Em 1988, estava em Jerusalém. Um jovem de seus vinte e poucos anos puxa conversa comigo. Diz que, por saber um pouco de espanhol, descobriu por um livro que eu tinha em mãos que eu deveria ser de algum país da América do Sul. Acertou. Estava viajando com o livro Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Tratava-se de uma edição condensada da brasileira Cia. das Letras. Ele se apresenta, Menachem. E realmente fala inglês e umas vinte palavras em espanhol. Diz que a vida inteira sonhou conhecer o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro. Disse que conhecia muitas pessoas que lhe falavam maravilhas do Brasil. Sonhava com o carnaval, com Copacabana, com jogos no Maracanã. Menachem parecia conhecer o Brasil sem nunca ter aqui estado. Falo que havia residido uns onze anos no Rio e que agora, após me casar, estava residindo em Natal. Encorajo-o a fazer viagem ao Brasil. Trocamos endereços e tudo. Convido-o então a, depois de conhecer o Rio, dar umas esticadinhas a Natal, que tem belas praias e uma hospitalidade única. Ele topa, mas pergunta qual a distância entre o Rio e Natal. Respondo que umas quatro ou cinco horas de vôo é suficiente. Ele fica alarmado. Penso então que sua surpresa deve-se ao fato de que Israel é realmente um país muito pequeno, onde tudo faz de carro; a curtas distâncias, as grandes cidades são acessíveis. Bem, naquela tarde de abril, sigo para Tel-Aviv e de lá para Paris e então para São Paulo. Em 1992, estou no Banco do Nordeste, em Natal, quando uma secretária me diz que tem um “gringo” na linha e que a única palavra que ela consegue identificar é “Washington”. Não deu outra. Menachem está em Natal e apenas me pergunta como podemos nos encontrar. Peço seu endereço na cidade para buscá-lo. Ele recusa, mas diz que vai me encontrar ainda aquela noite. Assim, pouco antes das oito da noite, uma moto barulhenta estaciona na minha porta. Menachem chega de carona do aeroporto Augusto Severo. No rosto, um sorriso de felicidade; nas mãos, uma garrafa de vinho. Para mim, é Jerusalém que chega em minha casa. Conversamos como velhos amigos e ainda consigo que ele fique conosco uns três dias. Ele estava encantado com o Rio e já queria retornar. Não para Israel, para o Rio mesmo. Como não bebo bebidas alcoólicas, um vizinho recebe o vinho trazido com tanto cuidado e de tão longe…

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