Estar em Lisboa é em si um acontecimento singular para um brasileiro. Podemos ir para Kathmandu, adormecer ante o Taj Mahal, em Agra, ou caminhar pelas ruas cheias de vida de Roma. Podemos até mesmo contemplar do alto de Massada a breve extensão do Mar Morto, no território israelense. Mas estar em Lisboa é um acontecimento. A cidade tem odor e sabor. Tem cheiro das águas do Tejo e sabor de um passado longínquo que fincou raízes em lugares tão distantes quanto Timor Leste e Macau, no continente Asiático, continuou se estendendo até a África e mergulhou na América do Sul, ressurgindo com o nome de Brasil.
Caminhei pelas ruas de Lisboa no intervalo de tempo que vai de 1983 a 1999. Quase uma existência, como se fossem dias, semanas, meses e anos ininterruptos. Mas não o foram. A primeira vez que lá cheguei, tinha menos de 25 anos e poucos poemas de Ricardo Reis e Álvaro de Campos na memória. Lembrava que Jean-Pierre Tribaudaut, um renomado crítico francês, havia afirmado em uma edição do Liberation, de 11/12 de maio de 1985, que “Tabacaria é o mais belo texto do mundo”. E cai bem saber que este é apenas um dentre os muitos belos poemas de Fernando Pessoa.
A segunda vez, era 1993 e chovia em Lisboa. As águas revolviam a terra, trazendo à tona um passado rural que remontava à Idade Média.
Da última vez, cheguei em Lisboa vindo da Itália. Trazia no coração, além de Pessoa, uns poemas maravilhosos de Miguel Torga e algumas páginas hermeticamente fechadas de Saramago. Da primeira vez, ainda não tinha a língua portuguesa nenhum Nobel a atestar a boa qualidade da literatura produzida em nosso idioma. Da última vez, com o Nobel a resgatar nossa auto-estima, já sabia de cor a frase pessoana: “minha pátria é a língua portuguesa”. E essa frase lançou âncoras em meu espírito, fazendo surgir um sentimento impregnado de fados, os mais sentimentais do mundo, um sentimento de pertencer a algo transcendente. Era o milagre da língua fazendo escoar na veia o lirismo lusitano, reacendendo estados d’alma insuspeitados.
O jogo das palavras é por vezes estimulante. Os trens são comboios; as filas, bichas; os bolsos, algibeiras. Naquele momento é dito como “naquela altura”. A lógica, em princípio, não tem nacionalidade. Mas estou convencido de que existe uma lógica que é essencialmente portuguesa. E é também uma lógica única. Inicialmente achamos motivo de riso; depois, se formos honestos, veremos que guardam uma certa coerência. Finalmente, Margarida Miguel tenta pela enésima vez falar comigo. Reclama em telefonema ao Rolf que “para o Hotel Berna, Washington Araújo não existe, seja como Araújo, seja como Washington”. Ligo à recepção e pergunto se poderiam me informar quem é o hóspede do 922, onde estou alojado. Um jovem responde que é o Sr. Dearaújo. Pronto. Descobri a irritação de Margarida: registraram-me como Dearaújo. Meu sobrenome começa então com a consoante “D”. Se não fosse por essa amiga, permaneceria incógnito em Portugal por toda uma semana.
Portugal é o berço dos nomes mais carinhosos, jamais dados a lugares públicos. E me lembro do bairro chamado Seteais. São sete os gritos de dor, sete os ais. Daí por uma lógica nitidamente lusitana, vai “desembocar” no vocábulo único Seteais. E é também o berço dos amores correspondidos, pouco correspondidos e jamais correspondidos. Pode-se visitar o Hotel Pousada das Lágrimas. Um nome no mínimo curioso para uma hospedaria: quem iria desejar descansar a mente, libertar o corpo do estresse em um lugar que lembra… lágrimas? Mas este nome tem um motivo: foi onde diversas vezes Pedro e Inês de Castro pernoitaram. Daí a recordação da trágica história de amor.
Estar em Lisboa é ter a sensação de estar penetrando em um continente misterioso e surpreendente. As mulheres idosas, atacarradas em seus costumeiros vestidos negros, guardando o luto que dura mais de um século e recendendo a azeite de oliva, integram a paisagem das amplas avenidas do Campo Pequeno e do Bairro Alto. Os jovens saem em grupos pelo moderno metrô com a mesma algazarra de sempre. Mas se fitarmos seus olhos, encontramos rapidamente o mesmo espírito ancestral dos descobridores, os olhos de navegantes intrépidos a descobrir novos mundos e a encobrir outros. Sigo para a Tabacaria Brasileira, freqüentada nos anos 20 pelo próprio Fernando Pessoa. Uma mesa é dedicada à sua memória e uma sua estátua de bronze em tamanho natural lá se encontra, tomando café ao ar livre de uma mesinha, imune à passagem do tempo, e conservando aprisionados na fumaça dos muitos fumantes (afinal trata-se de um Café-Tabacaria) os poemas não escritos por quem melhor soube escrever a alma lusitana: “o português é capaz de tudo, logo que não exijam que o seja”.
