Minha aldeia é todo o mundo. Todo o mundo me pertence. Aqui me encontro e confundo com gente de todo o mundo. É assim que caminho pelo centro histórico de Córdoba. A Andaluzia carrega consigo aquele espectro de uma glória que chegou e que passou. Essa região da Península Ibérica representou um mundo poliglota habitado por árabes, judeus, berberes do norte da África, negros, cristãos de nascença e cristãos arabizados – os moçárabes – bem como mercenários vindos de Estados cristãos da Europa. Os judeus se saíram muito bem nesse mundo urbano de comércio, filosofia e secularismo.
Muito tempo antes da ascensão da Espanha e da cultura hispânica, anterior ainda àquela série de acontecimentos que conduziriam a Península Ibérica dos soberanos católicos Fernando e Isabel para a idade de ouro de Cervantes, El Greco e Velázquez, existiu nos jardins da Andaluzia, no burburinho de seus mercados, na ousadia do conhecimento secular de suas academias, a união de muçulmanos e judeus para construir um novo mundo, permeado por apreço à diversidade humana e até crescente grau de tolerância. Sendo a principal da Andaluzia, e desde muito reputada como uma das mais bonitas da cidade da Espanha, Córdoba foi o ambiente adequado para permitir a paz islâmica manifesta em seu rico intercâmbio cultural e comercial.
Como era de se esperar, com o tempo, a decadência e o caos político e social esmagariam a Espanha muçulmana; entretanto à medida que se aproximava o segundo milênio, havia-se edificado na cidade de Córdoba um império muçulmano que poderia rivalizar com sua nêmese do leste, o mundo imperial que gravitava em torno de Bagdá. A presença muçulmana em Córdoba é tão palpável quanto uma pedra de granito. E é grandiloquente. Os arcos e colunatas, as cúpulas, as mesquitas e catedrais ricamente entalhadas com textos sagrados em alto-relevo são um espetáculo para os olhos. É como estar na Europa e entrar por uma misteriosa porta que vai dar em Damasco ou em Istambul.
No século X da era cristão, a população dessa bela cidade era estimada em cerca de 250 mil habitantes. Este encontro de culturas, tão esplendorosas quanto densas, e que tanto me fascina, foi descrito por um viajante desse mesmo século X como “uma cidade sem igual na Síria, no Egito e na Mesopotâmia, pelo tamanho de sua população, extensão, espaço reservado aos mercados, limpeza das ruas, arquitetura das mesquitas, número de banhos públicos e de caravançarás”. É sempre estimulante estar em uma cidade como Córdoba e, melhor, estar consciente de que não havia cidade na Europa Ocidental de então que pudesse com ela rivalizar. E mais ainda: que outra cidade igual a ela só se podia achar nos grandes centros imperiais de Bagdá e de Constantinopla, além de outras em mundos remotos: Angkor, na Indochina; Tchangngan, na China; e Tollán, no México, como bem afirmou o pesquisador Fouad Ajamí.
Famosa por seus campos férteis, Córdoba tinha cerca de 700 mesquitas, oito mil banhos públicos. Suas ruas, avenidas e praças eram iluminadas e mansões suntuosas se erguiam às margens do rio Guadalquivir, além de contar com numerosas bibliotecas. Reza a lenda que a biblioteca do califa tinha cerca de 400 mil volumes. É importante destacar que, já quase no final do século X, os judeus ibéricos tinham declarado sua independência dos talmudistas das academias babilônicas de Bagdá. A maior dádiva dessa época foi a produção do corpus literário judaico-arábico. Um prodígio em todos os sentidos, a nos mostrar que toda civilização carrega dentro de si a chama de fogo do progresso, da arte, da cultura que transcende fronteiras geográficas ou imaginárias.
Testemunha de guerras ditas religiosas, Córdoba caiu em 1236. seu conquistador, Ferdinando III, de Castela, retomou a Grande Mesquita de Córdoba – cujos alicerces haviam sido lançados no final do século VIII – em uma cerimônia de “purificação”, tendo sido consagrada por seus bispos à adoração cristão com o nome de Catedral de Santa Maria. E é essa catedral que me enche os olhos de espanto com tanta beleza, com tanta luz, com tanta arte. Os sucessivos governantes que por ali passaram a adornaram e ampliaram. Essa catedral foi um símbolo máximo da autoridade andaluza, uma maravilha arquitetônica sublime onde, nas palavras de Ajamí, “governantes e benfeitores deixaram transbordar, reverentes e ambiciosos, seu desejo de uma nova fronteira muçulmana tão imponente quanto o melhor de Bagdá e Damasco”. Na Península Ibérica, e por certo ao longo da história das grandes civilizações, a idade de ouro de um povo sempre ficou conhecida como a era de trevas de outro. Uma terra onde antes conviviam três fés expulsaria de seu solo os muçulmanos e os judeus. Uma nova doutrina belicosa – denomina limpieza de sangre – erradicava aquele passado labiríntico com toda a sua riqueza.
