Estava na estação de trem de Wiesbaden. Abril na Alemanha é muito diferente de abril em Israel. Na Alemanha é um frio que escorre pela alma e deságua em um senso de desamparo imenso. Em Israel é aquele clima ameno, as flores enchendo o ar de ovos aromas, aquela sensação de que Deus acaba de despertar e nos deseja um ótimo dia. Naquela manhã em Wesbaden, vi que tinha de continuar viagem sozinho: meu quase amigo de infância, que havia vindo comigo do Brasil, seguiria para Idar Obershtein a negócios. Tinha então que escolher: ficar em Wiesbaden ou perambular por outras paragens da Europa. Ainda fiquei alguns minutos na estação observando essa capacidade tão alemã de sistematizar o tempo. Cada trem parte em horários como 8:57 ou 9:11 e não é incomum observar passageiros checando seus relógios de pulso para ver se o trem chegou na hora, no momento exato em que percebemos aquela lufada de ar antecedendo o trem. Decidi ir para Paris e ao meio-dia já estava no Trocadero, observando uma paisagem fervilhante de jovens com patins, em alegre “revoada” pelo passeio público. O clima era apenas menos pesado que o da Alemanha, principalmente depois do que ocorreu no trem que me levaria ao aeroporto. Minha mala soltou-se da mão e só parou quando encontrou as pernas de uma senhora idosa que, ante o impacto, deixou seu volumoso livro cair. Ela me olhou com olhar de pouca amizade e desatou a gritar comigo… em alemão. Tentei me desculpar em inglês e quanto mais me esforçava, mais a anciã lançava suas imprecações na língua de Heine. O pior é que Lea tinha razão, a mala não deveria ter se soltado e aqueles minutos de catarse poderiam ter sido evitados. Os demais passageiros calados estavam e calados permaneceram. Havia uma conspiração de silêncio em andamento. Foi ali que entendi melhor o que significam vocábulos como xenofobia, discriminação étnica ou coisa que o valha. No dia anterior, havia tentado comprar um remédio para dor de cabeça em uma farmácia no centro da cidade e o atendente demonstrou entender perfeitamente o que eu queria em inglês, mas era generoso em me responder apenas em alemão. E o dia começou naquela estação de Wiesbaden. Iradj havia tomado outro trem.

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado