Se os estatísticos não chegam a um acordo sobre a posição da economia brasileira, oitava ou décima do mundo, podemos afirmar que o Brasil possui a 8a. maior biblioteca do mundo: a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, com 8 milhões de exemplares. Estamos ainda muito distantes de outros países que cultivam o hábito da leitura, o amor aos livros. Na verdade temos um País que trata desigualmente seus cidadãos, mas que não é subdesenvolvido. Não sabemos precisar quantas bibliotecas existem no Brasil, mas é interessante constatar que na Dinamarca existe uma biblioteca em cada bairro. Isso mesmo, em cada bairro.

O apoio institucional ao hábito da leitura é algo que merece reflexão. O Governo sueco nos anos 60 criou uma biblioteca exclusivamente com literatura brasileira para os exilados brasileiros naquele país. Na Inglaterra e na Alemanha tenho acesso, em edição caprichada, à listagem dos autores brasileiros publicados no exterior. Sei que são exatos 1.467 e que nossos patrícios participam de 223 antologias organizadas por editores estrangeiros. Refiro-me ao “Brazilian Authors Translated Abroad” (Fundação Biblioteca Nacional, Minc, Rio, 1994).

Se me perguntam em quantos idiomas o nosso Machado de Assis está editado, não me intimido e a resposta é imediata: em 10 idiomas e em 20 países. E não pára aí, adianto que o livro mais traduzido de Machado é “Dom Casmurro”: em 19 países seguido pelo excelente “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em 18 países. Se o assunto é a difusão da obra de Jorge Amado no exterior, as respostas vêm rápidas: 26 livros traduzidos em 15 idiomas e em 21 países, sendo campeão em número de traduções o consagrado “Gabriela, Cravo e Canela” editado pela primeira vez em Buenos Aires, em 1959. Assim, qualquer estudioso de literatura brasileira, seja em Sarajevo, Praga, Londres, Kiev ou na Baviera, tem acesso ao que existe editado no exterior produzido por brasileiros. Uma preciosidade esta publicação.

Mas se o mestre Veríssimo de Mello, dileto amigo, me pergunta se tomei conhecimento do último livro do Moacyr Scliar, de Porto Alegre, a resposta é peremptória, assim do tipo “e o Sclair lançou um novo livro? Quando?” Ele também não terá como saciar minha curiosidade. E o mesmo ocorrerá com autores publicados no Amazonas, Porto Velho, Curitiba ou em Maceió. Isso, porque somos, por assim dizer, um continente geográfico, mas a nível de produção literária estamos mais para ilhas estanques, perdidas entre si, como nuvens em um mesmo e único céu. O Brasil está a requerer há muito tempo uma Publicação Bibliográfica Nacional, registrando o que os intelectuais estão produzindo por todos os quadrantes do País. Precisamos tomar conhecimento de outros autores, principalmente dos novos que não têm uma editora sediada no sul maravilha – Rio de Janeiro/São Paulo.

A continuar essa situação paralisante, na qual escritores são publicados e leitores não tomam conhecimento, uma infinidade de autores permanecerão inéditos em muitas regiões do Brasil e por conseqüência, terão o universo potencial de leitores drasticamente reduzido. Em um país que desponta no cenário internacional pela boa literatura que produz em contraponto com o volume de aspectos negativos rotineiramente destacados na imprensa internacional e sobretudo uma literatura que é capaz de pensar o universal através de suas origens, como dão bons testemunhos Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, e sem nada a dever à produção literária de um Goethe, Heine, Schiller que engrandeceram a literatura alemã e universal. Necessitamos, como algo vital para a vida literária brasileira e urgentemente, uma maior sistematização de tudo o que publicado, fornecendo matéria-prima e combustível para o debate de idéias que suscitarão a formação de uma nova geração de intelectuais, comprometidos sobretudo com os princípios da cidadania mundial e a defesa dos direitos humanos universais.

O panorama atual das letras no Brasil é digno de nota e nos faz concordar com o editorialista do The New York Times ao afirmar que “a melhor literatura hoje produzida no mundo é a latino-americana” para acrescentar lapidarmente que “dentro desta, ressalta-se a literatura brasileira”. Hoje, podemos chegar à frente do espelho e nos encarar sem constrangimentos, pois estamos em franca recuperação de nossa auto-estima. Ressalta-se também que 60% de nossa produção editorial é direcionada ao público infanto-juvenil. E quando pensamos que o filão clássico de nossa literatura tinha se esgotado eis que Josué Montello me diz na feira Internacional do Livro de Frankfurt (Outubro, 1994) que “na Academia Brasileira de Letras, encontrei um arquivo fechado de Machado de Assis, com suas crônicas e textos sobre Antônio Conselheiro, muitos deles recopiados por Rui Barbosa”. Isso significa dizer que em breve teremos conhecimento de uma “parte submersa” das letras machadianas, o ícone maior da literatura brasileira. É estimulante ver que a televisão brasileira vem bebendo, avidamente, da fonte de nossa literatura, viabilizando instigantes séries: Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiróz), Agosto (Rubem Fonseca), O Sorriso do Lagarto (João Ubaldo), O Tempo e o Vento e Incidente em Antares (Érico Veríssimo), O Coronel e o Lobisomem (Cândido de Carvalho) e que em breve estará produzindo Hilda Furacão (Roberto Drummond). E isto apenas para citar as séries mais recentes. Apesar dos apesares, eis a literatura brasileira de vento em pôpa. Aproveitemos.

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado