Paul Morand afirmou que a viagem mais bela, aqui na Terra, é aquela feita por um encontro do outro. Tem sentido. Muitas vezes viajamos por lugares longínquos à procura de quem se encontra a poucos metros de distancia. Outras vezes, longe de nosso ambiente, de nossas convivências, nos sentimos estrangeiros, sempre de passagem, sempre apressados, sempre em busca do próximo vôo, do próximo trem, do próximo porto e, de repente, nosso destino era estar exatamente no lugar em que nos encontramos. Daí a diferença essencial de estar em viagem e estar em movimento. Uma viagem é, antes de tudo, a busca de outras paisagens, de outros rostos, de outros enfoques da vida. O mesmo Paul Morand, viajante ilustre por tantos quadrantes do mundo, levou o escritor Paul Theroux a refletir que “viajar é, em suma, descobrir como nos modifica o longo regresso para casa que todo deslocamento implica”.
Um biógrafo registra que Leon Tolstoi jamais viajava sem a Ilíada e a Odisséia no bolso. Sobre o tema, temos o desabafo de Gide em seu Journal, em 16 de julho de 1942: “Nunca deveria viajar sem meu Montaigne”. Voltaire escrevia a Thiérot, em 1718: “Peço-lhe encarecidamente um Virgílio e um Homero. Estes dois autores são meus deuses domésticos, sem os quais não deveria viajar”. Encontrava-se, naturalmente, em viagens, faltando-lhe, sem a proximidade da biblioteca, esses companheiros cúmplices da vida diária. Montaigne, na mesma linha, teria declarado que nunca viajava sem livros, tanto na paz quanto na guerra. Napoleão já lera Werther sete vezes; não contentado, porém, da convivência com o pequeno evangelho romântico, levou-o em sua bagagem para o Egito, com a idéia de fazer uma nova leitura nos possíveis momentos de descanso do giro que estava por iniciar, tendo como companhias silentes nada menos que as sombras das pirâmides.
Na sua biografia de Shelley, lembra Maurois que, quando o cadáver do peta, morto afogado, foi dar numa praia de Viareggio, Trelawny encontrou num dos bolsos do paletó do morto um Sófocles e no outro um volume de Keats.
Desabafa o pensador Jean Durtourd: “Quando parti para a guerra, em 1940, aos 20 anos, pus na minha sacola, antes de tudo, um volume de Mallarmé e um volume de Valéry”.
No seu Journal, V, com a data de New York, 1948, relata Anais Nin: “Havia um livro de George Bernanos que eu conduzia por toda a parte, numa certa época, não principalmente pelo seu conteúdo, mas pelo seu título: A Alegria”.
O doutor Lartois, personagem de Lês grandes familles, de Maurice Druon, tinha como livro de cabeceira o Evangelho no texto grego. Cada noite, antes de dormir, lia alguns versículos, para manter sua flexibilidade de espírito (afirmava ele) e, quando chegava ao fim de S. João, o que acontecia de dois em dois anos, recomeçava a leitura. Explicava aliás: “Ler o grego me força a não pensar em nada”.

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