Partimos de Brasília no dia 31 de janeiro de 1996. o vôo 9375 da Cubana Air, inicialmente previsto para partir às 22h40, levantou vôo aos 30 minutos do dia 1º de fevereiro. O avião era um Elyushin 62, fabricado em 1980, com capacidade para 168 passageiros. A tripulação não passava de 45 pessoas. Logo na entrada da aeronave, encontramos o jornal Granma distribuído a todos os passageiros, impresso nas cores preta e vermelha. Era esse meu primeiro contato com a imprensa de Cuba. Estava realmente curioso para saber quais as notícias do país de Fidel. As páginas tinham muito de recordações do passado revolucionário da Ilha. Logo ao lado do dístico do jornal, a informação de que “este semanário publica-se em português, espanhol, francês, inglês e alemão”.
Chegamos ao Rio de Janeiro quase duas horas depois. O avião, estrito, tinha o incessante movimento de aeromoças trajadas de azul marinho, contrastando com lenços e adereços vermelhos, e podíamos notar sua diferença em relação aos jatos e boeings da Varig. Era sem dúvida uma aeronave com muitas horas de vôo. Uma forma simpática de dizer que se tratava de uma aeronave ótima para um museu da aeronáutica. Descobri pelo menos um outro casal de brasileiro, além de nós. Eram mineiros. Estavam levando mantimentos e outros bens perecíveis para doar ao povo cubano. Descobrimos assim que os telejornais prestam um bom serviço: as informações sobre o bloqueio econômico a Cuba, orquestrado pelos Estados Unidos, induze-nos a gestos espontâneos de solidariedade.
No Galeão, embarcaram muitos cariocas. Sonolentos e vendo o tempo passar como se fosse em um conta-gotas, embarcamos no 9375 às 4h35 para despertar em Havana às 10h15. No Aeroporto Internacional José Martí, temos as primeiras imagens de Cuba: uma cidade antiga, bonita, que nos remete aos anos 60.
Essa imagem é reforçada quando contemplamos um imenso outdoor – o primeiro outdoor dos muitos que veremos nos próximos dias – com a figura sorridente de Ho Chi Minh ao lado de suas palavras: CONSTRUIREMOS UM VIETNÃ DEZ VEZES MAIS BONITO!
O povo cubano começa a deixar suas marcas logo no aeroporto. Todos mostram uma educação sem qualquer forma de afetação ou de formalismo automatizado. Sorriem, perguntam se estamos bem, respondem amistosamente aos cumprimentos e nos desejam boa estada em Cuba. São de todas as cores – brancos, morenos, negros. E de todas as idades – jovens, adultos, idosos. Homens e mulheres, igualmente. E não são barulhentos. Nessa acolhida, pude observar a aplicação de uma virtude aplicada em larga escala: a cortesia. Parece um vocábulo do século passado, cheirando a naftalina nesses anos atribulados em que vivemos. Mas é a cortesia que afasta toda a estranheza causada pelo medo do desconhecido, seja este representado por povos ou nações, e nos imerge nessa agradável sensação de que pertencemos a esta única e imensa família que atende pelo nome de humanidade.
Havana parece ter saído de um bombardeio: as construções, embora muito bonitas, com seus arcos ecolunatas, motivos decorativos e arabescos diversos nos parapeitos e fachadas dos edifícios, tudo dentro de um estilo que nos remete aos anos 50 ou 60, revelam elevado grau de deterioração, o que nos deixa preocupados, pois certamente estamos no maior museu ao ar livre do mundo. Um museu que conserva o espírito paisagístico de uma era, talvez não muito dourada, mas que ainda assim guarda seus encantos: o glamour dos cassinos, o clima carregado dos ricaços esbanjadores vindo daquela parte mais opulenta do mais próximo país, do mais próximo continente, os Estados Unidos. Não seria muito dizer que, mesmo em ruínas, esta cidade conserva seu encanto. O encanto que somente uma velha cidade pode ter. as velhas senhoras e as velhas cidades têm algo em comum, a marca de uma certa dignidade. E tanto a cidade velha como a velha senhora deixam fluir, qual sangue perdendo-se nas veias, um tempo de resplendor e encanto. Com certeza, essa parte de Havana sempre será uma fonte de inspiração para os escritores, como o foi para quem escrevem Por quem os sinos dobram, Adeus às armas e as 27 mil palavras que foram o clássico O velho e o mar.
