Cheguei em Teotihuacan pouco antes do meio-dia. Era uma manhã de novembro de 1996. Vahid Mirafzali acompanhava-me gentilmente da Cidade do México até esta Cidade dos Deuses. A brisa que soprava sobre a vista de Teotihuacan trazia certo mistério, um mistério que se tornou mais denso após aquele 12 de outubro de 1492, quando o primeiro europeu começou o que chamou de conquista do paraíso. É aqui onde morrem os deuses, onde os homens se fazem deuses, o lugar onde se fazem os sinais. Teotihuacan, o lugar das seis sabedorias, o lugar das seis serpentes.
Visitar esta cidade sagrada de povos indígenas dizimados, condenados à longa noite do esquecimento a que lhes temos confinado, causou-me uma emoção profunda. Estava pisando pela primeira vez em minha vida em um lugar que atestava a genialidade e o avanço civilizatório dos povos maias e astecas. Confirmava-se aquela impressão que desde e Cúpula da Terra, a Eco 92, no Rio de Janeiro, encontrava ressonância em minha mente: não houve um descobrimento da América, mas, antes, um encobrimento da América. Como também não houve um encontro de dois mundos, mas sim um genocídio, resultado do confronto de um mundo melhor armado enfrentando um mundo aparentemente entregue ao Deus Vento. Como as sociedades pré-colombianas fizeram, o povo de Teotihuacan também viu os estrangeiros como deuses. Evidência disso são os escritos dos historiadores maias. Um desses textos, Los anales de los cackchiqueles, é claro ao afirmar: “Seus rostos eram estranhos, os senhores os tomaram por deuses. Nós mesmos, vosso pai, fomos vê-los quando entraram em Yximchée”.
Mas esses deuses logo desceram de seus pedestais. O povo de Teotihuacan foi feito escravo e a tristeza abateu o ânimo desse povo que viu as condenações lançadas sobre suas crenças espirituais. A seguir, registramos um dos juízos maias sobre a conquista, citada em Chilam Balam de Chumayel ou O Livro das linhagens:
“Então tudo era bom
e então os deuses foram abatidos
Havia neles sabedoria.
Não havia então pecado…
Não havia então enfermidade,
Não havia dor de ossos,
Não havia febre para eles,
Não havia varíolas…
Retamente ia seu corpo então
Não foi assim que fizeram os dzules (estrangeiros)
quando chegaram aqui.
Eles nos ensinaram o medo,
vieram fazer as flores murchar.
Para que sua flor vivesse,
danificaram e engoliram nossa flor”.
Quinhentos anos se passaram. Percebo como o escriba indígena estava certo. As duas últimas frases de seu testemunho parecem saltar de dentro de cada ruína de Teotihuacan: “Para que sua flor vivesse, danificaram e engoliram nossa flor”.
A flor que viveu é encontrada em cada bairro, em cada praça, em cada esquina do território mexicano: são as imponentes catedrais e igrejas venerando Nossa Senhora de Guadalupe, outros santos católicos ou até mesmo fazendo concessão ao jovem índio Juan Diego. A flor que ficou danificada, que foi engolida, estava alia ante meus olhos marejados: amplas extensões cheias de vazio, ruas outrora plenas de vida e histórias que eram caminhos de centenas de turistas, inconscientes, na maioria das vezes, de que um dia ali existiu um povo nobre, com visão de futuro e que sabia fazer a conexão com o Sagrado. O dano foi na alma. Engoliram o espírito da fé de toda uma nação, a nação indígena do México.
Na mitologia grega, temos o Monte Olimpo, onde os deuses reinam eternamente. Na mitologia nórdica, temos o Valhalla, onde os deuses decidem os destinos humanos e seguem sua hierarquia. Mas muitas poucas cidades são consideradas dignas de terem os deuses como seus habitantes. Estes estão mais familiarizados com os domínios celestiais que com os limites humanos. Teotihuacan está no seleto grupo das cidades que alcançaram uma posição de relevo mítico. Mas para que isso ocorresse, foram necessários cerca de dez séculos de civilização. Um milênio, pois estamos para entrar no terceiro da era cristã. Ainda hoje, podemos encontrar inumeráveis vestígios de uma civilização que passou. Mas passou com uma glória que resiste bravamente ao tempo. Com amplas avenidas que conduzem a praças e pirâmides que abrigam imagens primitivas e símbolos de um mundo espiritual já quase esquecido. Os que deveriam preservar, como guardiões, com um mandato divino, toda essa herança espiritual dos maias e dos astecas, perambulam pelas cidades e aldeias mexicanas maltratados como cidadãos de segunda ou terceira classe: estão desempregados, subnutridos, embriagados, não sabem ler nem escrever, mas, mesmo não tendo muito a seu favor, os sobreviventes indígenas do México (que não são muito diferentes dos outros povos indígenas da atualidade sul-americana) conseguiram um milagre: resistiram para contar sua história e conseguiram gerar outras vozes para repeti-la a outras gerações.
