Emerson Barros de Aguiar
Especial para O NORTE

Washington Araújo, escritor e editor, junto com Francisco Gouveia, Marcelo Oliveira, Reivaldo Vinas fundou a Editora Letraviva, que já se destaca entre as melhores do país, contando com autores como Afonso Romano de Sant’ana, Leonardo Boff, Frei Betto e Hermógenes. Durante a sua breve passagem pela Paraíba, recentemente, ele deu esta entrevista a O NORTE. Nela, podemos perceber as preocupações de um homem e de um editor de perfil diferente, mais preocupado com questões éticas e humanitárias do que com a casuísta da argumentação pseudoeconômica e pseupolítica, que costuma conferir às mentes mais débeis um certo verniz de respeitabilidade.

Emerson Barros de Aguiar – Qual o grande desafio humano de hoje? O que devemos realizar?

Washington Araújo – Acredito que o homem moderno, que ingressa no Terceiro Milênio, deve ter dois instrumentos na visão: o telescópio e o microscópio. Ele tem que olhar o futuro com todas as potencialidades que traz e olhar o presente ems seus mínimos detalhes. Dostóievsk é muito feliz quando afirma que Deus está nos pequenos detalhes. Assim, não sou favorável ao sentimento de que o homem deva ter uma visão essencialmente utópica da transformação social, sem antes possuir uma compreensão profunda de que ele próprio é parte desta transformação. Você só transforma o mundo se você se transformar, o mundo só só fica mais limpo, habitável, se o seu quintal ficar mais limpo, habitável. A convivência humana só se torna preciosa se os seus relacionamentos forem preciosos também. Portanto acredito que o grande desafio é este: conciliar a mente e a emoção. A maior distância que o homem pode buscar vencer não é tanto aquela que separa a Terra de Marte, mas sim a que separa o coração da mente.

Emerson Barros de Aguiar – O que você pretendeu ao fundar uma editora? Qual a contribuição que você espera que a Letraviva dê?

Washington Araújo – Quando a gente começa uma caminhada a gente tem que ver no início o fim, aonde ela vai nos conduzir. Tenho esse tal sentimento do mundo, como Drummond bem expressou. Sempre senti que tudo o que é humano me causa interesse. Assim, sou um eterno interessado pelas pessoas, pelas coisas, pelas planícies, montes, pelos mares, pelos oceanos. Tenho vivo interesse tanto pelo mal que sofreemos com o aumento do buraco na camada de ozônio quanto pela questão de poucas centenas de índios Ianomâmis. Pensando assim, às vezes, tenho a sensação que estou, vamos dizer, um pouco deslocado, porque continuo entendendo que a grande “sacação” desse milênio é o humanismo. Continuar acreditando que cada um de nós é parte integrante de uma grande família chamada humanidade e que temos um grau de responsabilidade pelo bem estar desse todo. É correto afirmar que aquilo que infelicita a parte infelicita também o todo. Se o meu dedo mindinho está inflamado, o meu corpo todo padece, sofre. E se me sinto parte do mundo, qualquer porção de uma ilha vulcânica afundando, sendo tragada pelo mar, termina sendo um pedaço do meu continente interior que está submergindo. Sou diminuido quando o mundo é diminuído. Neste sentido, penso que a maior tragédia de um homem é aquilo que morre dentro dele quando ele ainda está vivo. E muitas vezes a gente deixa morrer dentro da gente essa coisa chamada utopia, ideal. O princípio da solidariedade compartilhada me vêm à mente. Este princípio tem um quê de efetivo, de senso comum, pois se somos responsáveis pelo todo, temos então uma responsabilidade objetiva, concreta. É como dizer que precisamos ter o coração nas nuvens e os pés no chão. Caso isso não ocorra, a caminhada não nos levará a lugar nenhum.

Emerson Barros de Aguiar – Um autor escreveu certa vez que muito do que é escrito, e do que já foi escrito, não vale a pena ser lido. Ele chegou até mesmo a falar da “maior parte” do que já foi escrito. De fato, quando olhamos para a mediocridade presente nas prateleiras das livrarias, para os cronistas cínicos e debochados, que não fazem crônicas sobre o cotidiano, mas sim sobre a banalidade, somos levados a concordar com esse autor…

Washington Araújo – A idéia da Letraviva é ser um contraponto à “letra morta”, como o próprio nome procura indicar. O ponto que precisa ser destacado é a constatação de que se escreve muito sobre o que perece, o que é transitório, o que é impermanente. Imaginei uma editora que pudesse tratar dos grandes temas da vida humana, dos grandes sonhos, das grandes utopias, dos grandes momentos vividos e por viver. É como se o mundo fosse um ambiente fechado, há muito tempo esquecido no leito dos séculos, e então pensei a Letraviva como a abertura de uma janela, uma lufada de ar puro capaz de nos fazer vibrar, levantar, sonhar. Quando tal janela passa a ser algo possível, então vemos que de repente, muitas outras pessoas se volvem rapidamente à janela: todos necessitam de “ar puro”. Foi assim que a Letraviva surgiu em abril de 1999, com o sentimento muito entranhado de que algo novo poderia surgir, com a convicção cristalizada de que a literatura poderia vir a ser uma vez mais o canal e o escoadouro natural para a criação de um novo ideal, uma nova forma de pensar, de sentir, de agir. Esse é o contraponto Letraviva/”letra morta”. Ao invés de optarmos por uma centena de autores, temos buscado uns 10, 15. Todos escolhidos pelo que tinham a dizer, por sua contribuição à cultura em geral, pelo seu humanismo, por sua confiança no futuro por vir. Obviamente procurei aqueles autores que mais se identificavam comigo, que me marcaram, de alguma maneira, nessa minha milésima tentativa de iniciar alguma trajetória. Assim, nós trouxemos o Leonardo Boff, que lançou o seu “Ética da vida” em 1999, e que agora, em Abril, estará lançando, um ano depois, dois novos livros: “A voz do arco-íris” e “Ethos mundial”. Publicamos “O sabor da vida”, de Gilberto de Mello Kujawski, e estamos viabilizando o segundo livro do Kujawski: “O Ocidente e sua sombra”. Publicamos “A testemunha – diário de uma essênia”, de Marlene Porto, que, a meu ver, é uma das grandes idéias da atual literatura em língua portuguesal. A maneira como ela escreve é incrível, de um intimismo e lirismo únicos. Ela faz literatura como se dentro de cada palavra existisse uma pedra, e eis esta pedra a vibrar e a sonhar. Ela resgata a memória dos essênios de uma forma poética e mística. Marlene apresenta também um testemunho vivo de como é a vida espiritual num mosteiro de há dois mil anos. Depois publicamos dois livros de José Hermógenes, “Silêncio, tranqüilidade e luz”, porque numa noite pensei em quais seriam as três grandes virtudes para que pudessemos começar bem o terceiro milênio. Cheguei a umas cinqüenta, sessenta virtudes e fui descartando: veracidade, compaixão, liberdade, pureza, inocência… e cheguei em três que qualquer um de nós necessita: silêncio, tranqüilidade, luz.. Silêncio porque ele se torna cada vez mais urgente quando perdemos a capacidade da “escuta do outro”. O silêncio fica muito eloqüente quando descartamos nossa voz interior, a voz da consciência que busca expressão quando o espírito está fértil. A tranqüilidade porque vivemos quase ao ritmo das máquinas, competimos demasiadamente com nosso próximo e também com as próprias máquinas e finalmente luz, porque dela precisamos para discernir as feições do belo, do bom, do justo… Depois, em fins de 1999 publicamos, então, um outro livro do Professor Hermógenes, chamado “O presente”, livro este que ele afirmou, recentemente que ser o seu livro mais denso, dentro do contexto de sua singular trajetória como pensador. O livro é um diálogo dele, um homem vivido, com Cristo, um Cristo sofrido e relegado a um papel secundário na vida moderna. Ele diz que o Natal é a época em que todos ganham presentes e o aniversariante, na maioria das vezes, é totalmente esquecido. É um livro onde ele expõe o fardo de uma existência cansada de lutar, mas ainda crente numa esperança de vida digna e decente. A Letraviva tem uma proposta multidisciplinar. Uma questão que muito me chama a atenção, apesar de não ter ainda adentrado na terceira idade é a questão da sucessão na sociedade, das gerações futuras, entende? Fico atento a isso quando o assunto é o Movimento Nacional dos Direitos Humanos, quando participo de encontros místicos, transreligiosos, macroecumênicos, holísticos. Temos que tentar semear nas novas gerações o sentimento do belo, do digno. A realidade ética tem que permear a realidade física e a realidade social. Nesse sentido, a Letraviva vem, de certa forma, preencher esta lacuna, resgatar pensamentos vigorosos que apontem alguns lugares interessantes nos quais a alma humana possa se deleitar, mas que sejam propícios a novas tomadas de posição.