Sinto-me enlevado por essa atmosfera em que a história e a fé voltam a se unir e a se separar, em que guerras continuam sendo travadas em nome de uma paz rarefeita, fugidia. Penso então nos processos de unificação continental que se desenvolvem atualmente neste mundo que está prestes a ingressar no terceiro milênio. Imagino Córdoba não tendo caído e não tendo sido derramado o sangue de gerações inteiras, de populações inteiras, e que existissem, lado a lado, grandes mesquitas muçulmanas e grandes catedrais cristãs.
Estou cada vez mais convencido de que esses processos de unificação deveriam emular o estilo de como as catedrais eram erguidas na Idade Média: uns levavam trabalho, outros materiais (pedras, tijolos, argamassa), outros traziam seus recursos financeiros e o resultado era usufruído pela soma de todos. Ou seja, uma catedral deixava de ser um amontoado de pedras bem dispostas para ser um refúgio de paz e símbolo de bem-estar para todos que a ela recorressem. Lamentavelmente, o que vemos hoje são movimentos de integração fundamentados em interesses puramente econômicos e financeiros, ao invés de inspirados na promoção do bem-estar e no progresso dos povos. Outra evidência dessa afirmação é que os tratados econômicos e financeiros recebem tratamento jurídico especial, são mais detalhados e explicitados, enquanto os temas sociais, como o exercício da cidadania, a promoção da cultura e o desenvolvimento da pesquisa científica são relegados ao segundo plano das regras gerais, nem sempre eficazes e auto-aplicáveis.
O que um ser humano – de boa vontade, diga-se – desejaria para o mundo na entrada do terceiro milênio? Sem dúvida que desejaria um mundo mais humano, fraterno e vacinado contra a violência entre povos e nações, um mundo não polarizado entre ricos muito ricos e pobres muito pobres, um mundo que venha a ter como bandeira maior o primado dos Direitos Humanos fundamentais.
A História nos mostra que desperdiçamos muitos séculos nos preparando par o mundo que temos hoje: com 16 conflitos armados, em que se dispense cerca de US$ 36 mil para manutenção de um soldado no front de batalha e tão-somente cerca de US$ 1 mil com a manutenção de professores de escola básica. Estes números anuais demonstram o dilema em que nos encontramos e nos fornece material para reflexão sobre a profundidade das mudanças que se fazem necessárias, se não, inadiáveis. Enquanto tenho esses pensamentos, meus olhos pousam em um belo mural com motivação cristã sobreposto a alguma pintura, certamente de inspiração islâmica. Córdoba é uma lição de beleza, em contraposição à intolerância; de anseios de paz em contraposição ao desenvolvimento da máquina de guerra. E também de fome de beleza reprimida ao longo dos séculos. Uma fome que ainda pode ser saciada com uma breve caminhada pelas paisagens de uma Córdoba adormecida no leito do tempo.
Poucas cidades me estimulam tanto o pensamento como esta. Com o ocaso do comunismo no Leste Europeu nos últimos anos, foi-nos transmitida a impressão de que o mundo seria outro, e não foi exatamente o que aconteceu. A derrocada do modelo soviético, que bem poderia ser avaliada como o esgotamento de um “capitalismo de Estado”, apenas tornou aguda a verdadeira polarização e deixou uma pergunta ao sistema ou modelo econômico sobrevivente: como resolver o problema do meio ambiente, a fome do Terceiro Mundo e a pobreza do Primeiro Mundo?
A dificuldade está em que o Sistema prevalecente (se é que pode se chamar assim) é um sistema totalmente direcionado para o enriquecimento dos mais ricos e está fundado, novamente no “endeusamento do indivíduo”, em detrimento do “endeusamento da sociedade” como um todo e também em nossa falha em compreender a unidade intrínseca do gênero humano. Assim, somos impelidos a produzir amontoados de pedras, e não catedrais ou centros de pesquisas. Há que se resgatar o espírito que possa impulsionar, uma vez mais, o progresso da civilização. Tarefa, aliás, nada fácil. Mas não impossível.
Colocar em debate a emergência de uma Nova Ordem Mundial requer prioritariamente identificar o que é a antítese da ordem, que por sua vez é a simples desordem, o “Kaos”. E convenhamos, a maior desordem é a injustiça. Não se pode construir a Ordem em um mundo permeado por injustiças e que se debate com o ressurgimento, ainda que momentâneo, dos movimentos separatistas, das guerras fraticidas e da xenofobia que descamba em movimentos neonazistas e neofascistas.
Há que se arrumar a casa para colocar a mobília nova. E esta casa chamada planeta precisa do esforço de todos, cada um no seu ofício a colocar seu tijolo, sua cal, seus recursos, seus ideais – não em benefício de si mesmo – mas em benefício da inteira coletividade, pois testemunhamos, e tenho absoluta convicção disso, um momento único de planetização da sociedade humana. É assim como vejo a emergência de uma Nova Ordem Mundial. É Córdoba voltando ao seu esplendor, muito além do credo que professa, das razões de Estado que determinem sua longevidade enquanto pólo aglutinador de raças, culturas e crenças.

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