A princípio, parece uma visão do nosso Nordeste. Um clima quente e seco, céu azul e uma leve brisa que vem do Mediterrâneo. A terra está mais para areia. Após um vôo de mais de 14 horas, parecia estar visitando algum município do sertão do Rio Grande do Norte. No entanto, eu pisava em Tel-Aviv. Para a História, seu berço natural. Par Amim, a magia de retornar àquela que é referida em todos os idiomas, inclusive o árabe (por razões sinuosas, é verdade), como sendo a Terra Santa.
A segurança do Estado de Israel é reforçada. Se o viajante conseguir passar pelo aeroporto Bem-Gurion, pode ficar tranqüilo e se sentir apto a transpor qualquer barreira alfandegária, em qualquer país do mundo. Geralmente três jovens, de 17 a 20 anos, revezam-se em formular as mesmas perguntas: “Você traz algum envelope, algum presente para alguém que resida em Israel? Em que situação você abriu as malas pela última vez? Alguém suspeito demonstrou interesse por sua bagagem?”. Ao final do interrogatório, um pedido de desculpas pelos transtornos causados e a explicação de que Israel é alvo de muitos atentados, por motivos desde há muito conhecidos.
Após essa primeira abordagem em terra israelense, as bagagens são revistadas meticulosamente. Eles não se desviam de suas questões e são simpáticos quando demonstramos não entender alguma pergunta. É um país jovem e feito por jovens que foram talhados para amar e defender seu país. Pensei comigo que assim eles forjavam os futuros Goldas Meirs e Moshes Dayans. A um tempo, lembram personagens de Leon Uris, Ari e Barak Ben Canaã. Estão decididos a cumprir com suas responsabilidades, acima de qualquer outra inconveniência.
A primeira impressão é a de se estar adentrando, por algum descuido óbvio, em um vilarejo bíblico. Clima quente e seco, povo queimado de sol. Estava familiarizado, ou melhor, aclimatado.
Fui tomado por uma profunda reflexão e recordei a ira sanguinária de Herodes, para assassinar as crianças recém-nascidas; as reuniões dos primeiros cristãos, perseguidos, nas catacumbas, para louvar o Filho de Deus; e este, trinta anos depois, a reunir pescadores simples e humildes como Pedro, confiando-lhes a missão de serem “pescadores de homens e de almas”. Deparei-me com o heroísmo dos judeus rebelados no alto da fortaleza de Massada, dispostos a cometer suicídio a fim de preservar sua liberdade como povo e nação; vi ante meus olhos o avanço dos Cruzados, sob a ordem de Carlos Magno, a converter com ferro e fogo os novos cristãos e a tomar a Terra Santa dos muçulmanos; e, atravessando séculos, senti o desespero dos passageiros do Êxodo, sem água e sem alimentos, recusando-se a retornar à Europa e deixando atrás de si seis milhões de irmãos de crença nos fornos crematórios de Treblinka, Jadwiga e Sobibor. Um povo disperso, os judeus deixam correr nas veias os sonhos com a ERetz Israel, ou seja, a Terra Sagrada – que por direito natural lhes pertencia, desde um tempo que não tem princípio. A sua luta é por sua própria razão de viver.
Em um tempo, a enfrentar milhares de legionários romanos, a saquear e a buscar seu extermínio quase completo; e, em outro, com alguns séculos de distância, a se defender de mísseis lançados em Bagdá. Uma ilha sagrada em meio a um oceano de nações hostis. No meio, um povo querendo preservar seu direito à vida. Uma vida que resguarda relíquias de um passado imemorial, mas como uma chama que se ateou em algum lugar de seus sentimentos mais profundos.
Épico, Israel comporta este adjetivo como nenhuma outra nação que visitei. Fizeram florescer o deserto. Com o sangue, o suor e as lágrimas invocados por Churchill durante a Grande Guerra.
Uma voz que vem do rádio de nosso sherut (táxi coletivo) me é familiar. É a voz do velho Luiz “Lua” Gonzaga, cantando as penúrias de sua infância no Nordeste, com um refrão chamado Januário. Mais emocionante ainda é constatar os laços de amizade que unem o povo israelense aos brasileiros. Fui, em diversas ocasiões, testemunha da solidez desses laços.
