“A civilização é um bem invisível porque inscreve seu nome nas coisas”, escreveu Saint-Exupéry. O próprio conceito e forma do processo civilizatório foi tema recorrente na vida e nos escritos do genial poeta-piloto francês. O nome das coisas nos leva aos cem anos de solidão de Garcia Marques ao tipificar seu célebre personagem que era de um tempo em que “como as coisas ainda não tinham nomes, era necessário designar com o dedo indicador”. E é esta abordagem pitoresca de recriar uma civilização, agora fundamentada na terra fértil do espírito humano que Saint-Exupéry irá buscar “o que une as coisas e que lhes concede um sentido”. Trata-se, então, da civilização interior que “somente será erigida no coração do homem”, como afirmaria seguidas vezes. O mundo assinalou os cinqüenta anos (1994) do desaparecimento de Saint-Exupéry e continuamos buscando os sinais que decifrem uma personalidade tão complexa e que levantou os temas mais instigantes da personalidade humana. A solidão da extensão humana, o florescer dos mais elevados sentimentos de solidariedade e amizade, a busca da compreensão do próprio ser, como meta suprema a se alcançar. E suas últimas palavras antes de embarcar na missão final e fatal: “Se voltar, o que será preciso dizer aos homens?” O momento é convidativo a algumas breves reflexões sobre o humanismo, o seu tão peculiar humanismo, que continua a comover milhares de pessoas em busca do sentido maior da vida.

A RESPONSABILIDADE DO MUNDO

É um tema recorrente em sua dialética. Não se pode caminhar no mundo sem se sentir responsável por ele. Como escreveria ao seu dileto e talvez maior amigo Léon Werth, a quem por sinal dedicaria “Le Petit Prince”: “Sinto em meu coração o peso do mundo, como se o carregasse…” Com efeito, cinqüenta anos se passaram e as milhares de crianças que morrem a cada dia em Ruanda, a iminência de uma intervenção militar no Haiti “que não é aqui”, como afirmou Caetano Veloso e também quando buscamos apreender a angústia da jovem Zlata em seu diário dos dias que correm em Sarajevo, sentimo-nos como se o mundo estivesse sobre cada um de nós e buscamos nas imagens gravadas na mente daquele jovem chinês da Praça da Paz Celestial, em Pequim, a enfrentar, corajoso e determinado o tanque de guerra que busca desviá-lo – estamos com ele na busca da liberdade e da democracia na China. O peso da liberdade no mundo recai sobre este simpático jovem e nós estamos, silenciosamente e de forma invisível, com ele, ali naquele momento único, em que se escreve aqueles instantes de bravura na memória coletiva da espécie humana.

A CIVILIZAÇÃO QUE CONTEMPLA DEUS

Em todos os seus escritos encontramos a preocupação com o ritmo da civilização, a busca da perfeição, a entrega de sí mesmo em busca de uma fraternidade universal. Na verdade, Saint-Exupéry foi um pára-raios do formidável ideal que tomou forma em meados do século passado: A Unidade do Gênero Humano. Ele escreveria que “durante séculos e séculos a minha civilização contemplou Deus através dos homens. O homem era criado à imagem de Deus. Respeitava-se Deus no homem. Esse reflexo de Deus conferia uma dignidade inalienável ao homem”, para concluir que “as relações do homem com Deus serviam de fundamento evidente aos deveres do de cada homem consigo próprio ou para com os outros”. É dessa perda de dignidade, de nos sentir intimamente relacionados à espécie que ele nos fala. E podemos ver quão profética é a sua reflexão: o caos moral e espiritual que o mundo testemunha, em escala nunca antes visualizada, dá-nos uma plena medida de como podemos perder nossos laços comuns quando descuidamos do fortalecimento dos laços que nos unem ao todo, à nossa espécie. Sua obra maior, “Cidadela”, que ele afirmaria ser seu principal legado ao mundo, é um cântico de louvor ao sagrado. Este mesmo sentimento que ocupa as reflexões de Gilberto de Mello Kujawski em seu último livro “O Sagrado Existe” (Ática/SP). E se temos tão poucos pensadores que busquem retomar o pensamento exupéryano é que lamentavelmente nos distanciamos muito daqueles elementos que refazem o sentimento de pertencer à espécie e portanto deixando de resgatar a dignidade humana, aquela que se sente oprimida quando outros são oprimidos e que se sente diminuída quando os outros são violenta e tenazmente diminuídos. Somos, como humanos, tratados como meios de produção, embora em seu “Último Discurso”, o simpático Carlitos nos exortasse com severidade: “Sois homens, não máquinas! Homens é o que sois!”.

