Viajei por quase quatro dezenas de países de todos os continentes. Encontrei pessoas tão distintas e interessantes, com tantas afinidades comigo, que, quando vejo um nome como Florença ou Abu Dhabi, tenho sempre um rosto em particular na mente.
O que sempre desejei na vida foi descobrir a vida na geografia dos povos. E isso aconteceu comigo. No entra e sai de um vôo, em uma viagem no trem-bala, flutuando sobre uma gôndola ou no lombo de um camelo, a melhor provisão para minha viagem foi a convicção de que participo de uma mesma espécie, a espécie humana, e creio com ardor quase religioso que encontramos na vida (e no mundo), apenas aquilo que buscamos.
Encontrei amigos em lugares tão longínquos como o Cairo e Teotihuacan. Aprendi a admirar o dialeto vêneto da Toscana com o mesmo interesse dedicado àquele alemão falado em Liechtenstein, ao russo falado em Haifa e ao português falado em Castelo de Alvear.
Saboreei comida única: de uma paella valenciana a um felafel israelense. Fiz refeições no Mac Abdulláh, de Nova Déli; no Mac David, de Tel Avid; no MacDonald’s de Zurique. No velho Castelo de Peruggia, saboreei o mais fantástico Spaghetti a La Carbonara de que tenho me servido. Em um pub londrino, desfrutei de um bom ensopado de batatas e algum tipo de carne que, embora saborosa, não consigo discernir do que era.
Vivi momentos inesquecíveis, como aquela paisagem do Taj Mahal, em Agra, ao anoitecer, tendo uma lua imensa entre suas torres, banhando de prata um mármore já por demais prateado, e a montanha do Carmelo, em Haifa, com sua bela cúpula dourada brilhando de dentro da montanha.
Momentos cheios de fragilidade, como o de estar de braços abertos invocando o Sagrado do alto da Pirâmide da Lua, a apenas alguns quilômetros da Cidade do México, mas há mais de 500 anos de hoje. Momentos indescritíveis como o de se sentir a menos de metro e meio da Pietá de Michelangelo.
Estive molhando os pés ou acariciando com as mãos as águas do Nilo, do Sena, do Arno, do Reno, do Tejo. As águas que neles corriam levavam histórias de povos e civilizações – alguns já desaparecidos – e avançavam para o futuro, inspirando, como sempre, tanto os poetas como os casais enamorados.
Inúmeras vezes parei no meio de uma estação sem saber em que cidade estava; em outras, tinha de decidir qual a direção ideal para me sentir… perdido. Em algumas cidades, cheguei sem ter ninguém a me esperar e a única voz humana a soar na sombra era a de um comissário de vôo ou a de um ajudante de maquinista. Em outras cidades, fui recebido com a amistosa alegria de quem não nos vê há tempos, com flores, presentes, muitos abraços e beijos.
Com essas viagens emoldurando a memória de tantas situações, vejo-me sobrecarregado de casacos pesados para enfrentar a neve da Suíça e também suando “em bicas” sobre um camelo, atravessando a escaldante areia egípcia; caminhando “enviesado” em Copenhague, porque o vento poderia me partir em dois se ousasse encará-lo de frente.
Recordo de caminhadas à noite por lugarejos como Bishopheim, próximo a Frankfurt, sob uma temperatura capaz de congelar idéias e ossos, e também lembro de estar caminhando por Córdoba, na Espanha, admirando o rastro deixado pelo Islã em sua passagem pela Ibéria.
Museus? Foram muitos. Alguns quadros me deixaram hipnotizado, como aquela paisagem de Renoir e o Cristo esverdeado de El Greco. De outros somente me acerquei após longas horas de caminhada pelo Louvre e, assim, com olhos mais que exaustos, ainda tentei sorrir para a Mona Lisa e ela, sempre enigmática, devolveu-me o mistério. Melhor sorte tive ao admirar a beleza da Vênus de Milo. Outros museus tratavam de utopias, de lutas contra injustiça: Camilo Cienfuegos e Che Guevara e seus cavalos, devidamente refeitos em cera e expostos no Museu da Revolução, no centro de Habana Vieja, em Cuba.
Estive com os ciganos em Zaragoza, na Espanha, e com os sobreviventes indígenas de Tehuantepec, no México. Encontrei uma dezena de reitores de universidades, uma centena de jornalistas e uma dúzia de governantes municipais e estaduais de uma dezena de países.
Por um bom tempo, estive ajoelhado no interior da imponente Capela Sistina, no coração do Vaticano. Prostado estive no interior sagrado de uma mesquita no Cairo. Orei, com um solidéu protegendo a nuca, no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Meditei, com o coração em prantos, no belo Templo de Lótus em Nova Déli. Senti o chão desaparecer sob meus pés quando ingressei em um reconfortante recinto da Mansão de Bahjí.
Apreciei o aroma da primavera em flor dos jardins de Paris, as tulipas escandalosamente belas de Veneza, os lírios alvíssimos de Lisboa, a simetria das rosas explodindo em incansáveis e não repetidos matizes e cores nas cercanias de Haifa, os pinheiros em Roshahr, na Suíça, exalando um surpreendente aroma.
Dezenas de vezes adormeci com um livro nas mãos em bibliotecas de Sevilha e de Roma, de Frankfurt e de Chicago, de Braga e de Paris. As livrarias me atraíram em quase todas as cidades. Sempre fui presa fácil dos que controlam o peso das bagagens a transportar, principalmente quando tais controles eram feitos nos aeroportos!
Subi com uma curiosidade à flor da pele em lugares tão altos como a Torre Eiffel, a imponente montanha de Masada, a Estátua da Liberdade, o Empire State, o Monte Albán, em Oaxaca, e o miranete de uma espetacular mesquita na capital egípcia.
Senti-me perdido em meio às multidões da Velha Déli, aos bazares barulhentos da velha Jerusalém, no interior de uma pirâmide no Cairo, onde se desce a perder de vista. E também me senti aconchegado nas praias de Ibiza, em Mallorca, em Cancun, no México, em Varadero, próximo a Havana.
É, encontrei em todos os lugares a minha turma. Eram jovens e idosos, eram crianças também. Para cada pessoa mal-humorada que encontrei nessas viagens, pelo menos umas 99 eram sorridentes e acolhedoras.

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