Nascer me estragou a saúde. Nada mais Clarice do que esta frase. Na literatura de Clarice há um quê de devaneio com indignação que a torna por demais preciosa. É como se o pensamento se conchavasse com a emoção e desaguasse em torrente por cima de páginas, formando pequenas ilhas, lugares insondáveis onde sua emoção mais profunda vez por outra busca refúgio.

A primeira vez que li Clarice confesso que tive a sensação de ter sido nocauteado. As palavras eram conhecidas, a formação das frases também. Mas o espírito de Clarice me pegou desprevenido, logo eu que não sou minimamente chegado a espiritismos e temas assemelhados. Senti sua alma torturada buscando respostas que teimavam em se multiplicar: a cada resposta surgia um novo filão de ouro impregnando novos questionamentos.
A segunda vez que li Clarice encontrei um mistério indevassável. Alguém que trazia claridade no nome e nebulosidade no coração. Uma Clarice tão etérea que seria impossível tocá-la. Ela trazia em seu mistério paisagens da alma pouco freqüentadas pelo menos por mim. Sua literatura continuava sendo um labirinto mágico, onde a beleza está em se saber perdido e em se lutar para continuar perdido. Porque Clarice nos faz perder o rumo, como aquele desavisado que foi acertado por um pedra pontiaguda e que cai ao chão imaginando como o poeta, ouvir estrelas.

A terceira vez que li Clarice, li com lágrimas nos olhos. Estava imerso em uma dor insondável. Os olhos se recusavam a ver e fechados liam letreiros luminosos inscritos nas paredes rupestres do coração. Era uma inundação de imagens, dessas que nos atordoam pelo reflexo produzido ao fim de cada sentença. Chorava desconsolado e pensava na menina ruiva que infernizou a vida de Clarice na sua adolescência recifense: a ruiva se recusava a lhe emprestar o livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato.

Chorava com seu espanto ao se deparar com um rato morto esmagado na orla de Copacabana logo após ter confidenciado ao céu que desejaria ser a… mãe de Deus.

Depois não parei mais de ler Clarice. Quando a realidade sufoca muito vou direto, sem paradas intermediárias, buscar o volume perdido de A Descoberta do Mundo. Quando desanimado com as contradições de um existenciazinha bucólica penso no seu Um Sopro de Vida.
Posso, quando muito triste, com essas tristezas de quem conseguiu encontrar dor na alegria mais intensa, imaginar Clarice com a mão queimada em triste noite de alucinantes leituras. Posso, também, ver Clarice nos meus amigos. Um que anda desajeitado pela vida ao longo de seus quase dois metros, tentando entender a passagem do tempo e a solidão sufocante de quem se sente jovem demais para amar. Outro embasbacado com a leitura da Maçã no Escuro, tentando descobrir porque a maçã, porque o escuro?

Há vinte e cinco anos faleceu essa surpreendente escritora. Era dezembro de 1977. E talvez nunca o mundo tenha estado tão cheio da presença de Clarice como agora. Ela está com a gente, no sofrido dia a dia, no aguardado amanhecer de um novo dia, nos sonhos que antes de serem sonhados tinham os pés bem fincados na realidade. Viva a clara claridade de Clarice. O resto… já é outra história.

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