Andar pelas ruas de muitas das cidades brasileiras é um convite direto e ostensivo à reflexão sobre a condição humana. Em algumas calçadas encontramos mães, com seus filhos pequenos, estendendo a mão em busca de um auxílio. Em outras, deficientes físicos, expondo suas chagas abertas aos passantes.
Quantas vezes esse quadro tem me abatido o ânimo! Lembro de minha visita a Nova Déli, em dezembro de 1987. Caminhar pela Jam Path Road, uma das principais avenidas, com largura suficiente para que cerca de quinze scooters (carros com três rodas) pudessem manobrar simultaneamente era uma aventura somente inferior à grande aventura que é sobreviver na Índia. Filas quilométricas de indianos em seus tradicionais trajes brancos para os homens e vermelho vivo, para as mulheres, formam um cenário exótico e perturbador. Um mar de gente: ondas sincronizadas de braços, pernas e cabeças em movimento. Uma sensação pesada de solidão. Estava só em meio a milhares de pessoas atravessando uma rua. Era uma rua do planeta Índia e em mim toda a solidão do mundo paradoxalmente se fazia presente. Algo que me chamava a atenção: em Nova Déli, é crime pedir esmola. Infringiu a lei, vai para a cadeia, e a fiscalização era tão presente quanto ausente era o policiamento do trânsito. Assim, puçás vezes se ouvia alguém pedir, quase sussurrando: “Uma rúpia por favor”.
À noite, enfrentando um frio de 12 a 14 graus centígrados, podia-se deparar com uma multidão de pessoas deitadas, lado a lado; uma fila indiana de adormecidos. Eles buscavam aquecer-se no calor dos corpos inertes. Esse calor substituía os nossos cobertores tabacow ou parahyba. Essa realidade me pesava na consciência. Triste, muito triste, a condição humana. As palavras de John Donne sobre os sinos que dobravam “por mim e por você” adquiriam um novo sentido. O sentido da realidade.
Deixo a capital da Índia de lado e penso no nordeste brasileiro. A pobreza, no nosso caso, é bastante diferenciada. Não seria exagero afirmar que nossos “mais pobres” equivalem à “classe média” indiana.
Mas, sem buscar a inspiração indiana, sem tornar crime o ato de pedir aos passantes uma esmola, que em grande parte é fruto da má-distribuição de renda que aflige o país há muitas décadas – sobressai um questionamento: não existiria uma solução para ajudar os necessitados, aqueles que passam fome nas ruas, expondo suas chagas como alegorias ante a (in)sensibilidade pública? Lembro-me de uma frase do sábio persa Bahá’u’lláh (1817-1892), que, em meados do século passado, afirmara: “o conhecimento é um ponto, os ignorantes o multiplicaram”. Muitas vezes as soluções são simples, objetivas, factíveis, viáveis.
Acontece que temos a tendência de, ao tentar escrever uma linha reta, primeiro desejar um círculo, e depois esticando um lado e o outro, chegar à tal linha reta pretendida.
Nesse contexto, pensei em algo simples. Vejamos: poderia existir uma fundação de assistência social, seja nova ou a adaptação de alguma instituição já existente, cujo único objetivo seria oferecer trabalho, abrigo e alimentação sob controle, aos que se alojam.
Seria uma forma de ajudar os que realmente precisam e desejam ser ajudados, diferenciando-os daqueles outros que, como manipuladores, expõem suas misérias como forma de legítima de auferir rendimentos.
O que não falta no Brasil é trabalho para ocupar essa multidão que faz ponto nas esquinas, praças e ruas, pessoas muitas vezes bem dispostas, coradas, até sorridentes em muitos casos. Pintar meio-fios de ruas, podar árvores, regar canteiros públicos, capinar terrenos baldios, varrer as ruas… Esses serviços podem ser prestados por qualquer pessoa bem-intencionada, se bem orientada. A remuneração seria a alimentação e, quem sabe, o alojamento transitório, até que se encontrasse uma forma razoável de suspender a mera ação assistencialista.
Falar na Índia sem mencionar seu poeta maior, Rabindranath Tagore, seria de todo imperdoável. Por isso, cito os versos em que o poeta condena a natureza egoística do homem, que, na longa estrada da vida, muitas vezes está desatento àqueles que lhe estendem as mãos:

“Perdi minha última gota de orvalho!
Exclamava a flor ao céu do amanhecer
Que acabara de perder todas as suas estrelas”.

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