Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte – nº 98 – maio de 2004

ENTREVISTA / Washington Araújo

“Há que se reforçar o sentimento de que pertencemos, todos nós, a uma única espécie, à espécie humana.”

Elizangela Dezincourt
Jornalista formada pela Universidade Federal do Pará, com curso de MBA em Gestão de Pessoas. Especialista em assessoria de imprensa, editora de revistas especializadas e consultora em comunicação. É gerente de atendimento da ED Comunicação, empresa sediada em Brasília. (www.edcomunicacao.com.br)

O escritor Washington Araújo tem 44 anos. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal e da União Brasileira de Escritores, tem 14 livros publicados. Alguns deles publicados também na Espanha, no México e na Argentina. É casado e pai de quatro filhos. Nasceu em Natal (RN) e é membro da Comunidade Bahá´í do Brasil, uma organização não-governamental que atua em defesa dos direitos humanos, pela promoção da igualdade entre homens e mulheres e temas que valorizam a cidadania. Confira a entrevista de Washington Araújo sobre a questão dos refugiados e dos direitos humanos no Brasil. O artigo “O desafio de ser refugiado”, que está no livro Refugiados – realidade e perspectivas pode ser lido clicando aqui. O livro também pode ser comprado nas principais livrarias de todo o Brasil e, em Brasília, no Instituto Migrações e Direitos Humanos.

Poiésis – O que o escritor Washington Araújo pode dizer sobre o desafio de ser refugiado?

Washington Araújo – É um dos mais impressionantes dramas que o mundo vem enfrentando desde a 2ª Guerra Mundial. Com as crises internacionais e a violação dos direitos humanos em muitos países, a quantidade de refugiados cresce assustadoramente.

Poiésis – O que lhe tocou neste assunto para escrever um capítulo no livro “Refugiados – realidade e perspectiva”?

Washington Araújo – Foi imaginar o sofrimento e a dor de milhões de pessoas que se sentem obrigadas a deixar seus países para tentar a vida em um outro, sem conhecer a língua, os costumes e também sem a garantia de emprego. Por outro lado, o sentimento de exclusão social, de estar tomando o lugar de um nacional tem levado muitas nações ao caminho equivocado da xenofobia, ou seja, do ódio aos estrangeiros.

Poiésis – Você vivenciou a realidade dos refugiados muito próxima a você. Como foi essa experiência? Conte-nos.

Washington Araújo – Tenho acompanhado ao longo das últimas décadas a angústia de milhares de bahá´ís que, devido às suas crenças religiosas, tiveram que deixar o Irã, o berço da Fé Bahá´í. A intolerância e a perseguição movidas pelo governo iraniano aos bahá´ís, desde o nascimento da religião, em 1844, tem sido tema de resoluções das Nações Unidas, do Parlamento Europeu e de vários países, como o Canadá, o Brasil e o Reino Unido. Tenho muitos amigos que vieram ao Brasil para refazer seus projetos de vida. São ótimas pessoas, pacíficas, amantes da justiça e abertos à diversidade social, racial, religiosa.

Poiésis – No capítulo que escreveu citou nove desafios por que passam os refugiados. Destes, qual considera mais angustiante?

Washington Araújo – O sentimento de ser excluído, de não ter documentação hábil, de não ter uma cidadania plena.

Poiésis – Que transformação pode ocorrer na “cabeça” da humanidade para reverter o quadro tão gritante de 22 milhões de refugiados espalhados pelo mundo?

Washington Araújo – Há que se reforçar o sentimento de que pertencemos, todos nós, a uma única espécie, à espécie humana. Sem o entendimento de que temos um destino comum a partilhar, continuaremos a ver o aumento de todas as formas de fanatismo, intolerância e violência aos direitos humanos fundamentais.

Poiésis – Você faz parte do corpo de direção de uma organização não-governamental, a Comunidade Bahá´í do Brasil. Qual a visão que os faz acreditar que aos poucos esse cenário vai mudar?

Washington Araújo – É uma visão positiva de que o ser humano tem uma natureza espiritual, que possui uma consciência universal. Sem investirmos na educação das novas gerações, para que nossos filhos vejam a humanidade como sendo as flores de um único jardim, as estrelas de um mesmo céu, estaremos fomentando a desagregação do tecido social. Há que se investir na mudança de atitudes, no polimento de um bom caráter.

Poiésis – Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?

Washington Araújo – É muito grave. Trabalhadores sem terra são enfrentados pela polícia e agem com violência nas ocupações. Temos que entender que a lei é soberana e que a ela todos devem se submeter. Sem isso, teremos o caos social, a barbárie. Sinto que existem sinais positivos na sociedade brasileira visando coibir a violação dos direitos humanos. Mas são necessárias ações enérgicas para a proteção dos mais vulneráveis, como as crianças, os afro-descendentes, as mulheres, os deficientes em geral.

Poiésis – Você se assusta com os conflitos e intolerâncias que estão ocorrendo mundo afora. Que esperança o cidadão pode ter?

Washington Araújo – Temos que pensar que podemos fazer parte da solução e não apenas colocar a culpa de todas as tragédias nas mãos dos governantes. Se limpo o meu quintal é uma parte do mundo que deixo limpo. Se minhas atitudes possuem um componente de bondade, compaixão, amor ao próximo, um pouco da humanidade é fortalecida. A nossa esperança é de que devemos fazer o dia de hoje melhor que o de ontem e, o de amanhã, melhor que o dia de hoje. Devemos evoluir, compartilhar responsabilidades, exercitar o sentimento de solidariedade social.

Poiésis – Conte para os leitores o que eles podem esperar do seu capítulo e do livro como um todo.

Washington Araújo – Que possam refletir sobre esse mal que mina os alicerces da humanidade. Não podemos ser felizes com tanta infelicidade à nossa volta. Meu texto é um convite explícito à reflexão…

Poiésis – Quais as próximas incursões de Washington Araújo pela literatura? Podemos esperar o lançamento de um livro para este ano ou mesmo a colaboração em algum outro livro?

Washington Araújo – Estou concluindo o livro “Desafios da Globalização e outras reflexões”, onde analiso as conseqüências da globalização em nosso dia-a-dia e ofereço algumas idéias para a globalização de outras mercadorias, como a utopia, o sonho…

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