Em uma noite amena de abril, caminho com meu amigo Rolf, vindo de Haifa e a caminho de Cabo Verde, para a Adega do Mesquita, no Bairro Alto, ali na rua Diário de Notícias. A cortesia é marca registrada dos portugueses tanto quanto o é o azeite de oliva ou o vinho do Porto. Acolhidos no ambiente sóbrio da Adega, uma jovem canta um fado comovedor e, alternando a emissão vocal entre notas longas e breves, passa-nos a sensação de um amor para sempre perdido. Um jovem surge no pequeno espaço destinado ao palco com uma capa negra sobre os ombros, e entoa a música que cresci ouvindo como sendo a legítima música portuguesa: “De quem eu gosto, nem às paredes confesso”. Ele interpreta com tamanha emoção que passo a ter a certeza de que jamais as paredes ouvirão o nome da amada. Logo em seguida, reconheço o belo “Coimbra dos choupais”, que de certa forma penso ter ouvido enquanto ainda criança de berço. Tomo as frases desse fado para viajar pelo estranho país da infância. E sinto saudade imensa de minha infância, porque alguém no palco improvisado acaba de cantar “e aprende-se a dizer saudade”. Depois duas mulheres, uma bem mais jovem que a outra, alternam-se na interpretação de um fado. Fazem um belo espetáculo em que as emoções liberam um potencial dramático que sequer havia imaginado poder ouvir. Estou com o coração em prantos e tenho na boca o sabor de Portugal: bacalhau à Gomes de Sá, temperado com trágicas histórias de amor nos ouvidos. A solidão e o amor não correspondido parecem recorrentes nos demais fados que meu ouvido começa a distinguir e… apreciar.
Apaixonado por livros, duas ou três vezes no espaço de 72 horas vejo-me tomando um táxi com destino à Livraria Bertrand ou à grande FNAC, no shopping Colombo, que fica defronte ao Estádio do Benfica. Diz-me o motorista que é o maior estádio de futebol da Península Ibérica e o segundo maior da Europa. Aproveita para dizer que o Colombo é o maior shopping-center da Europa e, tomando gosto pelos recordes portugueses, fala-me que a nova ponte de Lisboa tem 22 quilômetros de extensão e que nela um automóvel atinge 100 km/h sem forçar o motor. Não esquece de mencionar que Portugal tem dois tempos: antes e depois da Exposição Universal de 1998, a Expo98. O que resta dela, meio ano depois? Ah, um Oceanário gigantesco, este, com certeza, o maior do mundo. Nessa corrida de táxi de pouco mais de cinco minutos, identifico a origem do gosto brasileiro pelos superlativos.
Adquiro um CD com a bela música de Dulce Pontes. Essa cantora de 27 anos de idade é um prodígio. Sua voz é terna e comovedora e, quando canta Canção do mar, concede sentido ao ato de cantar. Esta canção é das coisas mais belas que ouvidos humanos poderiam ouvir. Espanta males e atrai como um imã os melhores sentimentos e as mais delicadas emoções. Adquiro um disco compacto do Trovante. Foi uma banda de meados dos anos 80 que redescobriu Portugal às suas novas gerações. A canção Deixa lá é a sinceridade em forma de música, de harmonia. Adquiro o CD Existir, do Madredeus. Que arte bela! É música suave e densa, entrecortada por harmonias feitas com naipes de cordas açoitadas pela voz de Teresa Salgado. As prateleiras expõem dezenas de discos de Amália Rodrigues. Pelas capas, vemos o surgir, o desabrochar, o ocaso dessa intérprete maior dos amores lusitanos.
Não posso sair do Colombo sem antes provar da doceria portuguesa. Em um pequeno nicho do Sopa de Pedra, aproveito para saborear três sobremesas: travesseiro-da-periquita, toucinho-do-céu e barriga-de-freira. Os nomes remontam aos muitos conventos e mosteiros católicos que permeiam a história de Portugal. Em todos, ovos, muitos ovos. Colesterol, muito colesterol. Mas esses nomes parecem acrescentar um pouco de sabor a cada um deles e ali mesmo já começo a planejar um regresso a Portugal. O intuito prece claro: voltar a comer uma barriga-de-freira. A garçonete, que por sinal é a dona do estabelecimento, reconhece-me como brasileiro e começamos a conversar. Recordo-a dizer que “Lisboa é a cidade mais linda do mundo”. Ao perguntar “Por quê?”, ela responde-me sem hesitação: “Porque tem muita luz, luz demais, uma luz que nenhuma cidade do mundo tem”. Dito isso, não tenho nem o que argumentar, a favor ou contra. E quando já estou na rua tomando outro táxi, coloco logo os óculos escuros. É, Lisboa é atraída pela luz!
Vamos ao antigo cais do porto de Lisboa. Os armazéns foram transformados em bares e restaurantes e há música em toda a parte. É reconfortante ver os navios deixando no Tejo um rastro de espuma. A brisa que sopra é muito bem-vinda. Descubro que estar em Lisboa é como estar dentro de um grande navio, afastando-se da terra, singrando mares, aproximando-se de lugares imaginários, mergulhando no nevoeiro de um passado cheio de aventuras e desventuras, de emoções as mais variadas, mas mergulhando sempre no passado.

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