Logo que chegamos àquele lugar sagrado, duas imponentes pirâmides enchem nossos olhos. Uma é a da Lua; a outra, a do Sol. A grande Pirâmide da Lua fica próxima à imensa Pirâmide do Sol, mostrando a dualidade criadora da natureza e dos homens que levantaram-lhe os muros. Nisso está a importância dessas pirâmides, que, diferentemente das egípcias, têm escadas e se dividem em corpos horizontais para servir de plataforma a um templo. Esses níveis são, também, elementos simbólicos de outros mundos, à semelhança de uma montanha metafísica. Grande importância se dá à Pirâmide da Lua e à sua praça cerimonial, o chamado Palácio de Quetzalpapalotl, “a mariposa divina”, cuja imagem está gravada nas pilastras do pátio que se compõe de uma mariposa inscrita no corpo de um quetzal. (…) Este palácio pode ter sido a residência dos sacerdotes da Lua. Sua quadratura é a expressão de uma natureza dominada, do harmonioso e imutável. A Pirâmide da Lua mede 42 metros de altura e 18 mil metros quadrados de base. Neste caso, as escadas miram excepcionalmente o Sul e estão construídas em uma estrutura saliente, que não representa a Pirâmide do Sol.
A Pirâmide do Sol tem uma inclinação de 17º na direção do pólo terrestre, o Norte Magnético, o que permite que o sol coincida, no Zênite, com o centro da pirâmide nos dias 20 de maio e 18 de junho. Existem outras características astronômicas igualmente curiosas acerca dessa e de outras pirâmides mesoamericanas. Mas no caso de Teotihuacan, o conjunto de templos e edifícios cria um espaço magnífico que permite estabelecer vínculos esquecidos entre o homem e a natureza.
Assim como o sol e o vento dos espaços abertos impressionam e evocam o trabalho coletivo, nos edifícios civis, palácios, praças e mercados, ingressamos em um mundo mais rico e próximo. Especialmente os pátios propiciam a sensação de serenidade, como no caso daquele pertencente ao palácio de Quetzalpapálotl (ave-mariposa), com suas elas colunas. Esse palácio fica localizado na esquina sul da Praça da Lua. É um dos poucos edifícios que não era templo e foi reconstruído pelos arqueólogos. Destaca-se o pátio interior, cujos pilares encontram-se adornados com baixos-relevos. A maior parte mostra a figura de um animal mitológico chamado quetzal-mariposa, rodeado por símbolos aquáticos. Em outros, observa-se aves de frente com asas estendidas. Em algumas partes, ele conserva uma pintura mural.
Outro point de Teotihuacan é o Templo dedicado ao deus Quetzalcoatl. É um dos edifícios mais bonitos do México pré-hispânico. A fachada é decorada com grandes cabeças de serpentes; entalhadas em baixo-relevo, serpentes ondulantes com o corpo coberto de plumas, acompanhadas de motivos aquáticos como conchas e caracóis. A representação de Quetzalcoatl é feita por uma cabeça de serpente que emerge de uma espécie de flor de onze pétalas; a outra representa Tlaloc, o deus da chuva. Quetzalcoatl é uma deidade criadora, já que o caracol marinho, usado como trombeta, deixa ouvir o sopro divino em forma de som, e a concha simboliza a vulva materna, o nascimento das criaturas. O Templo de Quetzalcoatl contém uma espaçosa praça quadrangular formada por plataformas que medem 400 metros de lado.
Teotihuacan traz consigo a marca do divino, que mescla com o humano. O humano está bem representado pelas ruas e casas. Ela teve atividades dignas das metrópoles, servindo como ponto de encontro para comerciantes que saíam do vale do México e se dirigiam a Puebla, Tlaxcala, incluindo-se a Mixteca e Tehuantepec. É um prodígio constatar que, construída em um vale similar ao da Cidade do México, sempre sujeito a chuvas e tempestades, dispõe de poucos poços de água!
Segundo estudos arqueológicos recentes, Teotihuacan era, por volta do ano 600 a.C, uma aldeia que iniciou a fabricação de objetos feitos com pedras da região. O excedente foi comercializado para outras regiões e depois foi possível planejar um comércio e uma agricultura eficientes, já por volta do século II a.C. Desde essa época, os conhecimentos desenvolvidos pelas culturas pré-clássicas se concentraram em torno desse centro político e religioso que iria durar até o século IX de nossa era. O grau de refinamento e difusão da cultura teotihuacana tem sido considerado como a época clássica da América meridional.
