umas nos trazem o sabor do que é transitório, fugidio enquanto outras nos dizem do eterno. Mas se falo em “comodidade de alma” parece que estou apertando nas mãos a kriptonita que retira toda a força do Super-homem. Se me tiram os sonhos, sou esta pilastra sem ter o que sustentar e o edifício interior que luto por construir terminará ruindo. Hoje só quero pactuar com o que é. E o que é nada mais é o que construo para dentro. São aos torres do existir crescendo para cima e para os lados. Não há como parar a construção interior. Se ela encontra uma nesga de céu azul, ela avança célere. Se há um brilho de sol ela avança igualmente. A construção deve continuar pois existe espaço e não é um espaço qualquer, é o espaço do Sagrado. Sinto-me feliz ao assim pensar e infeliz quando algo me impede de continuar a construção. E que dizer quando minha alma amanhece bela, brilhante, como se estivesse na flor da idade, como no dia de hoje? Ela sabe que é como uma flor que nos foi dada em fideicomisso. Temos apenas que cuidá-la para que não se acomode com os belos pores de sol e, de vez em quando, mergulhe no emaranhado da vida que se leva. Não há como se acomodar quando um mundo de sentimentos luta por se expressar e não se tem como sufocá-los.

“Tua, Clarice”

Que tanto pode ser: Teu, Tom. Teu, Carlos. Tua, Maria, Teu, Rafael. Mas foi o Tua, Clarice que me tocou nas beiradas da emoção. Uma carta tão impregnada do sopro divino não aparece todos os dias. Por isso é bela até não mais poder. E somos todos destinatários de um texto que foi escrito com a pena da sinceridade. Clara como uma noite insone, Clarice se deixou levar e nos trouxe na enxurrada de seus pensamentos um continente firme o suficiente para sermos nós mesmos. Cada frase palpitava com um novo espírito e este foi se enredando, criando novos afluentes, nos banhando como as águas do sagrado Ganges banham gerações de milenares indianos. Confesso que quando li a carta, parecia que um novo sopro tocava minha mente. Porque as palavras quando vêm das regiões a que não estamos muito acostumados trazem consigo uma carga de memória da raça nem sempre presente no atribulado dia a dia. Ela vocalizou o nosso melhor eu e nos rejubilamos por vê rum texto isento de literatices e de fórmulas já consagradas. O próprio meio – a carta -pressupõe a comunicação de duas almas, de dois corações, de duas existências.. Verso e reverso de nossa trabalhosa vida em busca de meios para se expressar, muito além do cipoal de argumentos e de estilos. Uma carta que em nada fica a dever aos grandes monumentos literários que a experiência humana na terra tem engendrado. Bravo, Clarice.

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado