Por pouco, muito pouco, cheguei perto. Bem perto. Nunca antes havia me acercado tanto desse mistério permanente em meio à mutação acelerada com que levo a vida (ou será que ela é que me leva?) que é o sentimento de estar quase a um salto da essência da vida. Confesso que o desejo de ver o que tem dentro falou mais forte. E se esgoelou tanto que minha consciência ante o risco iminente de se perder nos descaminhos da razão, essa coisa fria, com alto teor de insalubridade a contaminar toda essa bela colheita de afeição e de gozo interior que vez por outra, quando estou prestes a ver a o que tem dentro, irrompe de forma assim tão caudalosa, se recolheu, abrindo espaço.

Sou para mim a caixa preta do avião que despenca logo após ter alcançado a velocidade de cruzeiro. E é dessa caixa preta que tento me acercar desde que, garoto ainda, senti aquela fisgada na alma que passou a me torturar com requintes de rara crueldade: a incessante busca de respostas para questões mais complexas do que esta de querer saber com que roupa eu vou à festa de Viviane e Luisa. São questões bem mais intrincadas do que a exata escalação da seleção brasileira em seu prõximo jogo com a Venezuela. É verdade que vale uma vaga na próxima Copa. São questões miseráveis vestidas de preto e com um formato assim de caixa. Questões adolescentes tipo quem eu sou, de onde venho e para onde vou. Eternas adolescentes questões fingindo que não vão amadurecer nunca. E se brincar, não vão mesmo.

Mas desta vez foi demais. Primeiro me aproximei de um denso nevoeiro, estava mais para um fog londrino que para uma garoa paulista. Senti meu ser todo se abrasar e logo se comover. Reconheci meu primeiro amor, aquele que a gente beija meio desconfortável porque não sabe ainda para que serve a língua, não o instrumento que fala, mas esse membro que vez por outra assume rara independência e fatura uns bons minutos de intenso prazer. E logo em seguida vi que um pequeno vidro de cristal translúcido continha um líquido muito alvo e límpido. Senti o olho esquerdo se contrair mas terminou dando uma disfarçada em forma de piscadela espontânea. Eram minhas muitas lágrimas derramadas em vão por amores que nem chegaram a tomar corpo, como seios adolescentes que relutavam em apontar solene e inesperadamente para a linha do horizonte. Essa sensação de voltar ao país dos primeiros amores, esses mais belos e que para sempre ficarão em algum lugar especial da memória de um coração acelerado em demasia e sem nenhum pit stop à vista me nocateou.

Quando a emoção é grande demais a gente não se atreve a olhar duas vezes. Posicionei a alma para baixo e embiquei de vez. Encontrei todas as estrelas dentro de mim e em cada estrela um buraco imenso, escuro e… vazio. A boca me traiu e senti o gosto do beijo não dado, aquele beijo roubado que fornece matéria prima para os beijos de toda uma futura existência. E então, quando estou já sentindo na mão o peso da caixa preta, eis que ela se volta em minha direção e me diz palavras, estranhas palavras e sinto em sua voz um ranço acusatório. Ela me diz que sou o culpado de tudo. Que desde aquele momento em que a tirei da direção e resolvi tomar as rédeas disso que passei a chamar de Vida tudo a desandar, descarrilar, dar pra trás. Lágrimas foram se juntando em algum lugar onde elas ficam quando não querem ser choradas e de repente me inundaram o coração e transbordaram com tal ímpeto que toda a minha vida interior foi levada pela enxurrada. Lá dentro de mim, uma meteorologia anunciando incessante-mente chuvas e trovoadas, geada e frio, comunicações cortadas, energia cortada. Fiquei sozinho dependurado um fino galho de razão prestes a se quebrar. Estava sozinho demais para entender a precariedade de minha existência. Pedi ao bom Deus que uma vez mais me desse uma chance, esbravejei com Ele. Disse umas poucas e boas e chorei até ficar tão encharcado que nem que o sol ficasse acordado por uns cem anos ainda assim permaneceria molhado, literalmente, afogado em mim.

E então senti um calafrio. Não um calafrio desses que se tem quando se vê uma porcaria de filme como a Hora do Espanto 13 ou a milionésima revanche do Krugger, Freddie Krugger. Um calafrio daqueles que nos faz tremer ao ver como alguém pode ser capaz de desperdiçar toda uma seqüência de anos, preciosos anos que jamais poderiam retornar, zerar, voltar a contar. Lembrei então de quando tinha 9 anos e era jovem demais para saber viver e mais jovem ainda, para saber amar. Percebi que era um breve projeto de vida pousado nos ramos gigantescos da existência humana. E foi com 9 anos que senti pela primeira vez que a semente da eternidade e da imortalidade haviam sido em mim depositadas. Agora, ali, naquele misto de perplexidade e serenidade eu me via como mais um do velho clã McLeoad. A diferença era que somente poderia morrer se arrancado fosse meu coração. A cabeça? Ah, essa, poderia rolar a toda pelas ladeiras e corredeiras e batucadas da vida.

Coloquei-me na ponta dos pés e ainda tentei dar uma espiadela para dentro. Havia escuridão. Gritei por mim esquecido que não estava em casa. Havia saído para não mais voltar e não deixara bilhete, sinal, rastro qualquer capaz de me devolver a mim.

Queria urgentemente falar com alguma humana forma de ser. Queria estar naquele momento com meu amigo que acabara de receber os mágicos instantes de Borges e que lamentavelmente não soubera adequadamente apreciar. Resolvi me deitar e com poeira de estrelas fui acumulando densidade. Com a argamassa do tempo ressurgi como um Zumbi haitiano, sem memória, sem história.

Assim foi que descobri que a história nós a fazemos, no braço e no muque, tendo que matar um leão por dia e já deixar um outro preso logo ali mais adiante para o dia seguinte e mais uns três sob intensa vigilância para assegurar o resto da semana. Isso se ainda desejar continuar a lutar pela sobrevivência. E foi com tantos leões rugindo pensamentos maus que vi escapar de meus dedos rede de salvamento estendida, a caixa preta.

As represas da dor se romperam, me soterraram e um século depois eis-me ali, envolvido em estranha e ritmada convulsão buscando seduzir minha vontade, jogar k-ô para meu lerdo pensamento e quem sabe resistir uma vez mais a esses imperativos que transformam o paraíso em inferno abrasador e que faz o suave cheiro do sândalo parecer enxofre de terceira ou quarta categoria.

Esta foi minha penúltima tentativa de ver o que tem dentro. A verdade é que não sei aonde fui encontrar forças para refazer o longo caminho do aprendizado do amor. Só sei que comecei checando as muitas rasteiras que ele, o amor, me pregara e tomei nota das muitas vezes em que, em uma segunda chamada, havia mesmo comparecido por inteiro a essa longa e difícil disciplina, a disciplina do amor.

Eu não sei o que os outros viram lá dentro. Meus olhos acostumaram-se a amar o invisível que há nos seres amados e se sentem bem cansados quando têm que corresponder a um olhar mais expressivo. Um olhar desses que comprometem a gente por essa e pelas gerações futuras, nos levando, sem escalar, direto ao macro ambiente do Juízo Final.

Minha consciência, se é que ainda pode ser chamada por esse nome de solteira, essa sucumbiu a todo tipo de desdita e desilusão e como macaca velha não põe a mão em cumbuca, ela faz o mesmo. Sente-se anestesiada com a dor dos outros e faz de conta que não é nada com ela. Mas finge o tempo inteiro porque o instinto de sobrevivência fala mais alto e ela acha que amadureceu fazendo as artes do camaleão. O seu ponto chave é que ela sofre pra caramba. E sempre se sente diminuída quando vê alguém sinceramente sofrer, não deixando de usar todo ardil e também todo tipo de trapaça, jogando todo tipo de jogo para ajudar os que no meio do calor da luta estão prestes a tombar. É uma consciência simpática, muito amadora, nada profissional.

Vejamos outro aspecto importante. Ele mesmo. O meu coração. Pois não é que, por descuido, foi colocado na caçamba de gelo junto com a água que preenchia os demais vazios. E ficou lá congelando na longa noite do tempo. O dono há muito se despediu dos bares e da noite, das festas e seus DJs. Pudera. Quem, brindado com um coração dessa espécie, precisaria de inimigos? Ele se defende, porque julga em seus devaneios de sabichão, tipo tudo pode, tudo faz, que é o Gêngis Khan na flor dos 20 anos, pronto para destruir impérios, aniquilar civilizações, dizimar exércitos e então se sente bem à vontade quando o inimigo é apenas um pobre coração que nem bate mais no ritmo, resvalando constante-mente no campo da desafinação, dançando sempre, com ou sem música, com ou sem ritmo. O coração ao me falar nisso me faz um mal danado. Isso me faz sentir bastante penalizado com sua dor: qual coração gostaria de ser tão mal amado pela consciência que, pelo menos em tese, deveria protegê-lo?

Decido, então, não querer ver o que tem dentro. É melhor. Nâo tenho ainda construído tudo lá dentro e ver canteiro de obras, francamente, não é dos melhores programas. Mas fica sempre essa vontade de ver o que tem dentro dos outros. Somos melhores para os outros do que para nõs mesmos. E não faz muito tempo passou um caminhão tipo Scania, carregado de tubos de conexão Tigre, com dois tapetes movendo-se ao saber do vento. Em um dos tapetes podia se ler o velho dístico: “a grama do vizinho é sempre mais verde”. E no outro? Dizia: “A galinha do vizinho é sempre mais gorda” Desconfio que lá dentro estavam flanando esses dois tapetes e toda essa filosofia popularesca e cheia de significados e significantes.

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