Com a aprovação pela Câmara dos Deputados do “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” que tem como principal objetivo a aproximação das escritas de todos os países lusófonos, uma reflexão se faz necessária e inadiável. Afinal, é um acordo que afetará os cidadãos do mundo que têm como vínculo comum a expressão em língua portuguesa e que abarca o Brasil, Portugal, países que compõem o que chamamos de África Portuguesa e mais a colônia portuguesa de Macau, que voltará a ser parte da China no dia 20 de dezembro de 1999.

Como toda reforma um dos aspectos pertinentes é o econômico: centenas de milhares de fotolitos que se encontram em posse de milhares de editores de obras na língua portuguesa necessitarão alterações, muitas vezes, radicais. Outro aspecto e mais importante é o lingüístico, que não se trata de abolir determinadas consoantes ou regulamentar o uso de hífens que de qualquer forma não terão profundas alterações pelo citado Acordo, uma vez que tais casos não obstaculizam a compreensão escrita e falada do idioma luso. O problema é, principalmente, de ordem semântica e para este não existirá acordo possível que o resolva, ressalve-se. Com efeito sempre que um português pronunciar bicha para designar fila, seja de ônibus ou de banco, ou paneleiro para designar homossexual, não deixará de despertar gracejos por parte dos brasileiros, idem para climatério referindo-se ao clima estável ou não, em Portugal, em Angola, Moçambique ou no Brasil.

Uma língua é e sempre será um organismo vivo e portanto, estará sujeito a mudanças ortográficas, léxicas e semânticas. Não faz muito tempo, em se tratando de uma língua, que Fernando Pessoa afirmou que sua “pátria é o idioma pelo qual escrevo”. A par disso, a nossa e as passadas gerações já testemunharam as mudanças ortográficas produzidas por leis de 1931, 1943, 1945 e a mais recente em 1971. Como não poderia deixar de ser, a cada mudança, maior a dificuldade de se saber o modo correto de escrever em nosso idioma e a crescente sensação de “dejá vu” com que nos deparamos com livros publicados antes de cada reforma ortográfica: para uns parece mal escrito, para outros, trata-se de algo publicado em 12. Um exemplo típico é o mencionado por um editorialista paulista que concedia que sempre que vamos escrever o fruto do coqueiro, esse símbolo turístico e bucólico de nossa região nordeste, tendemos a tascar um acento circunflexo no primeiro “o” e no entanto, este acento diferencial caiu com a reforma ortográfica de 1943!

Uma outra reflexão nos levaria aos séculos que se passam sem que as línguas francesa e inglesa tenham recebido alterações através de reformas ortográficas promovidas por quem de direito, no caso, as Academias de Letras e os Ministérios da Educação e Cultura ou similares desses países e no entanto, vemos que os cidadãos dos diversos países francófonos ou anglófonos conseguem se expressar muito bem. É verdade, afirme-se que existem casos interessantes como a pronúncia inglesa da Índia, antiga colônia britânica, que sendo o inglês “aprendido de ouvido” causa sempre gracejos por parte daqueles que cultuam o conservador e melodioso acento britânico.

É oportuno refletir sobre uma proposta enunciada em meados do século passado de que as nações deveriam adotar, em forma consultiva e tão ampla quanto possível, um idioma auxiliar universal, visando aumentar a compreensão e o entendimento entre os povos do mundo. Isto foi enunciado por Bahá’u’lláh (1817-1892) e teve desdobramentos através dos esforços de Lázaro Luiz Zamenhof, que polonês, cansado de ver seu país invadido por outros países, imaginou que através da criação de um idioma artificial – o Esperanto – poderia minimizar os traumas causados pela supressão deste elemento essencial da identidade cultural de um povo e nação.

O Esperanto floresceu e hoje é um movimento em franca expansão, congregando homens e mulheres idealistas que não deixam o ideal de Zamenhof sucumbir em um mundo até bem pouco tempo, imperialista, que fazia com que as grandes potências influenciassem os países subdesenvolvidos a adotarem crescentemente seus idiomas, deixando então a língua de ser um mero instrumento de comunicação para vir a ser símbolo acabado de dominação de uma cultura que não hesitava em abafar a identidade cultural nata de outros povos.

Sendo ou não aprovado em instância final o citado Acordo, seria muito positivo se nosso Congresso Nacional promovesse um sistema educacional suficientemente forte e saudável para garantir que cada criança deste país recebesse educação básica e secundária, e se não fosse pedir muito, que cada jovem pudesse ter acesso aos bancos das universidades, evitando-se de passar por rígidos vestibulares que não são outra coisa que não premiar uns em detrimento de outros, que embora tendo concluído o segundo grau, ainda precisam passar pelas provas de uma verdadeira olimpíada.

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