O frio, para quem é planta aclimatada em lugares de clima quente, como o Rio de Janeiro ou Natal, Cuiabá ou Manaus, é sempre um companheiro de viagens do tipo estraga prazer, prorroga programa, extingue ânimo, transforma entusiasmo em sonolência. Lembro do frio que senti na Estação de Wiesbaden e de como resolvi seguir para Londres. Foi lá que descobri que a pior solidão se sente no meio da multidão. Pensei então nas palavras de Samuel Johnson: “quando alguém está cansado de Londres, está cansado da vida, pois em Londres encontra-se tudo o que a vida pode oferecer”. O mesmo frio voltou a me açoitar em Chicago, pouco antes de me dirigir àquele belo templo bahá’í em Wilmette. O frio cortante de Copenhague dispensa qualquer comentário… ou termômetro. O frio na estação do metrô que leva de Frankfurt a Bishopsheim e a súbita queda de temperatura em Zurique são recordações de como a natureza influencia a vida humana. Em Londres, tinha como compromisso tomar um metrô que me levasse à Estação de Arnos Grove. Ia visitar um amigo de muita gente pelo mundo afora: o pensador Shoghi Effendi. Mas, ora, ele falecera em novembro de 1957 e estávamos em maio de 1983. Obviamente o lugar era o Northern Cemetery. Já conhecia o belo monumento que havia sido erguido em sua memória em fins da década de 50. era uma coluna encimada por um globo terrestre, onde se acha pousada uma vistosa águia dourada de asas abertas, pronta para levantar vôo. A águia tem suas presas sobre o mapa da África. É uma homenagem de Shoghi Effendi ao continente que ele tanto havia amado e sobre o qual havia escrito tantas cartas falando da potencialidade dos povos africanos. Foi esse personagem que me motivou a dedicar um tempo de minha vida em serviço aos índios da tribo Kiriri. A temperatura era de 9 graus negativos dentro do cemitério. Uma solidão literalmente sepulcral. Apenas consegui distinguir uma senhora envolta em vários casacos, usando um ancinho para limpar a sepultura. Caminhei com certa dificuldade, tomado pela emoção de que estava prestes a render um tributo (solitário, é verdade), mas um tributo de amor a esse escritor magistral e pensador original. Saberia reconhecer seu lugar de descanso? Como seria a águia, que inclusive já havia pousado em meus sonhos de adolescente? Alguns minutos mais de passo lentos, coração acelerado, olhos enevoados buscando acostumar-se ao cinza daquela manhã de Londres, eis-la: a águia tem um raio de sol no encontro das asas. Foi um momento de grande emoção e de lágrimas abundantes. Tomo coragem e me acerco de seu túmulo. Leio cada palavra inscrita na coluna com grande dificuldade, a emoção apenas aumenta. Busco um pequeno livro de orações e ali, ajoelhado, abro em uma página qualquer. As palavras são: “Inúmeras vezes ó meu Deus, um coração enregelado veio a flamejar com o foto do Teu amor…” E assim, menos de uma página de texto parece levar uma eternidade para ser lida. O coração está inconsciente do frio. Existe um vulcão em erupção dentro de minh’alma. E essa experiência mudou minha vida.

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