O grande Mário Quintana foi lapidar: “Existem duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam e outros que esgotam os leitores.” Rilke não hesitou ao aconselhar um pretendente à profissão de escritor: “Você saberia viver sem escrever?” Este tem sido o paradigma para os que sentem ter algo a compartilhar e tomam a caneta ou o teclado do computador e daí, algum tempo depois, eis uma nova crônica, ensaio, poema ou livro. A verdade é que o resultado do esforço ou da “inspiração” intelectual torná-se então uma extensão do autor. E toma vida própria depois que é publicado: comporta tantas leituras quanto o número dos leitores. Para Proust sua pátria era “nada menos que a língua francesa” e para Fernando Pessoa “minha pátria é a língua na qual escrevo”.

O anseio de comunicação do ser humano é tão remoto quanto aquele momento em que nosso ancestral, o homo ferus evoluiu para a condição de homo sapiens. Das pinturas e símbolos nas paredes das cavernas até 1456 quando Gutenberg imprime a primeira edição da Bíblia, o recipiente do esforço de comunicação passou do papirus (aquela formidável planta comum no Egito) para os manuscritos em peles de animais, como os renomados pergaminhos do Mar Morto, que não apenas encerram os mistérios sagrados mas também nos informam de um tempo em que a arte da escrita era apenas dominada pelos sumos sacerdotes em seu anseio ternamente acalentado de registrar, para a posteridade, uma época e um processo civilizatório distinto. ……………Sem os livros não se perpetuaria o conhecimento de sí mesmo e do mundo, pois o livro é “a expressão de uma sociedade assim como a palavra é a expressão do homem.” Observo então quanto desperdício de tempo de nossa juventude e da geração imediatamente anterior: poucos lêem e ler passou a ser sinônimo de intelectualismo. Pois é óbvio, que quem muito lê tem condições de melhor se expressar e sem dúvida, com imensa facilidade, saberá transmitir a voz de sua consciência com clareza e precisão. Lembro-me então o quanto fui pressionado nos colégios por onde passei a ler Dom Casmurro e Iracema quando no máximo estaria pronto para ler Tom Sawyer de Mark Twain e o Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas. Apesar do esforço dos meus mestres para que eu não gostasse de livros, ainda assim, consegui sobreviver graças a um Fenimore Cooper e a um certo Myles Connolly.

Somente quem saboreou as páginas de Sallinger em O Apanhador no campo de centeio pode sentir o fascínio que um livro pode engendrar no espírito humano. Um Holden Caufield é um pouco de cada um de nós que luta por submergir do inconsciente e até me arriscaria a dizer que este foi o livro que mais me marcou nos bons anos da juventude. Em cada idade, temos que encontrar os livros certos, pois desse encontro poderá existir esperança de vida futura. Mas, quantos desencontros tem a vida, como diria Vinícius, “muito embora seja a vida a arte do encontro”! Schopenhauer observou que “segundo Heródoto, Xerxes, ao olhar para o seu imenso exército, chorou ao pensar que, de todos aqueles homens, dali a cem anos, nenhum estaria vivo. Quem não choraria, ao olhar para um grosso catálogo de feira de livros, ao pensar que de todos aqueles livros, já dez anos depois, nenhum estaria vivo?” Daí a contínua busca de perpetuar o pensamento e de buscar superar a efemera condição humana.

Também não poderíamos deixar de mencionar a definição curiosa de Goethe a respeito dos livros: “Um livro é um espelho: quando é um macaco que se olha nele, não pode ser refletido nenhum apóstolo.” Mas e quanto àqueles que produzem os livros? O caminho é proporcionalmente mais difícil se o autor, por obra do destino, nasce em uma sociedade que antes de lutar para ter um livro, tem que batalhar pelo pão de cada dia. Se olharmos à nossa volta encontraremos, sem dificuldade, escritores que se sacrificam inteiramente para poder publicar um livro. Quando não é absoluta carência de financiamento, pois um livro de 100/120 páginas, com uma tiragem reduzida de 3.000 exemplares não sai por menos de US$ 3.500, ainda encontram diversos obstáculos, a que chamamos de muros editoriais. O autor precisa ter renome: isso significa dizer a um jovem que busca seu primeiro emprego, que comprove experiência profissional anterior. E também, quando esses mesmos autores buscam apoio institucional, das chamadas Fundações Culturais, constatam que o critério de aprovação não é necessáriamente a qualidade literária do postulante, mas antes, “estar nas graças” daquele que tem o poder decisório e irrecorrível. O ponto é que todos os que promovem a cultura deveriam se espelhar na máxima de Lobato ao afirmar que “um país se faz com homens e livros”.

E que dizer do instigante manifesto de Zola com o seu J’accuse!, denunciando o racismo que premeava a decisão dos tribunais franceses contra o Capitão Dreiffus, se não houvesse o oportuno financiamento editorial que, por sua vez, seria uma forma de justiça… impressa através do tempo? E essa qualidade superior chamada gratidão, como deixar de apreendê-la, em toda a sua inteireza, no Terre des Hommes de Saint-Ex que nos explica o poder transcendente da amizade, solidariedade e da solidão que tão somente um Guillaumet poderia gerar? Nunca é demais lembrar que o best-seller dos anos 70, Fernão Capelo Gaivota, esteve na gaveta do editor por um período superior a l0 anos e que o agora festejado Paulo Coelho enviou seu Diário de um Mago a uma dezena de editoras e a resposta era uma só: “não temos interesse.” E é hoje, sucesso editorial superior em vendas a um dos ícones da literatura brasileira deste século, Jorge Amado. Podemos então confirmar a observação de Thomas Fuller de que “a literatura tem ganhado mais com os livros em que os impressores perderam dinheiro.” E Sartre, tendendo ao mau-humor, fulminaria dizendo que “o mundo pode muito bem passar sem a literatura mas passaria ainda melhor sem o homem.” Ainda assim, somente através de uma educação compulsória universal, poderemos dar acesso a milhares de pessoas a estes tesouros únicos que são os livros. Penso, então, que apesar de sempre criticarmos os dias dedicados aos pais, às mães, às crianças, aos mestres, como sendo jogadas de marketing a fomentar o desenfreado consumismo, o grande dia a ser comemorado deveria ser o Dia do Livro – aí sim, que o consumismo atinja a estratosfera.

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