Tenho 23 anos e estou em Pompéia, que entre o que está submerso e o que aflora à superfície conta com cerca de 2.600 anos. Esta antiga cidade italiana está situada na Campânia, ao sul do Vesúvio, e foi fundada por volta de 600 a.C. pelos oscos (povos sabélicos que vivam nos Montes Aperinos), tornando-se colônia romana em 80 a.C. Era o local de recreação preferido dos romanos abastados, quando foi inteiramente sepultada por um erupção do Vesúvio, em 79 d.C.
Ela foi o que Havana era para os norte-americanos, nos idos de 1950, o que Cancun é para os sul-americanos e o que Montecarlo continua a ser para a burguesia decadente da Europa do século XX. Pompéia existe pelo que não existe. Durante mais de quinze séculos ou, para dramatizar mais, de um milênio e meio, Pompéia permaneceu sob uma grossa camada de cinzas vulcânicas. E o milagre aconteceu: essas cinzas conservaram de maneira surpreendente muitas estruturas públicas, incluindo-se aí templos, teatros, termas, lojas comerciais e casas particulares, de grande importância para o estudo da arquitetura. Sua triste sina foi compartilhada com outras duas cidades, Herculano e Stabiae, igualmente soterradas pela ira do Vesúvio em 24 e agosto do ano 79 d.C. Esta erupção teve como testemunha a ensolarada e sempre simpática cidade de Nápoles. Outras erupções ocorreram em 1794, quando foi destruída a cidade Torre Del Greco e, em abril de 1906, outra violenta erupção causou a morte de duas mil pessoas.
O mais antigo anfiteatro conhecido é o de Pompéia (75 a.C.) e suas ruínas deixam antever quantos espetáculos aquelas pedras testemunharam. Um tempo marcado de tragédias, uma história épica sob todos os ângulos. A história de Pompéia está entrelaçada com a de Roma, a Cidade Eterna. As cidades romanas fossem grandes ou pequenas, tiveram termas ou banhos públicos. As termas (75 a.C.) próximas do foro de Pompéia são um excelente exemplo de seus modelos mais antigos.
Enquanto me movimento entre dezenas de turistas japoneses sorridentes que incansavelmente continuam focando algum ângulo novo da cidade de Pompéia, nesta manhã de abril de 1983, penso na força que os elementos da natureza têm quando têm que ter. os vulcões ruminam décadas e séculos e depois vomitam fogo e destruição à sua volta. Não é à toa que a mitologia registra tantas histórias de sacrifícios de animais e de seres humanos visando a aplacar ira dos vulcões. Agora, observo um céu tão azul que é impossível imaginar outro mais azul que este. Parece certo afirmar que se o céu tem uma pátria, essa pátria é a Itália, e se o céu, qual uma pessoa, teve uma infância, essa foi passada ali entre Nápoles e Pompéia.
As ruínas da velha cidade trazem consigo, após tantos séculos decorridos, todo um resplendor. A delicadeza das pinturas, o traçado das construções, os rodapés; em cada sala um senso de proporções adequado. Próximo aos ambientes para refeições, um espaço especialmente designado para o vomitório. Isso mesmo, o vomitório: dois grandes potes de barro para que os comensais, com dedos na garganta, devolvessem os alimentos recém-digeridos. Uma vez feito isso, retornavam à mesa para saciar novamente a fome artificialmente criada. Um povo que em determinada época da história criou os apetrechos apropriados ao pecado capital da gula. Os lugares mais freqüentados pelos turistas são aqueles que mostram nas paredes famosas figuras eróticas de Pompéia. São homens com pênis de metro e meio, outros colocando-os sobre a balança para aferir seu peso. Em alguns dos quartos, gravuras encimam as portas com imagens extraídas de algum Kama Sutra romano. O guia, muito à vontade, explica que determinadas habitações eram parte do prostíbulo da cidade e que seus freqüentadores eram na maioria das vezes escravos vindos da Judéia que não sabiam a língua local, daí a necessidade de imagens dizendo a especialidade das mulheres de determinada casa ou de determinado quarto da casa. Os jovens não se cansam de fotografar essas figuras que, por sinal, parecem ter vencido o desafio dos séculos com honra ao mérito: estão muito bem conservadas.
Podemos observar o corpo carbonizado de uma mulher gestante. É uma cena patética. A fonte da vida e o sinal da nova vida soterradas pelas lavas do Vesúvio em erupção. Cerram-se os olhos e se oferece uma oração a Deus que a todos criou e se suplica que conceda Suas bênçãos àquela mulher, eternamente em exposição, com o que lhe restou do corpo físico. O guia explica que outros corpos estão em museus espalhados pelas cidades principais da Itália e em algumas outras da Europa. Noutra sala de uma casa, encontramos o cadáver carbonizado de um cachorro. Mas o ponto alto é o belo anfiteatro, muito espaçoso, localizado em uma área nobre da cidade. Nele parece continuar a encenação de repetidas comédias, algumas outras tragédias, mas em todas informando o que significa pertencer à espécie humana. O riso e a lágrima expostos ao ar livre para consumo imediato dos passantes. A condição humana que foi soterrada em Pompéia parece a mesma que escorre para o terceiro milênio, deixando seu rastro de guerras no ar. Em 1996, antes de Kosovo, existiam 35 conflitos armados no mundo. Isso mostra que o homem é ainda a maior ameaça à sua própria sobrevivência. Com Vesúvio ou sem Vesúvio, continuam sendo soterradas cidades, interrompidas vidas. Se vida ainda houver no planeta daqui a 1.500 anos, algum grupo de turistas estará perguntando como detonaram uma cidade como Paris ou como fizeram voar pelos ares uma metrópole como o Rio de Janeiro. Os guias estarão bem pouco à vontade para explicar que bombas caíram, em massa, do céu. Que ali existiu uma bela catedral, chamada “Da Sé” e que logo ali uma construção com a mão aberta em concreto foi um certo Memorial da América Latina. Se não cuidarmos, nossa sina será aquilo que o passado nos reserva.
Volto a tomar um barco de Pompéia para Nápoles. Alguns excertos de Ascensão e Queda do Império Romano, de Gibbon, afloram em minha mente. Poderia ter ido a Capri, tão perto e tão bem-afamada. Ou poderia ter me detido mais tempo em Roma, voltando à Fontana di Trevi, ou buscando a guia de Santa Maria La Maggiore. Mas era o tempo de estar em Pompéia e ver como tudo é efêmero, passageiro, parecendo ter raízes fincadas no azul do céu, que a tudo acolhe, protege, ampara. Retorno de Pompéia com cerca de 2.600 anos de pura memória. Visitar Pompéia foi, sobretudo, uma iniciativa interessante. Mostrou-me, por um lado, a engenhosidade humana ao produzir cidades confortáveis, ao criar conceitos de lazer, ao construir uma arquitetura que não violenta a paisagem e até pode consolar os olhos. E, por outro lado, mostrou-me que, apesar das toneladas de cinzas que encobriram a cidade nas brumas do esquecimento, ainda existe, palpitando, o espírito de uma cidade e de um tempo.

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