Emerson Barros de Aguiar – Você parecer estar atento à questão da sucessão, das gerações futuras…

Washington Araújo – Quando o homem, em sua longa trajetória no palco do mundo, descobriu o fogo, isto teve uma força impulsionadora no processo civilizatório que foi realmente sem igual. Quando o homem descobrir o amor, ela terá descoberto outro fogo, o fogo interior. Nenhum homem poderá se considerar plenamente humano enquanto existir no mundo tantas formas de opressão, de tirania, de injustiça. Acredito que o processo de sucessão passa por esse sentimento do Peter Druecker, por sinal muito acertado, porque quando estamos atentos ao processo sucessório, podemos ver onde erramos e enxergamos onde podemos evitar a concretização de outros erros. Um dos grandes erros desse século foi encarar as coisas com um sentido puramente utilitário, prático e objetivo. É tempo de constatarmos que a única coisa que não muda é a mudança, o impermanente. Estive em Nova Deli, na Índia, em 1987 e lá me deparei com um pequeno poema de Tagore que muito me impressionou. Dizia Tagore: “Perdi minha última gota de orvalho… reclamava a flor ao céu do amanhecer que acabava de perder todas as suas estrelas”. Acho que o grande dilema da sucessão passa por isso: que mundo queremos? Até quanto cumpri em minha cota de humanidade? Quando iniciaremos a grande caminhada? O ser humano tem três dimensões: ele tem a altitude, largura e o comprimento. O comprimento é o quanto pode durar sua vida; a largura, poderia ser simbolizado pela teia de relacionamentos que você constrói, ou seja, o amor a quem está próximo de você; a terceira dimensão seria a da altitude, que é a do caminhar para Deus, para o Alto. E esse Deus pode ser chamado do nome que se queira: Memória Cósmica, Incognoscível, Brahma, Shiva, Alláh, Jeová, Teo. Seja qual for o nome com que O invoquemos, de alguma forma, Ele irá nos responder. Então creio que o grande desafio da sucessão é iniciar o plantio nas novas gerações, do sentimento verdadeiro de busca da verdade. A luz é boa não importa em que lâmpada brilhe. Um livro é belo, não importa quem o tenha escrito. Um flor é bela, não importa em que jardim tenha sido colhida. Afinal: “Numa verdade existem mil erros e num erro existem mil verdades”, mas aquele que busca sempre vai encontrar, isto está já está previsto em escrituras com muitos milênios de existência. Outra grande sacação da sucessão é poder dar um referencial, poder dar um rumo para essa busca, é poder mostrar que existe algo mais do que H2O, do que os quatro elementos, que existe algo de transcendente em cada um de nós e que busca por expressão. E é essa transcendência que gera a conspiração do bem sobre a qual falávamos antes do início da entrevista. Essa “Conspiração pela Paz”, planejada por você e pela Professora Nevita (Maria das Neves Franca, professora de filosofia), está fadado a ser um projeto vitorioso na Paraíba.

