Moacir Scliar

Viagens dão pelo menos dois tipos de texto. Um deles é aquele que podemos chamar de prático: dirige-se a um público específico, pessoas que planejam viajar para tal ou qual lugar, e dão conselhos, dicas, informações. O outro é aquele que transforma a viagem em um ponto de partida para uma verdadeira aventura intelectual ou estética. É neste segundo grupo que Washington Araújo se encaixa. Sem deixar de fornecer indicações preciosas para viajantes, ele vai, no entanto, mais fundo, movido por uma espécie de empatia que nos contagia a todos. Como diz a respeito de Frankfurt: há cidades que nos criam um dilema – ou pertencemos a elas ou não. Washington Araújo, viajante, pertence a uma série de cidades. O que, para os leitores, é motivo de regozijo. O que temos aqui são textos da melhor qualidade, que nos encantam e nos fazem pensar. É que Washington Araújo leva consigo uma dupla bagagem: aquela, convencional, que todo viajante utiliza (o que inclui, naturalmente, a máquina fotográfica) e a bagagem intelectual, representada por sua vasta cultura. O resultado disto é que a visita a uma cidade é, para ele, mais que o “reconhecimento do terreno”. Washington Araújo não é daqueles turistas apressados que deixam o carro estacionado em fila dupla e entram correndo no Louvre para dar uma olhadinha na Mona Lisa. A sua visão das cidades é uma visão multidimensional: cultural, política, artística, filosófica até. Não faltam, em seus textos, referências a autores como Pessoa e Torga. A viagem é para ele o ponto de partida para uma meditação sobre a história. Em Teotihuacan (México), por exemplo, ele reflete sobre o trágico destino dos povos indígenas na América, sobre a pobreza, a segregação. Guernica oportuniza-lhe belas considerações sobre a obra de Picasso.

Engana-se, porém, quem pensa que o resultado deste processo é um texto pesado; o humor é um dos componentes essenciais no trabalho de Washington Araújo. Descreve o avião de fabricação russa que o leva a Havana como “uma aeronave ótima para um museu de aeronáutica”. Aliás, em Havana ocorreu-lhe uma frase muito significativa: é um bom lugar para se perder, diz. O que nos remete ao notável Walter Benjamin: é fácil achar-se numa cidade, o difícil é perder-se nela. Washington Araújo sabe se achar e sabe se perder. E, quando se perde, leva-nos a uma outra viagem, aquela viagem interior que é essencial para a nossa existência.

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