O autor é da cidade que lhe viu nasceu ou daquela que ele escolheu para ter seu lar? Poderíamos então pensar que por trás disso que chamamos “cidade” exista toda uma infraestrutura orquestrando e viabilizando a produção literária? Errado. A realidade é outra, principalmente, quando constatamos a infinidade de prêmios que cada cidade, estado ou nação, em diversos países da Europa instituem, através de bem divulgados e tentadores Concursos Literários. O objetivo dessas promoções são motivar, descobrir e desenvolver talentos literários.

No limiar da explosão da chamada literatura eletrônica, com livros editados em CD-Rom, estes livros que agora, literalmente, nos falam e se mostram através de múltiplas cores, sons e movimentos, torna-se inadiável repensar a cultura. E começam a surgir as dúvidas: com este novo meio “literário”, o livro (pelo menos como o conhecemos) estaria condenado a desaparecer? Sempre nos inquietamos com o “novo”. O mesmo ocorreu quando foi inventado o telégrafo: com a rapidez do novo meio, apesar de sua superficialidade, estaria condenada a velha e antiga carta, mais lenta para chegar ao destinatário, porém mais profunda, lúdica? E vimos, que não apenas o telégrafo, como todos os modernos meios de transmissão eletrônica de dados (Modem, Renpac, BBS), continuam coexistindo pacificamente, sem que deixem de circular diariamente pelo mundo milhões de cartas, à moda antiga, mais lentas, mas sempre presentes, criando uma legião de eméritos missivistas dos quais no Brasil, citamos o consagrado Mário de Andrade, com suas mais de 36 mil cartas!

O livro, esta invenção primeira da Galáxia de Gutemberg, abrigará a seu lado esta nova estrela na Galáxia: o CD-Rom, os livros falados, movimentados, multicores. Não obstante as facilidades deste último em termos de aperfeiçoamento e motivação à leitura, ainda permanece o contratempo de necessitar de um mínimo de estrutura tecnológica, enquanto que o livro como hoje se conhece, com uma mão o assunto está resolvido. Desde aquele singelo e evocativo poema à Virgem escrito pelo nosso eterno candidato a santidade, o beato José de Anchieta nas areias da praia, à época do descobrimento do Brasil, até às crônicas das mazelas urbanas e humanas de Nelson Rodrigues, a verdade é que a literatura brasileira continua em alta por sua criatividade, riqueza de temas e variedade de estilos, dentre os quais podemos destacar as recentes produções de João Ubaldo, Moacir Scliar, Antônio Torres, Márcio Sousa, Ignácio de Loyola Brandão, Roberto Drummond.

Alijada sob o rótulo de folclórica, encontramos esta rica literatura gerada pela insaciabilidade popular que é a literatura de cordel: avança nos séculos, com a mesma métrica, estilo de narrativa e temática recorrente, preservando no entanto sua beleza e inspiração natural. Para os que fazem a literatura de cordel o que temos feito efetivamente, salvo tratá-los como “manifestações folclóricas”? E quanto aos poetas? Ora, os poetas trazem vida à sociedade, evocam os mitos e sonhos de passadas gerações e assim conseguem transpor para a emoção nossa de cada dia estes elementos eternos e imutáveis da experiência humana: o amor, a solidão, a felicidade, a dor, o êxtase, a saudade. Almejo um tempo em que os novos autores perseverem em sua peregrinação lúdica em busca de aperfeiçoamento, do burilamento incansável do talento e que tais esforços encontrem apoio de nossas instituições, sejam governamentais, sejam da sociedade civil. Muitas vezes, ficamos penalizados em ver a via crucis de um autor brasileiro – o que não difere muito da realidade de autores de outros países latino-americanos – com seus originais embaixo do braço, contatando um e outro, levantando orçamentos, buscando ganhar as benesses dos que respondem pela atividade cultural nstitucional para que, finalmente, possam dar à luz a seus livros.

Penosa, porém verdadeira e corriqueira realidade enfrentada por novos e mesmo, autores não tão novos assim, que buscam a realização no artesanato da escrita. Para reverter este quadro de perene dificuldade, as Instituições Culturais poderiam promover concursos literários anuais, de forma a existirem opções durante todo o ano para os novos autores e conseguirem junto ao empresariado e suas instituições classistas, prêmios interessantes como uma viagem a Paris, para passar uma semana visitando o Louvre ou para Frankfurt, onde por sinal acaba de ser comemorado o bicentenário do nascimento de Goethe ou para seguir a Roma, visitar o berço da civilização ocidental, além, é óbvio, de tornar viável a publicação das obras premiadas. Aliás, este é o meio encontrado na grande maioria das cidades européias e norte-americanas, porque não tentarmos aqui?

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