Emerson Barros de Aguiar – Você é um homem de muitos interesses. Como você se definiria hoje?

Washington Araújo – Sou apenas um projeto de ser algo. Acredito que a grande força interior é estar sempre buscando, lutando, querendo, desenvolvendo, indo atrás, não se conformando. Imagino, Emerson, que este trabalho tem que ser feito diuturnamente. E ele’ou avança ou retrocede. Não há meio-termo, descanso, parada intermediária. Avança ou retrocede. Quero que o meu dia de amanhã e o dia de amanhã de todos os homens seja melhor do que o dia de hoje. Guardo em mim todas as tragédias e todas as glórias de um ser humano em constante mutação. E espero sempre que no balanço do dia tenha con seguido me mudar para melhor. Alguma vezes descubro que me esforcei tanto para dar um passo a frente e, com pouquíssimo esforçvo descubro também que retrocedi dez passos. A busca da Beleza do Bem-Amado necessita de uma certa cumplicidade com a justiça e com a verdade. Não seria a justiça a verdade em movimento? Precisamos procurar ver a vida além dos rótulos. E entender que a que não temos a opção de querer mudar o passado e muito menos os outros. Qualquer mudança que aconteça que não seja provocada por sentimentos mais nobres, inclusivos, genuínos, terminará sendo apenas cosmética: muda hoje para daqui a pouco voltar a ser o que sempre foi, como uma borracha que você conseguiu entortar e logo retorna à mesma posição inicial. Para mim a pergunta fundamental é: como posso me mudar?

Emerson Barros de Aguiar – Acredito que não podemos deixar de falar dos 500 anos da invasão travestida de descobrimento…

Washington Araújo – Eu acho que não são 500 anos, são 500 danos. A desgraça, as violências, os sofrimentos que foram cometidos contra as populações indígenas, é das maiores violações que se tem notícia na história nossa história, nós que somos os ditos civilizados. A questão do extermínio dos povos indígenas está a merecer um imenso e duradouro Tribunal de Nuremberg. Nunca tantos seres humanos foram tão vilipendiados, humilhados, empalados e colocados apenas como cinzas no caminho da história. Um história onde eles entraram pela porta dos fundos. Acredito que o melhor que a nossa sociedade tem a fazer é passar os próximos 500 anos pedindo perdão. Um pedido de perdão que transcenda a mera enunciação das palavras e seja caracterizado por gestos fraternos de compreensão e amor para com os sobreviventes indígenas. O Índio foi um povo explorado até o limite de suas forças por todos aqueles que participaram do “achamento” do Brasil e depois foi relegado a uma condição de subcidadania, nem é índio nem é cidadão, ficou reduzido a um animal. A sua auto-estima baixou a zero. De 1492 até hoje, 80 milhões de indígenas foram exterminados. O Brasil do “descobrimento” tinha 5 milhões de indígenas, agora tem 350 mil. Em 1981, quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil, o índio Marçal de Sousa foi solicitado a saudá-lo em nome de todas as populações indígenas brasileiras. Prepararam o discurso para ele ler e ele aceitou. Só que na hora ele se levantou e deixou o discurso de lado, pegou uma Bíblia, se dirigiu ao Vigário de Cristo, colocou a Bíblia em suas mãos, dizendo: “Aqui está, Santo Papa, o início de toda a nossa vergonha, de todo o nosso sofrimento. Até este livro ter chegado a nós, éramos povos livres e dignos, mas depois dele, nós somos os condenados da Terra. Aqui está ele de volta!” Isto Leonardo Boff me contou ao telefone, eu não presenciei. Mas fiquei, confesso, perturbado. A minha reação foi de perplexidade e de orgulho pela altivez desse índio. Na verdade eu me senti representado por ele. Perguntei então: “Leonardo, qual foi a reação do Papa? ” E Leonardo me disse: “Washington, o Papa baixou a cabeça e chorou… foi a única atitude digna naquele momento…”

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