(* os textos em negrito são trechos da carta de Clarice Lispector)
“Berna, 2 de janeiro de 1947″
Em 2003 o diretor Sönke Wortmann lançou seu filme de Das Wunder von Bern ( O milagre de Berna). O roteiro abordava os dois eventos que marcaram a história da Alemanha no pós-2ª Guerra Mundial: a queda do Muro de Berlim e a histórica vitória da Seleção da Alemanha na Copa do Mundo de 1954, que ficou conhecido como o milagre de Berna, numa referência à cidade suíça onde ocorreu o jogo. As lembranças do jogo, que deu à Alemanha seu 1º título mundial, são mostradas através da família Lubenski, que vive na pequena cidade de Essen-Katernberg. Mas, entre 1945 e 1954, não teria acontecido um outro milagre? E, de longe, será que não eclipsaria os dois milagres anteriores? Refiro-me à carta que a escritora Clarice Lispector escreveu em 2 de janeiro de 1947.
Deve-se ter em mente que a II Guerra Mundial terminou em 7 de maio de 1945 quando a Alemanha se rendia incondicionalmente em Reims e deixando um saldo de 50 milhões de mortos, custando nada menos que cerca de US$ 1,5 trilhão.
Sobre o muro de Berlim, aquela estranha cicatriz plantada na alma da humanidade, somente seria destruído em 9 de novembro de 1989. Foi naquele dia que as autoridades comunistas da Alemanha Oriental informaram aos moradores que o acesso ao outro lado da cidade estava liberado. Por volta das 22h, uma multidão pacífica marchou em direção as passagens do muro de Berlim querendo ir para o outro lado. Os guardas da fronteira, sem saber o que fazer, levantaram as cancelas e deixaram o povo passar. Foi o começo do fim do Muro de Berlim, fato que representou dois importantes marcos: a reunificação alemã e o fim da guerra fria.
Pois bem, na desolada cidade suiça a escritora Clarice Lispector escreveria sua carta a uma amiga que chama apenas que “Querida”. A carta cruzou oceanos e deixou atrás de si um vigoroso libelo sobre a condição humana, encantando tantos quantos a leram. Foi um milagre no sentido de sua autora - já consagrada na literatura brasileira - ter conseguido o feito de trazer à superfície do ser os velhos questionamentos existencialistas. Densa de humanidade e vestindo as palavras com as mais dolorosas que desafiam a condição humana desde o início da noite do tempo, Clarice avançou em território virgem: o pensar e pensar sobre a felicidade humana possível. E as marca que deixou no papel continuam tão vivas como se tivessem sido escritas há poucos minutos atrás. Procurando mergulhar no coração da missiva aventurei-me 58 anos depois a refletir sobre seu conteúdo. É o que segue.
“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma”
Sim. Somos o que pensamos. Pensamos da vida e da morte. Dos sonhos e da realidade com que tecemos a colcha de nossa existência. Já afirmava Shopenhauer que destino é caráter. E o que é o caráter senão esse desejo intenso de tocar asas de borboleta sem machucar? O caráter de uma pessoa transcende o jogo de valores morais. O caráter se manifesta como raios de um sol meridiano nas coisas grandes e também nas pequenas. Por gostar de ler Clarice, por sentir que ela conseguia encontrar a palavra certa na hora certa e por saber que essas palavras me transmitem uma serenidade que não vem deste mundo, sei que as conseqüências já começam a bater à porta. Meus filhos sabem que encontro repouso no texto de Clarice e respeitam Clarice por esse poder terapêutico de me dizer coisas indizíveis. Sim, há um silêncio pontuando as sílabas que formam as palavras escolhidas por Clarice. Essas sílabas respiram em mim. Batem lá fundo em minh´alma. Uma frase aqui e outra mais ali e eis, tenho a moldura de meu sentimento à flor da pele, algo tão palpável quanto o teclado que sente o calor de meus dedos a ordenar as letras que logo serão palavras luminosas. Olho uma criança de seus seis ou sete ano e bem poderia pensar sobre o que futuro lhe reserva. Mas não, olho essa criança já pensando sobre o que o seu passado lhe reserva. Somos um pouco da soma dos dias vividos que irão se projetar para além, transbordando nos dias do porvir. Ninguém continua a ser o mesmo quando foi tocado pela palavra curadora, quando se deixou bafejar pelos sentimentos aprisionados no coração das palavras. E a vida jamais continuará a ser a mesma. Houve, então, um valor agregado. O da poesia em estado de vida, pulsante, latejante.
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”
Passamos muito tempo tentando fazer o impossível: cortar a nossa sombra, deixar aparente apenas a nossa luz. É a velha luta que separa o que somos do que gostaríamos de ser. E ninguém quer ver seu lado menos nobre, sua natureza mais humana, assim escancarada, ao escrutínio de nossos contemporâneos. E muitas vezes, somos o pequeno Davi lutando contra o temível e poderoso Golias, como relatado na milenar fábula judaica. Desde a mais tenra infância somos induzidos a realçar apenas os aspectos mais belos e altruísticos de nossa existência. Esquecemos que quanto maior a luz que passamos através de nossos pensamentos, palavras e gestos, maior ainda será a sombra que se projeta, logo ali na esquina da alma. Somos um só. Um equilíbrio saudável entre luz e sombra, entre o Yin e o Yang, o positivo e o negativo. E manter esse equilíbrio custá-nos muita energia emocional, psíquica. Ferreira Gullar afirmou em seu poema Traduzir-se: “Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão outra parte estranheza e solidão. Um