Em 1998, estou em uma imensa fila na embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. Preciso de um visto com urgência, pois tenho um seminário sobre finanças a ocorrer em Evanston, próximo a Chicago.olho ao meu redor e penso que existem umas vinte pessoas na minha frente e pelo menos umas cem depois de mim. A senhora que está imediatamente a minha frente é chamada. Vinte minutos depois, veja-o retornando com lágrimas nos olhos. Vou ampará-la. Ela me diz que é segunda vez nos últimos oito meses em que lhe é negado um visto de entrada para os Estados Unidos. Tem saudades da filha, do genro, dos netos. Residem em Miami. Chega a minha vez. Um sujeito cordial me dá as boas-vindas. Faz as perguntas de praxe: É a primeira vez que vai ao EUA? O que vai fazer lá? O que faz aqui? Respondo tudo com tranqüilidade. Mas não estou tranqüilo. Meu passaporte tem carimbos demais. Dois dos carimbos me preocupam. Os dois denunciam que estive há menos de dois anos em Havana. A estampa do “Aeropuerto José Martí” parece ter a tinta ainda fresca. O sujeito parece ter renunciado àquele clima inicial de cordialidade e me pergunta, como se dirigisse um torpedo, olhando firme em meus olhos: “O senhor esteve em Cuba? Foi fazer o que em Havana?” Respondo que fui convidado para representar o Brasil em uma Feira Internacional do Livro. Informo que tenho seis livros publicados em castelhano, na Argentina, na Espanha e no México. Ele me olha um pouco desconfiado e depois volta ao ataque: “Vejo que em 1997 o senhor voltou a Cuba… não é um pequeno esse intervalo?”. Respondo que não. Ele me olha, volta a abrir as primeiras páginas no passaporte. Revê minha foto. Isso me incomoda um bocado. É muito desagradável se sentir objeto de desconfiança. Parece que, finalmente, não lhe caio bem. Em um impulso, encaro o funcionário e lhe digo com firmeza: “Uma situação estranha essa que estamos vivendo agora. Acredito, e escrevo isso em meus livros, que a Terra é um só país e que nós somos cidadãos desse país. Ao desembarcar pela primeira vez, em 1996, em Havana, o funcionário que iria carimbar meu visto de entrada em Cuba, parou um instante, olhou-me e, abrindo um sorriso, disse-me em tom camarada: ‘O que o senhor, com um nome desses, vem fazer na Ilha de Cuba?’. Ao dizer isso, para minha surpresa, o funcionário norte-americano sorri para mim e diz, amistoso: “Seu nome é Washington?! O senhor acabou de ganhar um visto com validade para os próximos dez anos!”.

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