Essa visita e essas lembranças me levaram a uma reflexão profunda. Ali, no alto da Pirâmide da Lua, pensei em nossos livros tratando dos povos indígenas. Senti vergonha por ver o que existia nas entrelinhas. Esse sentimento de menosprezo de uns para com outros. Esse mal-estar de continuar encontrando diversos vocábulos como selvagem, inculto, indolente, estúpido, para designar um único vocábulo: indígena. A arrogância do descobridor, a ambição do colonizador, a prepotência dos que têm a tinta e o papel para escrever a história, à sua maneira, na ótica do vencedor, parece não ter qualquer noção de limite. E assim eternizam-se preconceitos infundados, criam-se novos fossos separando o que deveria permanecer sempre unido: somos folhas e flores de uma mesma árvore, pertencemos a um só humanidade.
Pensei nos muitos povos e nações indígenas dizimados, nas represas construídas para deter o processo civilizatório. Pensei no conhecimento acumulado pelos anciãos indígenas, adeptos de uma cultura oral que, muito rapidamente, teve de ser estancada ante a força das espadas e o cheiro da pólvora dos canhões e fuzis.
Imaginei como teria sido diferente a história se, ao invés de termos descoberto a América, a América houvesse descoberto a Europa. Teriam destruído a Capela Sistina? Teriam saqueado Toledo e Sevilha? Teriam detonado Florença? E as bibliotecas de Paris, de Barcelona e de Berlim teriam virado fumaça ante o olhar dos chefes astecas, maias, incas? Os afrescos e murais que fizeram a glória do Renascimento, principalmente na Itália, receberiam um banho de tinta de urucum, alguns baldes de cal ou seriam demolidos sumariamente?
Foi com tais pensamentos, com pulmões dilatados pelo ar rarefeito, com o espírito impregnado de alguma mística milenar, que senti um impulso no íntimo da alma para elevar uma oração ao céu. E, nove vezes seguida, com o coração batendo acelerado e o vento açoitando o rosto, ali no alto da Pirâmide da Lua, fez-se ouvir uma oração a Deus. Era uma súplica para que livrasse a humanidade de suas dificuldades. E fizesse chover uma demorada chuva de perdão sobre todos nós, os chamados senhores da História. Era uma oração pequena, uma oração que tem me acompanhado ao longo dos últimos 25 anos, muito adequada a momentos como aquele, em que busco comunhão com o Sagrado. Minha oração era típica de um fiel na unicidade divina, embora soubesse que estava na Cidade dos Deuses. A oração conclui-se com estas poderosas palavras: “Não há outro Deus além de Ti, o Amparo no perigo, o que subiste por Si próprio”.
Tinha lido um pouco sobre essa bela zona arqueológica. Em Teotihuacan, a forma de governo, desde sua criação foi a teocracia. Teotihuacan não apenas é uma cidade monumental, mas também um lugar em que a pintura de murais permite observar, no mundo das figuras míticas, deuses, jaguares, seres da noite e céus aquáticos.
A arte teotihuacana não se detém no exterior, mas antes cria seu microcosmo de vasilhas e objetos cerimoniais que, ensaiados por séculos, alcançaram a perfeição. É assim a cidade que dispunha de bairros especializados de artesãos que proviam a cidade e as zonas tão distantes como Oaxaca e Yucatán. Assim mesmo, e como correspondia a uma cidade cosmopolita, chegou a ter seus bairros e grupos maias e zapotecas.
Foi somente séculos depois de abandonada que outros povos a chamaram de “Cidade dos Deuses”, não sem razão, pois sua existência esteve regida por profundas convicções religiosas e normas de vida em torno dos ciclos da natureza, da semeadura, da colheita, da chuva e de uma cosmogonia de estreitas relações fenomenológicas cuja expressão calendárica e astronômica refletiu-se na construção da cidade.
A expressão mais evidente dos antepassados de Teotihuacan são, certamente, as ruínas arqueológicas da cidade e os seus muitos objetos de cerâmica espalhados pelo mundo; seu centro cerimonial, traçado como um grande símbolo com dois eixos; e o Norte-Sul chamado de Caminho dos Mortos, de onde se originam, como asas de uma borboleta, edifícios, palácios, praças, templos. Aliás, com pesar, observei um sem-número de museus, praças monumentais, estátuas as mais variadas, que celebram a existência dos povos pré-colombianos no México. A História sabe ser irônica: uma vez morto, o indígena é respeitado, idolatrado literalmente e até mesmo amado. Mas, vivo, aí é de derramar lágrimas sobre as longas avenidas que nos levam à Grande Pirâmide do Sol. Somente o sol para secar tantas lágrimas.

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