Escrever é viver. E não se pode condescender. Um escritor escreve por necessidade, se deseja ser autêntico. Não uma necessidade econômica, pois muitos dos grandes autores não viveram o suficiente para usufruir dos rendimentos de seus trabalhos literários. Dostóievski, Proust e mesmo Oscar Wilde endossam-me. No Brasil, podemos citar Castro Alves, Augusto dos Anjos e a nossa inigualável Cecília Meireles. Nesta troca de sentimentos e de exposição d’alma, eles enriqueceram os leitores, dotaram-lhes ou aguçaram-lhes ternos sentimentos, enfim, forneceram asas com as quais podiam compreender o mundo e seus sinais. Parte expressiva do legado do Conde Leon Tolstoy foi produzida para saldar dívidas e muitas páginas foram entregues a editores em troca de hospedagem e alimentação. No entanto, tudo que um escritor escreve é autobiográfico. Se um escritor cria um personagem como aquele funcionário público que desembaraçou bagagens da alfándega, ainda que um personagem periférico em sua trama, o escritor ao criá-lo sentiu-se como o próprio funcionário. Do Milan Kundera de “A Insustentável Leveza do Ser” e seu belo discurso sobre a verdade e a mentira, até o Peregrino que habita a narrativa do Gibran Khalil Gibran ou a poesia explícita de Bach com o seu “Fernão Capelo Gaivota”, cada um resgata um pouco de sí mesmo: a luta interior para se manter vivo. E em conseguindo isso, tenta dar uma condição de eternidade à chama criativa que lhe flui por todos os poros. Profético e mau-humorado, diletante ou platéia de suas vaidades, o escritor para respirar precisa registrar esta qualidade de um lago plácido ou os temporais do espírito em busca de plenitude. Daí que Fernando Pessoa é enfático ao afirmar que “nenhum rio é mais belo que aquele que passa por minha aldéia” – sem dúvida, um rio pequeno e claudicante, mas capaz de fazer surgir oceanos. Ou Dos Anjos a nos falar daquela árvore que não poderia ser ceifada pelo machado, pois que sua alma estava presa a esta desde tempos imemoriais. Ou Proust a buscar em milhares de páginas as aventuras de um tempo perdido. E que dizer de Ernest Hemingway em plena guerra civil espanhola a dar vida ao filósofo e poeta John Donne refletindo sobre “por quem os sinos dobram”? Um escritor é a obra acabada de seu tempo, com todas as suas contradições, fins e meios que nem sempre se harmonizam. De Jack Kerouac a prenunciar a contracultura dos anos sessenta ao folhetinesco Tom Wolfe a nos dizer dos yuppies dos anos oitenta e os nossos Bukawski e sua versão brasileira cinqüenta por cento do Leminski, todos nos falam de si e de seus contemporâneos como se estivessem vivendo pela tinta que borra a brancura do papel e nos legam um tempo que se esgarça, dissolve-se na memória coletiva da raça. O “José”de Drummond refletirá sempre um tempo do autor em busca de afirmação na vida: de funcionário público de Barbacena para o Rio de Janeiro até o panteão dos grandes nomes da literatura brasileira. Uma travessa única, o escultor o faz com a certeza de que suas pegada na areia da praia poderão permanecer. Doce ilusão, mas não se escreve sem este gesto de eternidade. O que seria o inconsciente norte-americano sem os escritos de Mark Twain a resgatar em Tom Sawyer todas as aventuras do adolescente que se deixa flutuar sobre uma jangada no meio do Mississipi? E o que seria a alma persa som os versos de Jalalud-Din Rumí, poeta e místico maior de um tempo em que se podia dizer: “Nem o céu, nem a terra podem me conter, salvo o coração de meu servo fiel: este me contém!” E que falar da verve inglesa a nos legar pelo coração de W. H. Auden, a propósito do falecimento de um amigo íntimo que “hoje todas as pombas deverão ter uma faixa branca sobre o peito, todos os policiais deverão usar luvas de algodão preto, todos os tambores devem soar e o céu deve ficar permanentemente azul, porque partiu alguém que me conhecia mais que eu a mim mesmo…”? E da Índia, repositório dos mistérios milenares da condição humana por seu poeta maior, Rabindranath Tagore a nos falar do egoísmo de uma simples flor que se lastimava “ao céu de amanhecer” a perda de sua última gota de orvalho, justamente a ele “que acabara de perder todas as suas estrelas”? E da Grécia contemporânea, a abertura da biografia de Francisco de Assis por Nikos Kazantzakis, o mesmo que criara “Zorba, o Grego”, a nos dizer: “Tu te lembras, Pai Francisco?”. E ele se lembraria de tudo nas centenas de páginas seguintes, a nos comover na construção de cada frase. Um tributo vasto e belo o suficiente para ser contido no ser todo vestido de poesia de Kazantzakis! Gibran, ainda rescendendo aos cedros do Líbano, nos deixava saborear o aroma destas palavras usadas para definição da amizade: “Um amigo é aquele que nos oferece ajuda sem ter sido solicitado mas sim, por haver apenas compreendido” e que diz que quando minhas mãos e as suas “se encontrarem nos céus, construiremos grandes torres e nos regozijaremos”. Francisco de Assis teria sido santo sem ter escrito o “Cântico das Criaturas”? E que beleza de construção poética de Karl Barth ao dizer que “quando os anjos estão em festa entoam as sinfonias de Mozart, mas quando estão reunidos em família – petit comitè – se extasiam com a música de Bach”! Como também escreveu um poeta “se amar tem uma pátria, a Grécia é esta pátria”, penso que se a natureza humana tem uma expressão, a palavra escrita é o veículo. E não arredo pé. Como vivemos em um país tropical nas quais as estações não são bem definidas, tomo a Europa como exemplo para dizer e fazer coro com outros pensadores que os escritores que melhor simbolizam as quatro estações naquele continente são:

Homero, a primavera. Dante Alighieri, o verão. Leon Tolstoy, o inverno. Shakespeare, o outono.

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