Há em mim esse sentimento de fazer parte do mundo, de seu destino e de seus sinais
Há em mim essa vontade férrea de lançar âncoras no chão de minh´alma
Há em mim esse nevoeiro de lembranças causando estranha confusão mental
Há em mim essa palavra que sufoca até não mais poder e suplica salvação incondicional
Há em mim esse pranto silencioso arrastando-se como procissão em busca de meu mais íntimo ser
Há em mim essa busca incansável e insaciável de tudo o que é belo e bom e justo e puro
Há em mim esse pedido de explicações para as triviais batalhas do amor em que sempre saio menos inteiro
Há em mim essa ansiedade de me lançar ao futuro como quem se sente arremessado de alturas infinitas
Há em mim esse lamento do muito que não amei e do muito que desejei ter amado
Há em mim essa luminosidade onde antes tudo era penumbra, aridez e solidão de espírito
Há em mim esse vir a ser contínuo, buscando se expressar onde a palavra perde todo o sentido
Há em mim essa revolta essencial com tudo o que diminuindo a espécie humana me diminui
Há em mim esse amanhecer de tudo o que é novo e de tudo o que orvalhado
Há em mim essa paixão desenfreada por palavras como transcendência, vida, amor, morte
Há em mim esses pássaros presos na memória debatendo-se em busca de uma liberdade duradoura
Há em mim essa amizade antiga, encardida, e que ao ser sacudida, faz flutuar partículas de pó
Há em mim esse verso perdido de imagens e de sons a buscar refúgio em regiões inacessíveis do coração
Há em mim essa contradição paralisante de sempre desejar o que não tenho e rejeitar o que possuo
Há em mim esse sorriso maroto esboçado aos nove anos e novinho em folha aos quarenta e dois
Há em mim essa armadilha mental, sempre engatilhada, sempre a postos para detonar as forças do coração
Há em mim esses banhos de chuva no entardecer da cidade que me viu pronunciar a primeira palavra
Há em mim essa infância que machuca com seus rios e barrancos e suas imensas tardes de sol e de vento
Há em mim essas nuvens que insistem em formar desenhos que mansamente flutuam em minha imaginação
Há em mim esse coração jovem demais para saber amar e velho demais para morrer de amor
Há em mim essa aflição de consertar o mundo abrindo um novas clareiras no céu da compreensão humana
Há em mim esse freio ao alcance da mão pronto a ser acionado quando estou prestes a arrancar
Há em mim essa saudade do futuro, esse cansaço do presente e esse refúgio incondicional no passado
Há em mim esse acordar cansado após um adormecer tranqüilo como o adormecer do rebanho no pasto
Há em mim essa sensação de predestinada grandeza que supre esse sincero desejo de puro anonimato
Há em mim esses dias ensolarados espantando cada vez mais longe a memória dos dias cinzentos e opacos
Há em mim essa solidariedade intensa e extensa sempre pronta a incluir mais e mais sofridos da terra
Há em mim esse romance que tem apenas cenários e parcos diálogos aqui e ali emoldurados pela mudez
Há em mim essa roda viva de ter que fazer cem anos em dois e com qualidade de primeiríssimo mundo
Há em mim esse desassossego e essa impermanência em busca do que é inatingível
Há em mim essa confraria de muitos eus buscando se expressar em mil e um dialetos como um coro afinado
Há em mim esse clarão de idéias logo após um tremendo sentimento de vazio e de inutilidade
Há em mim essa romaria incessante de suplicantes de esperança e de mendigos de compaixão
Há em mim esse impulso de correr para o abraço quando todos, já não sabem o que comemorar
Há em mim essas noites longas e suas madrugadas prolongadas tratando do sentido da vida e temas afins
Há em mim esse momento de zerar o relógio da vida, retroceder alguns anos, aumentar uns poucos meses
Há em mim essa compreensão com os dilemas da pessoa amada onde ela vive mais em mim do que nunca
Há em mim esse caminho que percorre a extensão dos mares e não sabe percorrer essa pulsação acelerada
Há em mim essa cumplicidade ideal com o sofrimento alheio a me confundir os próprios sentimentos
Há em mim esse encantamento por tudo que se expressa através da arte, seja uma pedra ou uma sinfonia
Há em mim essa linguagem nova, sempre se reinventando e parindo novos significados, muitos obscuros até
Há em mim esse abraço especial que guardo para meu pobre coração nos momentos do desespero maior
Há em mim essa luta sem tréguas por um pouco de paz e umas poucas gramas de serena satisfação interior
Há em mim esse olhar de quem cansou da paisagem mas não sabe reeducar o olho que olha
Há em mim essa alegria de quem pisa pela primeira vez na terra dos que amam
Há em mim esse poema inacabado feito de dor e suor, agonia e êxtase, de tudo e de nada

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