Em 1993, estou em Palma de Mallorca. Jamil e Freddie me levam para conhecer seus amigos ciganos. O patriarca, carinhosamente chamado de “Abuelo”, está sentado em uma imponente cadeira, um tanto gasta pelo tempo e pelo uso, no quintal de sua imensa casa. Uma fogueira arde na noite fria de Mallorca. Ele me recebe como a um filho, conta-me fatos pitorescos da vida do povo cigano, fala-me do padrão de conduta moral que ele continuava a transmitir aos mais jovens do clã. E desabafa sobre o mal-estar de ser visto de maneira desfavorável, quando não abertamente agressiva, por grande parte da população da Espanha. Ele me diz que, quando morresse, gostaria de ser enterrado de pé. “De pé, Abuelo? Por quê?” Ele me diz com calma, tendo o fogo nos olhos escuros: “Sim, de pé. Passei a vida de joelhos. Quero seguir eternidade afora, com a dignidade do homem que fica de pé”. Difícil conter a emoção. Em poucas frases, estava selado um novo pacto em minha vida. O mesmo pacto que um dia selara com os povos indígenas, com os negros. Agora se iniciava mais um: com os povos ciganos.

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