A LIDERANÇA EM GRANDE ESTILO

As preocupações sociais, embora nem sempre objeto de estudos na obra de Antoine de Saint-Exupéry merecem uma especial atenção. Um exemplo se sobressai: a do diamante que é “fruto do suor do povo, mas depois de tanto ter suado, o povo acaba por produzir um diamante que não é consumível, nem serve a cada um dos trabalhadores” para concluir de maneira contundente: “Será nobreza do homem não extrair o diamante nem cinzelar o ouro?”. Um dos pioneiros na reflexão sobre o papel do verdadeiro líder, ele é enfático ao afirmar que “já compreendi que chefe não é aquele que salva os outros, mas sim aquele que lhes pede que o salvem”. Quando observamos o cenário nacional, e que não é muito diferente do cenário internacional, entendemos que não temos conseguido salvar nossos líderes e chefes: estão sempre envoltos em histórias de suborno e corrupção. Da Operação Mãos Limpas, na Itália do Primeiro Mundo às nossas conhecidas Comissões Parlamentares de Inquérito, constatamos que nossos líderes não “nos salvam” e nós, tampouco, lamentavelmente, os salvamos! E, é reconfortante observar como Saint-Exupèry fustiga, com muita propriedade diga-se, o capitalismo que “funda uma moral e uma escala de valores que prejudica a espiritualidade que procura defender.” Uma observação que atravessou seis décadas e que se torna extremamente atual, em um contexto histórico que viu a derrocada do modelo socialista do Leste Europeu. É como se nos confirmasse que o embate ideológico não produziu vencedores, visto que o modelo capitalista sobrevivente não consegue equacionar os grandes problemas da humanidade, dentre eles o espectro da fome e das injustiças sociais que colocam “o mundo virtualmente à beira das guerras”, como afirmou a Casa Universal de Justiça, em sua instigante declaração “A Promessa da Paz Mundial”. O homem não vive para ser um sacrifício ao modelo econômico e social, mas antes, tais modelos deveriam ser concebidos para assegurar o mínimo de justiça, “como a mais amada dentre todas as coisas” para todos, independente de fatores econômicos, políticos, sociais. O paradoxo lançado por Saint-Exupéry não é outro que uma reavaliação dos valores humanos, éticos e morais em sua essência e que mostra sua pujança na sentença antológica: “a tua pirâmide não tem sentido se não termina em Deus.”

RESPEITO PELO HOMEM

Saint-Exupéry denuncia com precisão, como bom patologista de uma época, os cruéis sistemas de classes que separam os homens, fundados invariavelmente em falsas premissas. Sem figuras de linguagem chega a afirmar com a mesma simplicidade com que desfaz os grandes enigmas: “É absurda a noção de classe, de industrial e de explorador. Existem apenas homens!” Em um momento em que convivemos com a cruzada corajosa de um Herbert de Souza para erradicar do mapa a fome que contamina a geopolítica brasileira, estas palavras calam fundo naqueles homens de boa vontade. Que sistema impiedoso é este que tendo um país figurando como a oitava economia do planeta, assiste ao holocausto, silencioso e eficaz, de um quinto de sua população a padecer os males da fome e da subnutrição? E Saint-Exupéry alinha as condições essenciais para o estabelecimento de um novo sistema político e social: “Respeito pelo Homem! Respeito pelo Homem! Se o respeito pelo homem estiver estabelecido no coração dos homens, os homens acabarão por estabelecer, em retribuição o sistema social, político ou econômico que consagrará este respeito”. E este respeito passa necessariamente pela compreensão toda abrangente de que “homem verdadeiramente é aquele que se dedica ao serviço de toda a humanidade”, como explicitou na primeira metade deste século o pensador Shoghi Effendi. Se ‘Abdu’l-Bahá dissera muitos anos antes de Saint-Exupéry que “o amor é a força de gravidade que mantém a ordem no mundo”, ele após uma dramática pane no Saara Africano, iria enveredar pelo mesmo caminho para concluir que “a força da gravidade me aparecia, de repente, soberano como o amor.”

A FAMÍLIA COMO CENTRO DE FORÇA

Em uma época em que as famílias encontram-se em franco processo de dissolução, tendo inclusive as Nações Unidades dedicado um ano como “Ano Internacional da Família”, iremos encontrar no legado do Camponês das Estrelas fonte de inspiração para as mais variadas meditações. Em Terra dos Homens, que lhe valeu em 1939 o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa de Letras, ele retorna à sua infância com a poesia a transpirar à flor da pele: “Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença. Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado.” Sem estas lembranças da infância, Saint-Exupéry não teria produzido sua obra. A força da família inundava sua obra assim como as flores inundam as árvores na temporada feliz da primavera. Era lembrando da infância que ele resgatava o sentimento de proteção, uma proteção não encontrada no mundo adulto. E se rendia a estas lembranças como fonte de alívio e consolo de uma existência marcada de decepções com o “mundo exterior”, do qual Cidadela retrata bem os dois pólos que nem sempre se harmonizaram em sua vida: a ternura dos primeiros anos e a angústia existencialista de seus últimos dias.

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