Em maio de 1993, tinha duas conferências na Universidade de Barcelona. O auditório reunia quase trezentos alunos. Todas as cadeiras ocupadas, os corredores repletos, a equipe de televisão fazendo as tomadas, dois gravadores de rádio próximos do microfone que eu usava. O tema era o lançamento do meu livro-denúncia sobre o genocídio dos povos indígenas no Brasil, Estamos Desaparecendo da Terra. Em determinado momento, na segunda metade da apresentação, vejo que duas jovens começam a soluçar. Faço uma pausa. Sempre me incomoda um pouco ver pessoas chorando. Temo que tenha sido a causa de sua dor e por isso sofro um pouco. Resolvo perguntar se havia alguma forma de ajudá-las. Uma delas levanta a cabeça e diz, à meia voz: “Desculpe-nos, acabamos de decidir que vamos dedicar um ano de nossas vidas, tão longo concluamos o último período da faculdade de antropologia, a ajudar os Ianomâmis no Brasil… Essa decisão está sendo tomada após ouvir essas suas palavras sobre o futuro que foi roubado dos povos indígenas”. Com um clarão na mente, volto ao microfone para dizer: “Vocês não precisam ir tão longe para colocar as energias criativas de seus corações a serviço dos sofridos, dos condenados da Terra. Se vocês desejam genuinamente ajudar nossos índios no Brasil, recomendo que se dediquem a elevar a auto-estima e mesmo a qualidade de vida dos povos ciganos na Espanha. Eles é que são seus Ianomâmis. Eles precisam de apoio, de encorajamento, de solidariedade, de calor humano, de respeito, de dignidade. Precisamos mudar nossa maneira de ver o mundo. Buscar ajudar aqueles que estão próximos da gente é mais produtivo do que tentar ajudar aqueles que estão longe. Afinal, todos nós temos os nossos indígenas por perto. São os que sofrem e que são diminuídos em sua dimensão maior, que é a humana.”. Foi a primeira vez que vi uma catarse geral. Algo que espero nunca esquecer.

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