Capa do Livro Viajar é Preciso

Inicialmente achamos motivo de riso, depois se formos honestos veremos que guardam uma certa lógica. Finalmente Margarida Miguel tenta pela enésima vez falar comigo. Reclama em telefonema ao Rolf que “para o Hotel Berna Washington Araújo não existe, seja por Araújo seja por Washington.” Ligo à recepção e pergunto se poderiam me informar quem é o hospede do 922. Um jovem responde que é o Sr. Dearaújo. Pronto. Descobri a causa da irritação da Margarida: me registraram como sendo Dearaújo. Se não é esta amiga permaneceria incógnito em Portugal por toda uma semana.

Portugal é o berço dos nomes mais carinhosos jamais dados a lugares públicos. E lembro do bairro chamado Seteais. São setes os gritos de dor, sete os ais. Daí, em uma lógicas nitidamente lusitana a desembocar no vocábulo único Seteais. E é também o berço dos amores correspondidos, pouco correspondidos e jamais correspondidos. Pode-se visitar a Hotel-Pousada das Lágrimas. Um nome no mínimo curioso para uma hospedaria: quem iria desejar descansar a mente, libertar o corpo do estresse em um lugar que lembra… lágrimas? Mas este nome tem um motivo: foi onde diversas vezes Pedro e Inês de Castro pernoitaram. Daí a recordação dessa trágica história de amor.

Estar em Lisboa é ter a sensação de estar penetrando em um continente misterioso e por vezes surpreendente. As mulheres idosas, atarracadas em seus costumeiros vestidos negros guardando um luto que dura mais de um século e rescendendo a azeite de oliva, tal é a paisagem nas amplas avenidas do Campo Pequeno e do Bairro Alto. Os jovens saem em grupos pelo moderno metrô, com a mesma algazarra de sempre. Mas se lhes fitamos os olhos encontramos rapidamente o mesmo espírito ancestral dos descobridores, os olhos de navegantes intrépidos a descobrir novos mundos e a encobrir outros. Sigo para a Tabacaria Brasileira, freqüentada nos anos 20 pelo próprio Fernando Pessoa. Uma mesa é dedicada à sua memória e uma estátua de bronze em tamanho natural lá se encontra, tomando café ao ar livre em uma mesinha, imune à passagem do tempo e conservando aprisionados na fumaça dos muitos fumantes (afinal trata-se de um Café-Tabacaria) os poemas não escritos pôr quem melhor soube descrever a alma lusitana: o português é capaz de tudo, logo que não o exijam que o seja.

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