Barcelona passeia em nós. Esta é a sensação de quem pisa pela primeira vez na vanguardista e muito movimentada capital da Catalunha. Está situada na costa mediterrânea, em uma planície limitada pelo mar, a cordilheira litoral e a foz do rio Llobregat e do Besòs. O porto é um dos mais importantes do Mar Mediterrâneo, tendo desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da cidade.
Os catalães, além de muito atenciosos, demonstram um sólido conhecimento de suas raízes culturais. É instigante ver a liberdade de espírito que os catalães possuem. Sabem comentar todos os assuntos da atualidade – com profundidade, diga-se – e tomam partido em tudo, desde uma nova lei adotada pelo governo espanhol para inibir as ações dos separatistas bascos, até as ações que devem ser tomadas para resgatar o povo cigano da miséria e do desemprego. A origem de Barcelona deve-se à fundação de uma colônia romana ao final do século I a.C.; portanto, Barcelona avança com o Cristianismo para o terceiro milênio. A história registra que, durante a Idade Média, a cidade testemunhou uma forte expansão que foi interrompida entre os séculos XV e XVIII. A Revolução Industrial impulsionou sua expansão urbana dando-lhe seus atuais contornos.
Um passeio em Barcelona tem algo de lírico. Seus monumentos mais representativos são da época medieval: a igreja românica de Sant Pau de Camp e, em estilo gótico, a catedral, o palácio de Generalitat, o Palau Real, as Atarazanas e o Hospital de Santa Creu. Conta também com algumas jóias do modernismo: a Casa Milà, o Palau da Música, a Sagrada Família e o hospital de Sant Pau. Digitando estes nomes, sinto uma vontade imensa de completar algumas palavras. Parecem faltar letras. Ocorre que o idioma catalão tem um perfil muito peculiar tanto para a escrita como para a pronúncia: palácio é palau, Paulo é pau, cruz é creu, santo é Sant e Jorge é Jordi. Na Cidade Condal, temos o porto de Barcelona, o monumento em homenagem a Cristóvão Colombo e o trecho final das Ramblas, que se comunicam com a Plaza de Catalunha.
Se uma cidade tem espírito, o espírito de Barcelona tem nome, história e vem da mais nobre linhagem da Catalunha. Chama-se Antônio Gaudí, que vivem entre 1852 e 1926, e marcou o seu tempo plantando sonhos imaginários no concreto dos edifícios. Daí a alcunha de vanguardista que vem carregando Barcelona ao longo do século XX. Gaudí tem sido uma das figuras mais surpreendentes da história da arquitetura. Surpreendente tanto por suas inovações, aparentemente intuitivas, quanto por sua prática alheia às correntes internacionais e, na maioria das vezes, sustentada no mero trabalho artesanal. Em 1883, Gaudi assumiu as obras para a continuação do templo expiatório da Sagrada Família, em Barcelona, onde também construiu a Casa Batló, a Casa Milá e o Parque Güell. Este último é uma das obras primas da arquitetura paisagística do século XX, tendo sido concebido por encomenda do empresário e mecenas Eusebi Güell, que tinha o objetivo de construir uma cidade-jardim. As obras foram iniciadas em 1900, e o plano urbanístico foi concluído em 1914. A catedral de Gaudí, como é conhecida, é um deleite para os olhos. Tem um desenho muito curioso, que tanto pode lembrar o risca-risca de uma criança do jardim da infância, quanto o interior de uma extensa caverna com estalactites e estalagmites apontando para o céu.
Os afrescos e murais da cidade chamam a atenção. A pintura e a escultura se mesclam na paisagem de Barcelona.
Foi em uma imensa e tradicional livraria no centro de Barcelona que me deparei com este texto de Leonardo da Vinci sobre a arte da pintura:

“Se o pintor quiser ver as belezas que lhe inspiram o amor, ele tem a faculdade de criá-las, e se ele quiser ver as coisas monstruosas que amedrontam, ou as engraçadas que fazem rir, ou aquelas próprias a inspirar piedade, ele é delas mestre e senhor, e se ele quiser criar paisagens, desertos, lugares ensombrecidos e frescos no calor, ele os representa; da mesma forma os lugares quentes. Se ele quiser os vales, se ele quiser descobrir grandes extensões do cimo das montanhas e se, depois, ele quiser ver o horizonte do mar, ele tem o poder. O que existe no universo, por essência, presença ou ficção, ele tem, primeiro no espírito, depois nas mãos. O caráter divino da pintura faz com que o espírito do pintor se transforme em imagem do espírito de Deus”.
E não sei bem porque sinto que essas palavras trazem muito da diversidade e do multiculturalismo com os quais alguém, desavisadamente, pode se deparar em Barcelona.
Barcelona é a cidade preferida de muitos viajantes. Estar em Barcelona significa ter o cosmopolitismo de Londres, a plasticidade de Paris, a eficiência dos metrôs de Frankfurt, o clima meio brejeiro e lúdico de Lisboa ao pôr-do-sol. Por mais que Madri esteja entronizada como a capital da Espanha, é Barcelona o coração desse país multifacetado que reúne vários povos em um só povo.
Passei três dias de abril de 1993 nessa cidade. Eles me valeram por um ano em qualquer parte dos Estados Unidos ou das cidades que foram o chamado círculo Elizabeth Arden. Nesses dias estive em contato com universitários em suas próprias universidades. Apresentava o que poderia ser a visão dos povos indígenas sobre o descobrimento da América. Foi o meu livro Estamos Desaparecendo da Terra que me levou a 14 cidades espanholas. Em uma das faculdades, duas jovens estavam impressionadas com o que lhes falava sobre a dimensão moral e espiritual dos povos indígenas. Contei a história sobre outro enfoque: o que teria sido daqueles povos se não tivessem existido os descobrimentos há cinco séculos. Afirmei que concordava integralmente com Mark Twain, quando este declarava que, se havia sido ótimo descobrir a América, melhor seria não havê-la descoberto.
Desde os Jogos Olímpicos de 1992, novos projetos urbanísticos foram desenvolvidos na cidade. Um nativo (e quando mencionamos esta palavra lembramos algum habitante de alguma ilha do Pacífico Sul) me disse que Barcelona se divide em dois tempos: antes e depois dos Jogos Olímpicos.
Discordo. O bom de Barcelona foi construído antes, muito antes da realização daquelas Olimpíadas; é a sua arte nas ruas, são os seus museus apinhados de gente, é a sua noite fervilhante de óperas com Montserrat Caballé, são os shows e as peças teatrais, antes encontradas apenas em cidades como Paris e Londres. Barcelona é uma cidade-cenário. É difícil imaginar o talento de Almodóvar se não for esparramado pelas ruas e praças de Barcelona. Uma pessoa caminhando pelas ruas de Barcelona tem sempre algo de poético, algo de eloqüente. E não se caminha em Barcelona impunemente. Como não se pode adiar uma visita a ela. Existe sempre uma emoção e um anseio de retornar a Barcelona… muito antes ainda de termos partido.

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