Talvez seja essa a melhor visão do que diferencia um país capitalista de um socialista, pré-queda do muro de Berlim. No primeiro, encontraremos uma preocupação muito evidente com a estética, com as aparências, os meios que possam atrair capitais externos, enquanto no segundo as obras estão camufladas na forma de programas sistematizados de erradicação do analfabetismo, na acessibilidade do público à educação e à saúde. Prós e contras podem-se constatar tanto em um quanto em outro, e é no mínimo ingenuidade mostrar-se extremamente favorável a um sistema em detrimento do outro. Nesse contexto, vemos que os totalitarismos, os regimes de força, costumam eleger setores prioritários em seu desenvolvimento. Se a União Soviética escolheu destacar-se o poderio militar e a tecnologia espacial, está evidente que Cuba escolheu a saúde e a educação. Infelizmente, os dois sistemas apresentam-se lamentavelmente “defeituosos”, como já antevia Bahá’u’lláh (1817-1892) em meados do século XIX. E é reconfortante saber que agora, finalmente, nos damos conta da exatidão desse pensamento. Segundo Bahá’u’lláh, toda norma legal ou teoria política e econômica é concebida para proteger os interesses da humanidade como um todo, e – parece-me extremamente atual – não para que a humanidade seja crucificada a fim de preservar a integridade de alguma lei ou doutrina em especial.
A Unesco está patrocinando a restauração da Habana VIeja, que foi tombada pela ONU como patrimônio da humanidade. Não será uma tarefa fácil. Mas um turista acidental como eu bem poderia imaginar como será belo todo esse conjunto arquitetônico a que chamamos de Habana Vieja depois da tão necessitada restauração. Fico feliz e surpreendido ao ver que as placas de restauração de toda essa parte antiga da capital cubana não registrarão como empreiteira uma construtora, se capitalista ou socialista, não vem ao caso, mas sim a Unesco. E concluo que em seu cinqüentenário as Nações Unidas presentearam a humanidade com uma grande idéia: proteger bens artísticos, culturais e paisagísticos que, por sua importância, fazem transcender a responsabilidade por sua preservação para além da nação onde está estabelecida, abrigando o conceito muito mais amplo de serem patrimônio de toda a humanidade. E é a humanidade quem está pagando, por intermédio dos países-membro do sistema das Nações Unidas, esse vasto empreendimento restaurador, uma prova adicional de que amor ao gênero abarca o amor à pátria, sem gerar qualquer conflito.
Não obstante o cenário descuidado de Cuba, as ruas estão sempre limpas. Uma noite, observei uma senhora varrendo a frente de um terreno baldio quase às escuras. Lembrei-me dessa senhora com especial carinho, pois quem limpa uma parte de seu bairro, está limpando um quarteirão do mundo.
Penso em Cuba como um todo. Um pensamento, algum ideal permeando gestos, fatos, pessoas. Cuba, no século XVI, era um porto obrigatório tanto para a Flórida quanto para o extremo sul do continente, o que a transformou em um grande referencial econômico, turístico e cultural. Essa Havana que me receber hospitaleira e grávida de esperança é a mesma Havana, como bem assinalou Cabrera Infante, que os espanhóis, em 1762, quando a ilha foi invadida pelos ingleses, não hesitaram em manter, recusando trocá-la por uma única cidade, a Flórida, que naquela época se estendia até o centro dos Estados Unidos. A minha primeira impressão é a de que Cuba evoca essa coisa maior que chamamos de solidariedade.

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