Terminava 1993 e, com ele, uma longa viagem que fiz à Península Ibérica. Estava em Madri. Exausto, olhos entreabertos, reclino-me no assento daquele vôo da Ibéria com destino a Londres. Fui então tomado de grande emoção. Uma música principiava e inundava a aeronave. A melodia era inconfundível e a letra estava ali, quase palpável: “Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro/Estou morrendo de saudade…” E desabei a chorar. Cada acorde e cada nota me falava do Brasil, e a palavra saudade alcançava outras tonalidades e outros significados. Era uma palavra bruta que, lapidada, começava a assumir novos contornos. Esse sentimento curioso de pertencer a algo ia, aos poucos, lentamente, transportando-me ao Brasil, mais rápido que as turbinas daquele 747. E então, ali naquele vôo rarefeito de fisionomias desconhecidas, um pedaço do Brasil recendia ao Cristo Redentor, que “abre seus braços sobre a Guanabara”. E a melodia alagava o corpo cansado com sua fluidez. Descobria assim que a saudade era um pouco de alegria em estado contemplativo. Tom Jobim me aqueceu o coração outras vezes, incontáveis vezes. Estava em Tel-Aviv e, no aeroporto Bem-Gurion, julguei ouvir um piano quebrando todas as regras de vigilância e de segurança de Israel. A vilã era nada menos que Garota de Ipanema surpreendida pela voz rouquenha, gingada, de Sarah Vaughn. E percebi que, antes mesmo de ter tempo de sentir saudades do Brasil, já era todo saudade e, ora bolas, existiria algo mais brasileiro que saudade? Outra vez estou em Roma e o aeroporto Da Vinci parece ter sido colocado de pernas pro ar. Uma algazarra, uma correria, apitos, sirenes, gritos estridentes. Motivo que descubro depois: policiais buscam terroristas. Desencadeiam uma operação de emergência. Somos revistados uma e duas vezes e ainda uma terceira vez. Parecem procurar em cada rosto um outro rosto disfarçado. Os vôos estão muito atrasados e então acontece. Um brasileiro me passa, assim sem mais nem menos, o walkman e escuto Nara Leão com a voz de quem acaba de acordar, sem pressa alguma, cantando com toda a afinação do mundo Desafinado. Fazer o que? Naquele cenário surreal, podia o mundo desafinar, mas o “senso de pertencer a algo” estava presente, quase ao alcance das mãos. Não por acaso, era Roma, e isso me lembrava de uma entrevista em que Vinícius contava que, com Toquinho, no início dos anos 70, compuseram aquela famosa Carta ao Tom. Uma carta que principiava com os belos versos “Rua Nascimento e Silva, 107, você ensinando pra Elizeth as canções do amor e paz, lembro de um tempo feliz, ai que saudade, Ipanema era só felicidade…”. Desde então, ficou em mim a impressão perfeita e acabada de que Tom Jobim foi, dos nossos gênios, um cidadão do mundo em estado bruto. Ele achava que o Brasil começava no Ceará e acabava ali no Alasca. Tinha um pensamento original. Era brasileiro, até na carteira de identidade, mas não era menos parisiense, nova-iorquino, salvadorenho, berlinense ou habanero. Tinha esse talento de saber apreciar a diversidade cultural de cada povo, e de cada nação. A sensação de ouvir Tom Jobim no exterior é tão reconfortante quanto estar de regresso ao Brasil após longa temporada no exterior. Para quem tem esse sentimento, tantas vezes vivido e sentido em lugares tão distantes quanto Déli, Cairo, Copenhague ou Braga, em Portugal e em tantas outras partes deste planeta (que fica pequeno a olho nu a cada dia que passa) é, literalmente, um baque saber que “o Passarim quis pousar, não deu, voou”. E voou em New York, do emblemático Hospital Memorial Monte Sinai, em busca da resposta definitiva: “me diz o que eu faço da paixão que me devora o coração, que me maltrata o coração”. Poucos segundos depois, o passarim pousava nas encostas do Corcovado e se transformava em um “trovador cheio de estrelas”. A verdade é que o Tom continuará viajando em cada um de nós.

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