Entender os paradoxos de Israel, tanto o antigo como o novo, remete-nos a uma busca de compreensão do próprio sertanejo nordestino. Aqui, luta-se pela sobrevivência em meio a tantos recursos naturais. Lá, luta-se pela existência, pura e simples, de uma maneira de viver, o famoso way of life, que do exacerbado consumismo americano não guarda vestígios.
Uma metrópole pequena, Tel-Aviv combina passado, presente e futuro. Edifícios modernos estão ladeados por igrejas, sinagogas e mesquitas centenárias. Em paz, todas absorvem o mesmo contato com o divino. Ali, a latitude espiritual parece ser a mesma. O mesmo Deus nutre a todos. É ver para conferir.
Haifa, uma de suas principais cidades e o maior porto marítimo do país, é um solene convite para caminhar pelos jardins persas, visitar os santuários bahá’ís encravados no legendário Monte Carmelo, bem perto da caverna de Elias.
Em Jerusalém, a majestade de um tempo passado, como título de um filme épico – cidade de uma glória que passou. Ruas apinhadas de judeus, cristãos, muçulmanos, bahá’ís, turistas de todos os matizes, circundando aquele estreito conjunto de pequenas ruas e becos chamado de Via Crucis. Para uns, uma emoção nova a cada esquina. Para outros, oportunidade de adquirir bijuterias orientais, tapetes persas verdadeiros e falsificados, samovares, souvenirs da cidade de Salomão a encher a vista.
Uma babel nasceu e se reproduziu celeremente em Israel. Todas as línguas, parece-me, são faladas, formando um belo painel da lingüística, eterna fonte de comunicação e de mal-entendidos através dos tempos. Como diria Átila aos seus hunos: “as palavras são folhas soltas ao vento”. É isso o que ocorre. Todos falam e parecem se entender, mas fica sempre a pergunta, estarão se compreendendo?
Na igreja do Santo Sepulcro, as várias ordens religiosas revezam-se em missas, que seguem os mais variados ritos. Padres, frades e freiras, túnicas brancas, pretas e marrons entram e saem por aqui… Ah, aqui, alguém me informa que é a pedra onde o corpo de Cristo teria sido lavado, após ser retirado da cruz.
Um desconhecido, de forma reverente, oferece-me (para comprar) pequenos vidrinhos com água do rio Jordão, aquele mesmo rio onde o Salvador foi batizado por João, o Batista. E à sua porta, um velho frade, simpático, oferece-me (também para comprar) pequenos crucifixos de madeira. Aquela madeira, ele me explica, é originária daquela usada na pesada cruz que, há dois mil anos atrás, tanta luz lançou à humanidade.
Para uma quarta visita a Israel, comporto-me como marinheiro de primeira viagem. Tudo é novidade quando o espírito está sequioso de algo transcendente.
Tenho vontade de me recostar em algum canto e refletir um pouco sobre a triste condição humana; nossas lutas por um palmo de terra; nossos preconceitos infantis contras outras nações; nossas reservas, infundadas, contra raças diferentes da nossa; nosso egoísmo, alimentado por uma profunda ignorância espiritual; nossa ridícula forma de ver o próximo, aquele sujeito que tem todos os nosso defeitos e vícios e nenhuma de nossas qualidades e virtudes.
Sigo para Jericó e passo em frente ao Monte das Tentações. Recordo das infindáveis missas a que assisti, quando adolescente, nos colégios em que estudei. A busca incontida de compreensão do propalado “pecado original”. Um monte como outro qualquer, mais modesto que a Serra do Cabugi, na BR que liga Natal a Assu; no entanto, um símbolo profundo ancorado na história da cristandade.
Retorno a Haifa. É o momento de escrever alguns cartões a Enélio, a Veríssimo, a Vicente, a Américo de Oliveira da Costa. Todos em Natal. Tenho necessidade de transpirar alguns sentimentos a alguns amigos queridos. Na Terra Santa, encontramos todo o tempo do mundo. Da mesma forma que, como escreveu um filósofo, “se o mar tem uma pátria, este lugar é a Grécia”, acredito que, se o tempo tem uma pátria, Israel é essa pátria.
Nos belos “Jardins Persas”, no Monte Carmelo, descubro a veracidade e as grandes possibilidade que uma frase encerra, uma frase que foi responsável por uma mudança radical em minha visão do mundo: “A terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos”. Depois falaremos disto.
E a mim, como caracteres gravados em crisólito, transporto a certeza de que a vida possui apenas três grandes prazeres: amar, ler e viajar.

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