Por te falar eu te assustarei
e te perderei?
Mas se eu nunca falar
eu me perderei
e por me perder
eu te perderia
– Clarice Lispector

As rodas do trem ofuscam o trilho neste meio dia meia noite em que tento olhar pela janela imóvel a paisagem que se movimenta. Sigo o trilho em busca de uma trilha possível e embora subindo serras e cantando metais aspira encontrar o mar. Seus vagões obedecem ao velho maquinista que apreendeu da vida apenas a constatação de que qualquer tempo não empregado para amar é desperdício de vida e desperdício do combustível da vida, o amor. Volto os olhos para o campo e ao longe ainda diviso essa mistura de água marinha encharcando de terra meu continente interior.
Os sons se mesclam metálicos como marulhos e sonatas perdidas na imensidão de vastas ondas e avança o trem em desenfreada busca do mar. Um trem que não busca um mar não é um trem de corpo e alma é algo incompleto, algo interrompido entre a locomotiva imóvel que se arrasta solene por sobre as paralelas para nunca mais se encontrar.

Este trem que navego é um trem completo e acabado. Entende o riscado das linhas da mão, o traçado da cal e da água, a trama dos signos quando estrelado encontra-se o céu. É um trem vestido de azul. Um trem conhecedor dos caminhos que vão dar na praia e sabedor do que se escreve na superfície do fluxo e do refluxo das marés. Serão estranhos sinais anunciando a próxima estação que tanto pode ser a primavera quanto a estação primeira de Mangueira ?

Sem oxidar, ei-lo avançando por extensos dutos a interligar o Estreito de Behring a Machu Pichu, fazendo uma reparadora escala n’algum ponto fugidio entre Copacabana e o Tejo em Lisboa. É um trem que sente saudade da água doce e que não consegue se acostumar à secura da terra, das campinas, dos vales e do terreno montanhoso em que vez por outra tem que se aventurar.

A última vez que saiu da linha tomou rápido a trilha do mar. Pelo retrovisor embaçado de sargaço podiam-se ver ostras e conchas, pequenos cavalos marinhos semi-alfabetizados nos dialetos do mar e esquisitos peixes luminosos fornecendo como fornalhas em movimento, a energia propulsora. E no trem passageiros sonhando com galeões afundados e sereias apaixonadas. A verdade é que o trem adentrou no mar logo ali nas imediações do Havaí e só parou, 1844 dias depois, quando alcançava a enseada noroeste de Atlântida. Saudado com fanfarras marinhas o trem estanca, deixando vazar 715 estrelas do mar e 3.800 pérolas de grande preço. A interligar as pérolas um cordão dourado, alinhavando sonhos pela metade, uns poucos restos de poemas engasgados no céu da boca e uma dúzia e meia de textos insones que parecem apurar olhos para a luz da manhã.
Com os pés fixos nas cristas das ondas estes passageiros da ilusão deixam-se flutuar agarrados a corações bafejados por um vento sudoeste a 45 graus. É quando desce o maquinista, sorriso matreiro, olhar de satisfação, coração na palma da mão, a dizer como feliz estava por saber navegar um trem como aquele. E descamba a falar de sonhos idos e vividos, de uma tal vida que se leva em terras perigosas onde um trem é um trem, ferro e aço, fumaça e paisagem.

E foi assim que se criou esta linha especial que por toda a noite avança por um novo braço de mar, cruza oceanos, submergindo em consciências adormecidas e amanhecendo em breves ilhas de serenidade. Estas ilhas, que a uma primeira vista, parecem sempre estar sendo tocadas pela primeira vez pelo desejo humano, se localizam a esmo, ao longo da linha que separa a intenção do gesto, que modela a razão com o reboco da emoção e que anuncia com a pompa necessária que a existência humana é melhor medida pela intensidade do sonho que teima em ser real a cada dia que envelhecemos intelectualmente para ressurgir novo, salpicando de sentido a aventura de viver cada novo dia.

Com olhos vazando de um lado o atlântico e do outro o pacífico, observo a partida de mais um trem. Vagamente seu destino se anuncia: próxima partida para as estrelas… O maquinista avisa os passageiros que terão direito a uma parada de 15 longuíssimos minutos na infância e mais dez minutos na adolescência. Enfadado diz ser este tempo suficiente para encontrar um amor perdido, por exemplo. Num e noutro trem, lá estamos nós em busca de uma felicidade qualquer, quando então, olhos mais que cansados de olhar voltam a arrumar o travesseiro recheado com as últimas 97 emoções e… que nos fazem pensar que estamos sempre dentro de um único e mesmo sonho. O sonho de existir.

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