Capa do Livro Liderança em Tempo de Transformação

No momento em que neste planeta a espécie pensante passa por uma crise sem igual, grande parte dos luminares do pensamento oferecem-nos um universo absurdo, onde tudo terminaria em nada. Seria um Big Bang ao contrário. Nos dias atribulados que atravessamos, existe a fome de outro alimento. A juventude – ela e somente ela, é que pode mover o mundo – expressa sinais de cansaço do niilismo. Fica patente que não se pode viver e sobreviver sem encontrar razão para a vida.

Ritos de passagem

A passagem de um século a outro, de um milênio a outro é propícia para reflexões de longo alcance. Afinal, estamos nos despedindo de cem anos de nossa história. Se olharmos bem, a vida humana é uma longa sucessão de despedidas. Quando estávamos bem aconchegados no ventre de nossa mãe, eis que somos chamados a nascer para este mundo da natureza, a bolsa com líquido amniótico se rompe e encerramos nosso projeto de vida inicial, de vida uterina. Deixamos para trás a dependência simbolizada pelo cordão umbilical e temos o desafio de nos adaptar a uma nova forma de vida. Depois temos os belos anos da infância, as primeiras amizades, as brincadeiras, o descompromisso, o mundo lúdico e simbólico dos projetos de vida que temos começado a acalentar. Nossos pais de repente mudam de residência ou de bairro ou de cidade. Despedimo-nos então de nossos amigos de infância. Eles partem porque deixaram suas faces gravadas em nossas primeiras memórias e ainda viverão por quase toda a vida conosco, porque eles foram os primeiros que nos ensinaram coisas como amizade, fraternidade e cumplicidade. E testemunharam os primeiros jogos em que aprendemos a viver em sociedade e ouviram nossos primeiros exercícios de linguagem. Essa despedida da infância nos catapulta aos anos iniciais da adolescência, às primeiras questões existenciais e ao primeiro amor adolescente. Escrevemos, no dizer de Pessoa, as nossas “primeiras cartas ridículas de amor”, rabiscamos sentimentos da alma, confidências do coração em cadernos amarrotados. A pessoa amada é tudo e sem seu sopro de vida não existe vida possível. E logo vamos descobrir que não é bem assim: temos de nos despedir do primeiro amor, dos primeiros amores, para iniciar os anos longos da juventude. Uma vocação, uma profissão já se delineia. A vida sentimental se torna mais densa. E então encontramos a nossa melhor parte: aquela ou aquele com quem desejamos compartilhar o presente e o futuro, a pessoa a quem iremos completar e que irá, também, nos completar. Temos de nos despedir de nossos pais, do aconchego da casa, dos rituais da família, da segurança que nossos pais souberam nos dar ao longo do tempo. Virão os filhos e com eles uma nova forma de ver o mundo. Eles passarão, fatalmente, por todas essas fases e despedidas. Mas a grande transição é aquela em que decidimos, por um ato de vontade própria, nos despedir de quem pensamos ser para sermos aqueles que realmente somos. É a transmutação da semente em floresta.

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